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Segunda-feira, Novembro 27, 2006


escrito às 1:08 PM por Cecilia Giannetti




A MORTE DA FESTA

[Rio Fanzine - Outubro]

Era uma vez uma vizinhança de aluguéis baratos, era uma vez uma cidade que inspirava mais música que penteados, era uma vez o rock. E agora o clube onde cresceram e apareceram artistas como Ramones, Blondie, Talking Heads, Patti Smith e Television, deixa seu espaço na área novaiorquina do Bowery.

Num canto escuro do CBGB & OMFUG (Country, BlueGrass, Blues - Other Music For Uplifting Gormandizers*), pilhas de fanzines formavam a platéia da passagem de som dos últimos garotos anônimos que tocariam no clube antes que ele fosse oficialmente fechado com o show de Patti Smith. Estampados nas capas dos zines, uma foto da entrada do clube na década de 70 e um selo que, hoje em dia, é coisa rara no mundo do rock: ABSOLUTELY FREE.

"Gente, alguém aí tem um Xanax? Não tô legal. Quero chorar". A bartender Karina LaVicchia, 33 anos, trabalhou por cinco no CBGB e encarna o climão de enterro do último fim de semana de função normal do clube: "Estou triste mas anestesiada. É tudo dinheiro hoje em dia. História e música não significam mais nada".

Let's lynch the landlord

O proprietário da marca e da birosca, Hilly Kristal, 74, vinha lutando desde 2005 contra o despejo do CBGB's pelos proprietários do prédio - que, a exemplo de outros proprietários em NY, impõem aluguéis galopantes aos seus inqüilinos. "Meus advogados avisaram logo que era caso perdido", conta, com a experiência de quem gerencia clubes desde a década de 60. Paralelamente, combate um câncer de pulmão. Agora que a campanha Save CBGB deu em nada, ele confirma o futuro do clube mas - bem ao estilo punk - não sabe dizer nem como nem exatamente onde vai enfiar o novo CBGB: "Não há nada definido ainda, não escolhemos um lugar mas é certo que será em Las Vegas e vamos levar para lá tudo que representa o clube". Levará as portas, que tornam a fachada notória, e - promete - até os mictórios. Tudo pela "autenticidade".

A mudança para Vegas parece absurda, considerarmos boa fatia da história inicial do punk e da new wave, atrelada ao clube bagaceiro aberto em 1973. Mas a escolha da terra extravagante dos casinos e shows de ídolos acabados americanos é coerente com o que se tornou o CBGB já há uns bons dez anos: comércio da marca.

Ignorando a cara de poucos amigos da bartender, uma mulher - que tem algo entre 50 e 60 anos - vestindo couro e estampa de oncinha, aproxima-se do balcão perguntando onde pode comprar camiseta CBGB para seu cachorro. Miss LaVicchia resmunga secamente: "Não aqui". Mentira: na lojinha do clube - que continuará em Nova York, em novo endereço - vende-se de tudo que leva a sua marca, de camisas, casacos e suportes para guitarra até calcinhas.

Faça você mesmo... seja aonde for

O que aconteceu ao CBGB não é novidade para os fãs de rock em NY e já roubou da cidade outros marcos da cena, como o Continental, em St. Marks Place, que há um mês fechou seu palco - por onde também passaram Ramones e Smith, e era parada obrigatória para bandas na estrada - após mais de 20 anos, reabrindo como bar-com-jukebox. A praga dos aluguéis altíssimos - e subindo! - expulsa da cidade aqueles que raramente têm dinheiro: gurizada que faz música; e despeja clubes históricos.

"Nova York era um lugar para onde gente criativa vinha tentar fazer sua coisa, independente do que fosse, punk ou fotografia ou pintura. Agora é só um lugar para ricos," me diz Joshua Lee, vocalista da banda novaiorquina The Party Death (http://www.myspace.com/thepartydeath). "O que aconteceu de profético neste lugar pode acontecer em qualquer outro. Já estava morto havia algum tempo," decreta, pendurado no balcão do bar.

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* Gormandizer, na definição assinada por Kristal, pregada num canto da parede do bar, é "um consumidor voraz de, neste caso, música".

escrito às 12:15 PM por Cecilia Giannetti