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Segunda-feira, Setembro 26, 2005

Novela futurista na web

Norte-americano atrai fãs ao narrar viagem pelo tempo e intriga até cientistas

Cecilia Ginnetti

Como você se apresentaria ao mundo se fosse um viajante do tempo? O norte-americano John Titor escolheu começar por um fórum de discussão na internet onde passou a expor, em novembro de 2000, um relato sobre a sua missão: ''retornara'' do ano 2036 até 1975 numa máquina criada pela General Motors para buscar um computador da marca IBM, modelo 5100, na casa de seu avô, um especialista em informática que trabalhava para a empresa.

Resolvido este problema, contou, decidiu dar uma passadinha na casa dos pais, na Flórida, em janeiro de 2001, onde conviveu por dois meses não apenas com eles mas também acompanhado de uma versão de 3 anos de idade de si mesmo. O último post de Titor data de 24 de março e anuncia sua volta a 2036.

O que deixou para trás, na web, é um tipo de ficção científica que, sem se assumir literária - e dispensando também o formato usual de livro - aproveita internet, a permanente paranóia norte-americana em torno de questões patrióticas e militares e relatos diretos do futuro nos quais, segundo ele, o fascismo predomina.

Os primeiros posts desse H.G. Wells-internauta atraíram antes os velhos freqüentadores do fórum (http://www.timetravelinstitute.com/ttiforum/), aficionados por teorias conspiratórias e, principalmente, causos sobre viagens no tempo. Num nível de narrativa diferente do caos dos blogs, a história é construída a partir desse diálogo online.

Titor mobilizou um tipo de leitor geralmente perdido num ambiente dispersivo de zilhões de possibilidades de cliques e hyperlinks. Sabatinado diariamente por centenas de leitores sobre tópicos relacionados à vida no futuro e seus motivos para viajar no passado, desenvolveu seu ''romance'' ao longo de três meses de bate-papo na internet.

Hoje, três anos depois que seu último post foi ao ar, ainda deixa com a pulga atrás da orelha pesquisadores como Karl Simanonok, um Phd em física e biologia radiotiva de 54 anos, formado pela Universidade da Califórnia.

- A história que ele conta tem forte consistência, com poucos ''buracos'', algumas discrepâncias - opina Simanonok.

Interessado nas teorias com que Titor salpicava sua novela futurista interativa, Simanonok decidiu criar um website para alinhavar a lenda de Titor. Em menos de um ano, o http://www.johntitor.strategicbrains.com recebeu quase 1 milhão de visitantes.

- Quis evitar que fosse tudo completamente esquecido no ''fluxo'' da web - explica.

Mas este não é o único motivo. O PhD de Simanonok não o impede de acreditar na possibilidade de Titor ter sido um viajante do tempo. O pesquisador arquiva no site o copyright das mensagens de Titor. Ele registrou as mensagens para provar que não haviam sido produzidas depois de os fatos ocorrerem, por enxergar paralelos entre um dos comentários feitos pelo personagem e a realidade em que os Estados Unidos começavam a mergulhar então.

''Vocês estão realmente surpresos por descobrir que o Iraque tem mísseis agora ou isso é só baboseira para arrastar todo mundo a aceitar a próxima guerra?'', provocava Titor. Em fevereiro de 2001, o viajante afirmou que os americanos entrariam na guerra usando como justificativa armas que os iraquianos estariam escondendo, mas, na verdade, não possuíam. Os leitores de Titor adoraram as coincidências. Outros, decidiram se aproveitar delas para criar a Fundação John Titor, representada por um advogado espertalhão chamado Larry Haber, que arrecada verbas para ''ajudar a família do viajante na Flórida''.

- São um bando de mentirosos, é claro - diz Simanonok.

Quem gosta de ficção científica vai se deliciar com as complexas explicações de John Titor sobre os procedimentos que podem viabilizar a viagem no tempo. Para fisgar o leitor na web, onde o excesso de informação e distrações torna difícil que alguém agüente ler um livro inteiro na tela do computador, Titor usa bons conhecimentos de História mundial, especialmente guerras, e bases reais: ele cita centros de pesquisa reais como o CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), em Genebra, criado há 50 anos. Foi lá que, na década de 90, o sr. WWW, ou seja, Tim Berners-Lee desenvolveu a World Wide Web.

E Titor garante: lá também surgirão, nos primeiros anos do século 21, as primeiras descobertas necessárias para garantir um ''rolé'' pelos séculos futuros e passados, que já estão ocorrendo hoje, na CERN.

Na imaginação do viajante, a invenção que possibilitaria a criação de um sistema para esta improvável viagem aconteceria por conta dos cientistas da CERN (http://public.web.cern.ch/public) e a máquina do tempo propriamente dita, construída pela General Motors. A engenhoca surgiria a partir das pesquisas do CERN sobre massa, gravidade e prótons acelerados a altíssima velocidade. Isto é feito através de aceleradores de partículas, que já são utilizados na medicina (no tratamento do câncer e tecidos danificados), na criação de túneis para metrô, na identificação de bagagem contendo drogas nos aeroportos e, em breve, na esterilização de água contaminada e transformação de lixo nuclear em material inofensivo.

Se John Titor tinha ou não a intenção de fazer um livro online, ninguém sabe. Mas a troca de mensagens detonada por ele alinhavou uma espécie de história de ficção científica que até hoje está disponível em vários sites, construída, passo a passo, online; um tipo de literatura em que o autor coloca-se como personagem e se entrega aos seus leitores. Sem perder o timing da ficção.

escrito às 1:44 PM por seesaw




Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Ferrez: Morando dentro do tema

Cecilia Giannetti

Autor de livros em que mistura ficção à sua vivência na periferia, Ferréz não deixa o Capão Redondo, onde nasceu

Capão Redondo, bairro da periferia paulista. Por trás do balcão da padaria, o menino Reginaldo Ferreira da Silva vê o carro da polícia parar em frente. Um grupo de policiais armados desce e faz ao garoto um pedido um pouco insólito. Precisam de baldes d'água e um pano para limpar o carro. Iam transferir um cadáver para outro veículo. A viatura tinha que ficar limpa. Quem conhece o texto de Ferréz, de 27 anos, encontra nessa história da infância do escritor traços vivos da literatura que produz hoje.

O sucesso de Capão pecado (Labortexto, 2002) não o tirou do bairro que inspirou o livro. Nascido em Valo Velho, região do que é considerado um dos bairros mais violentos de São Paulo, Ferrez continua, como diz, ''morando dentro do tema''. Alia ficção à vivência na periferia para construir um texto veloz, sem barreiras com a realidade. Combinadas com a militância do escritor no Capão, essas características geram polêmicas com outros autores. Em debate na 18ª Bienal do Livro de São Paulo, na última semana, Ferrez contou ao público sobre uma crítica que recebera naquela semana - por telefone - de Marcelo Mirisola. O autor de Bangalô (Editora 34) e colunista do site America On Line teria dito que Ferréz não faz arte, mas está ''concorrendo para virar santo'' e que a literatura de verdade não deveria abordar questões sociais.

- Falar da realidade e não interferir nela é hipocrisia. Não posso ficar no meu escritório escrevendo sobre o que acontece sem fazer nada - contra-ataca Ferréz. E esquenta a polêmica:

- Esses caras erraram ao escolher o nome Transgressores para aquele livro [refere-se à coletânea de contos da editora Boitempo, de que Mirisola faz parte]. Não tem nada de transgressão em sentar num barzinho da Vila Madalena e beber chope.

Para Mirisola, é arte pela arte ou nada:

- Eu acho muito perigoso dizer que a literatura pode tirar alguém da marginalidade. O que ele faz é assistência social - rebate.

Alfinetadas à parte, Ferréz procura maneiras de modificar o bairro, que tem poucas opções de lazer e cultura. Sua empreitada mais recente é a compra de uma casa para construir uma biblioteca e tornar mais fácil o acesso a livros no lugar. Ele não esquece que, para que
descobrisse a leitura, foram necessárias duas coincidências:

- Comecei a ler gibi por acaso: um cara largou uma revista da Marvel num banco. Eu catei, mas só depois de ver se ele não ia voltar pra pegar. Minha mãe não deixou eu encostar na revista até ter certeza - conta.

Quando as histórias em quadrinhos não davam mais conta da curiosidade de Ferréz, veio o segundo acaso: ao levar um frango assado para um vizinho em dificuldades, encontrou livros que a mãe do garoto deixara ao abandonar a casa. Entre os títulos, Sidarta, de Herman Hesse, chamou-lhe a atenção. Foi o responsável por fazê-lo trocar os quadrinhos pelos romances. A partir daí, passou a visitar sebos em busca de livros a preços acessíveis. Foi assim que leu ''o que ninguém queria mais'' - João Antônio, John Fante, Bukowski e os beatniks.

Nenhum deles, no entanto, merece o destaque que Hesse tem em sua casa.

- Tenho uma foto dele em cima da mesa. Tem gente que olha e pergunta se é meu avô - ri.

Popular nas ruas do Capão, onde o esgoto corre a céu aberto, Ferréz tem aproveitado a fama para criar oportunidades para a vizinhança.
Recebe currículos de seus leitores e vizinhos desempregados que repassa a voluntários da platéia de suas palestras dispostos a ajudar.

A transação é informal.

- Vem sempre alguém falar comigo no final de uma palestra. Às vezes a pessoa sabe de uma vaga numa empresa, eu conheço gente que precisa trabalhar e encaminho - explica. Com um novo livro, Manual prático do ódio (Editora Objetiva), o autor se considera uma referência para a comunidade onde nasceu:

- Sou um bom exemplo pros moleques, do tipo que a mãe pode apontar na rua e dizer: ''aquele ali é escritor. Tem que estudar pra ser que nem ele''. Da mesma maneira, muitos rappers da área deram certo e ficaram por ali, pra servir de exemplo, fazer palestras, ajudar.

A revista Literatura Marginal, que publica em parceria com a Caros Amigos, faz parte do plano de ação. Uma parte dos exemplares é destinada a penitenciárias e à Febem. A venda dos demais serve para patrocinar a próxima edição e pagar os autores publicados. Outra
ferramenta é o hip hop, com que Ferréz já trabalhava antes de ser escritor, compondo para grupos como Detentos do Rap. Em janeiro, atacou de MC, lançando o CD Determinação, com participação do amigo Arnaldo Antunes.

Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, também faz parte do seu círculo de amizades. Apesar da temática do trabalho de cada um cruzar-se em alguns pontos, Ferréz aponta influências diversas:

- É que ele foi universitário, é professor [Ferrez parou de estudar no terceiro ano]. Já eu não leio pesquisas sobre questões sociais, geralmente são escritas por quem não entende a realidade direito.

Romances que tratam de um panorama distante do que é vivido pelo autor também não fazem a cabeça de Ferréz. Ele cita como exemplo Inferno, de Patrícia Melo, sobre a vida de um garoto que se torna líder do tráfico de drogas em um morro carioca.

- Tem gente usando os pobres para ganhar dinheiro.

Ferráz também tem ressalvas quanto a outros autores que abordam em seus textos a realidade marginal, como Fernando Bonassi e Marçal Aquino:

- Eu vejo muitas falhas nesses textos, apesar de achá-los bons escritores. Quando um cara entra num bar e a bala come, é só ''pipoco'', não tem diálogo. Se der tempo de gritar alguma coisa, é só ''PQP''. Na descrição deles [ os autores], o pessoal diz: ''Nossa!''.

Para o escritor, o contato com o ambiente que o inspirou a escrever é essencial para que continue envolvido com literatura. Diz que maior parte dos autores têm cheiro de naftalina, como se vivessem guardados:

- Não consigo desvincular realidade de literatura. O escritor tem de estar vivo, presente na comunidade. O problema é de todas as classes, mas fica difícil resolver porque a única representação do Estado que a favela conhece é a polícia.

Curiosamente, diante da chance de levar o cotidiano do Capão para as telas de cinema, Ferréz recuou. Quando o produtor John Daly (de Platoon) o procurou, interessado em transformar Capão pecado em filme, pesou contra a idéia o medo de marcar o bairro com uma imagem negativa:

- Ultimamente, estão abrindo lojas lá e isso gera empregos. Mas os investimentos iam parar se fizessem um filme violento sobre o Capão.

Decidi não fazer - afirma.

Levado a uma ''boate de rico'' por Daly, ele testemunhou a violência
que não nasce na pobreza:

- Saiu uma briga daquelas, no meio dos boys. Pensei: ''pô, tô no Capão''!

Na mesma semana em que participou do debate na Bienal de São Paulo, Ferréz apareceu no programa Usina, da MTV, para discutir sobre segurança e criminalidade. O canal de música garantiu uma platéia semelhante a que o rodeou na feira de livros: predominantemente jovem, com camisetas de grupos como Ramones e Nirvana e cheios de perguntas.

Por dentro do crime

No estúdio de TV, no entanto, o papo foi menos tranqüilo. Ferréz indignou-se com os comentários do outro debatedor, Rodrigo de Almeida Prado, empresário do ramo de importações que defende o porte de armas pelos cidadãos e dizia falar em nome da classe média. No debate, mediado pelo apresentador Cazé, Rodrigo afirmou que a polícia deveria intensificar suas ações nas favelas. Ferréz discorda:

- Com isso ele quis dizer que a polícia deve invadir mais barracos, né?

Entre as declarações do empresário que mais o irritaram estava o seu desejo de adquirir um carrinho de bebê blindado quando tiver um filho.

- Isso é um exagero. [O cantor e compositor]Chico César já veio aqui em casa de busão e não aconteceu nada - rebate Ferréz.

Manual prático do ódio traveste em personagens as pessoas de quem Rodrigo de Almeida - e muitos outros, empresários ou não -, querem se proteger. O autor acredita que, criando uma trama que divisa tanto a vida íntima de criminosos quanto os meandros da ação que planejam, ele possa mostrar que o bandido e o cidadão comum estão separados apenas por um fator: o crime. O livro acompanha a trajetória de Régis, um homem prestes a embarcar num assalto por acreditar que sua felicidade estará completa se tiver mais dinheiro. Sua história é a de muitos, e a culpa não é apenas do meio em que vive:

- Hoje tem moleque com fuzil na mão dando tiro. É que botam tanto na cabeça do cara que ele deve ter o padrão de vida da Malhação que ele faz tudo mesmo pra conseguir.

Ferréz diz que ''a arte resgata vidas'' mas sabe que nem todos poderão se tornar escritores ou rappers famosos. Ele salienta que, apesar disso, onde ela se faz presente há a possibilidade de uma porta se abrir:

- O que se aprende no caminho é importante. Se o cara não faz sucesso na música mas for interessado, pode virar técnico de som, trabalhar com isso.

Seu compromisso com o bairro também inclui palestras gratuitas e workshops em organizações não-governamentais. Mas ressalta que nem todas as ONGs que encontra nas comunidades são confiáveis: há aquelas que realizam apenas medidas paliativas e, segundo ele, ganham dinheiro no processo.

- Muitas vêm aqui, constroem muros altos e deixam a população de fora.

Ajudam um ou outro e embolsam grande parte do dinheiro. O tratamento que o escritor dá ao tema da violência urbana ultrapassa os limites dos bairros onde se concentram as populações carentes - um termo que evita, por achar pejorativo. Seu texto atropela a pontuação para lembrar que o clima de guerra hoje atinge tanto as quebradas quanto os bairros mais ricos. Em Manual, as fronteiras da responsabilidade social são rompidas pela necessidade e pelo sonho:

''(...) imaginou que era um gigante, um gigante com mais de dez metros de altura, sua mão levantando sua casa, imaginou sua mão embaixo da casa, levantando-a e colocando em outro lugar, um lugar onde não haveria lixo, onde o córrego fosse canalizado (...) sem a favela vermelha chamada de Cohab, imaginou todos iguais''.

escrito às 10:09 AM por seesaw




Domingo, Setembro 04, 2005

Rinha de rappers - Jornal do Brasil

'Batalha do Real' reúne na Lapa MCs que disputam verso a verso prêmio e fama
Cecilia Giannetti


Sábado, 27 de setembro. Madrugada. O chão está enlameado, apesar de não ter chovido. De vez em quando um pingo grosso cai do teto: casa cheia, paredes suadas. Os meninos tiram a camisa e exibem os resultados da malhação enfeitados por tatuagens e cordões de prata ou ouro pendurados no peito. As garotas vão de top ou camisetas bem decotadas para enfrentar a temperatura no Balcão da Lapa, um salão de sinuca que fica no número 73 da Rua do Riachuelo.


É lá, que, desde abril, acontece a Batalha do Real, disputa entre MCs em que os versos são improvisados e cuspidos na cara do adversário. Organizada pelos rimadores Marechal e Aori , o local chega a receber 500 pessoas, com dezenas aguardando na calçada para entrar. Nesta noite, final do I Campeonato da Liga de MCs do Rio de Janeiro, há cerca de 350 aqui dentro. Nas primeiras competições, o público não pagava para entrar e o vencedor de cada noite ganhava como prêmio notas de R$1,00 que eram recolhidas entre a platéia (daí o nome do evento). Agora, o melhor improvisador vai levar uma porcentagem sobre os ingressos cobrados na entrada. O palco instalado ao fundo do salão serve de ringue, a cada rodada, para dois MCs armados de rimas para conquistar a platéia, que decide com aplausos e gritos quem é o melhor. No calor da disputa, as ofensas são meras ferramentas de trabalho: os MCs se xingam, desenterram podres do passado, propõem futuros desafios, mas tudo costuma acabar sem mágoas.



- A batalha mais sinistra que eu já vi foi Marechal contra Don Negrone. Os dois se conhecem há anos, tinham muita roupa suja pra lavar. No palco vale tudo. - conta Matias Maximiliano, 23 anos, que há cerca de dois anos reúne material para um documentário sobre o movimento hip hop no Rio de Janeiro. - Esses caras estão ficando grandes, fazendo show por aí. São os melhores do underground. - avalia.



Max B. O., do coletivo paulista Academia Brasileira de Rimas, é o mestre-de-cerimônias convidado a apresentar a finalíssima. Considerado um dos melhores improvisadores de rap do Brasil, sucede na função Jovem Cerebral e Xis, que comandaram as etapas nos fins-de-semana anteriores.



-- São Paulo não tem Liga de MCs! É só aqui! - Max grita ao microfone e a platéia urra de volta. Não se trata de alimentar picuinhas bairristas. Ele explica: se o rap paulista tem mais CDs lançados que o carioca, os rappers cariocas estão menos dispersos por conta dessa iniciativa.



Antes de surgir a Liga dos MCs cariocas, quem gostava de rap no Rio se cruzava na festa Zoeira, pioneira do gênero na Lapa, ou na Freestyle, da Fundição Progresso, organizada pelo coletivo Brutal Crew. O fim de uma e a periodicidade incerta da outra esfriaram o público por um bom tempo, até o surgimento da Batalha do Real. Com dia e lugar certo para conferir os MCs em ação, os fãs de hip hop ganharam um novo ponto de encontro. O sucesso do evento exigiu mais profissionalismo na produção e Brutal Crew, acabou assumindo a organização das batalhas.



- Somos um crew de hip hop: lidamos com a cultura hip hop, produzimos eventos de hip hop, além de músicas e roupas da nossa própria grife - explica César Schwenck, 22 anos, um dos oito integrantes do coletivo que inclui MCs (entre eles Aori), DJs, designers e produtores. O Brutal Crew existe desde 1998 e fincou seu Q.G., o estúdio conhecido como Campo de Concentração, na Lapa.



- Brutal! Só sinistro! Brutal! Brutal! Só sinistro! - Max B. O. arranca da platéia o grito de guerra, já registrado em CD produzido pelo coletivo. É o sinal de que o intervalo pro público dançar ao som do DJ e produtor Cristiano Rafael, terminou. Mais dois rivais sobem ao palco e começam a disputa. Na finalíssima, concorrem os MCs Papo Reto e Slow. Marechal, campeão invicto até esta noite, não aparece para defender seu posto; viajou para fazer um show em Recife, onde já chegou sua fama de rimador. Papo Reto leva o prêmio - R$ 200, uma camiseta da Brutal Crew, mais um DVD e um CD cedidos pela Universal Music.



- É importante ter um lugar onde as pessoas se concentram pra trocar uma idéia e ver quem são os bons MCs. - explica Verônica Nascimento, 22 anos, uma das produtoras. - Com a Batalha, vieram pra Lapa MCs que a gente não conhecia, gente de Ipanema, da Baixada, de Jacarepaguá, de Santa Cruz.



E até de Angola: em uma das primeiras edições da Batalha, um MC angolano acusou os organizadores e o público de xenofobia por sua desclassificação. A crítica não foi levada a sério, uma vez que o MC garantia-se mais em ''Yós!'' sucessivos que nas rimas.

Xenofobia e fronteira na Lapa

Desde então, ''xenofobia'' é usado como uma espécie de gíria sarcástica pelos freqüentadores da casa, representando qualquer tipo de injustiça. Exemplo: colocar mais cerveja no próprio copo que no de um parceiro é xenofobia.


Brincadeiras à parte, as fronteiras entre comunidades, cidades e crews são sempre lembradas por quem sobe ao palco. Marechal vem de Niterói, o Jovem Cerebral representa o Morro da Mineira, e por aí vai. Mas, junto aos seus nomes, falam sempre na Lapa, uma referência de lugar e geração que se revela no grito ''Éle-A-Pê-A''. Ou, como faz o rapper Don Negrone, no improviso: ''Lapa/Q.G. do Brutal Crew/ Isso é hip-hop nacional, amigo/ Isso é Brasil''.



Já há propostas para levar o evento a outros estados. Mas, por enquanto, a Batalha continua na Lapa. Este sábado, dia 4 de outubro, os MCs voltam a guerrear com palavras no Balcão, com ingressos a R$ 1,00, garante a produtora Verônica. Com muito calor humano, já que a casa não tem ar condicionado. Continua tudo chapa quente.


Os bambas

Aori: um dos criadores da Batalha, é conhecido também pelo som que faz com Inumanos, em dupla com o DJ Babão.
Marechal: ex-integrante do Quinto Andar, tem participações no disco do Instituto ( de São Paulo) e de Marcelo D2 (produziu a faixa "Loadeando"); tem um disco em andamento

Don Negrone: indicado ao prêmio Hutús, especializado em rap, este ano, por melhor demo; atualmente, grava Armaggedon, seu primeiro CD

MC Tigrão: parceiro de Emerson Facão na dupla Ciência Rimática, está na coletânea de hip hop Direto do Laboratório, da Trama

Papo Reto: considerado a surpresa da noite, venceu o I Campeonato da Liga, desclassificando Aori

Papo de MC

MC: abreviação de Mestre de Cerimônia, é quem comanda o microfone e a galera em festas e shows; rapper, em geral.

MC Crews: grupos que reúnem MCs, DJs, grafiteiros, produtores de som e de festas, designers, etc.

Freestyle: rap criado de improviso

Digital Dubs: grupo do DJ Dubmaster

Flow: é a levada de cada MC, o fluxo de rimas aliado ao ritmo

Família: quando um MC chama a "família" para ver a Batalha, não é pai-mãe-titia; são os amigos

B-Boys-Girls : dançarinos especializados em street-dance Xenofobia injustiça, preconceito; marmelada ao julgar um mano na Batalha.

Links

Digital Dubs Sound System (coletivo do DJ Cristiano Dubmaster): http://www.esquemageral.com.br

Prêmio Hutus 2003 - http://www.hutus.com.br

Quinto Andar (coletivo de origem de Marechal) - http://planeta.terra.com.br/arte/quintoandar

Real Hip Hop (revista) - www.realhiphop.com.br

escrito às 11:01 AM por seesaw