O estilo largado do rapper de Niterói Nominimo.com.br
Cecilia Giannetti
O primeiro som que se ouve quando começa a rolar o CD "Introduzindo", estréia independente do rapper De Leve, é o "ô-ôu" na voz infantil-eletrônica do ICQ (I Seek You), que anuncia a chegada de mensagens. O barulho do software de comunicação online, mais comum hoje em dia que canto de passarinho, pontua os quatro minutos de discurso da faixa "Nêgo gosta". De Leve (nome de batismo: Ramon Moreno), 22 anos, é ávido usuário de internet, assim como boa parte dos jovens de classe média de sua idade. Integrante do Quinto Andar, "coletivo" de hip hop que tem sede em Niterói e inclui rappers, DJs e produtores, ele usa a rede para trocar arquivos de MP3, adquirir softwares com os quais cria as bases eletrônicas de suas músicas e entrar em contato com parceiros de outros estados, como os paulistas do Instituto, antiga patota do rapper Sabotage (assassinado com quatro tiros ao voltar para casa na madrugada de 24 de janeiro).
A web tem trabalhado para De Leve mais do que ele esperava. Bastou disponibilizar um MP3 para download no site do Quinto Andar para que a música "A Lenda" virasse uma espécie de hit udigrudi entre a turma conectada. "Aparece gente de Curitiba, de São Paulo, de Brasília dizendo que se amarra", conta De Leve, caminhando pelo Leblon na volta da praia. E não perdoa: "Eu fiz a música de palhaçada, é só babaquice".
Erros gramaticais e chiliques
Do nonsense absoluto que impera de cabo a rabo na letra sobre um camarada "cheio de caô" e enrolado, os fãs arrebanhados na Internet pinçaram para uso diário expressões do naipe de "Eu não chamo minha avó de meu cumpadi, eu chamo de meu bróóóder" e "fre-fre-frenética". Além de gírias e de piadas internas ininteligíveis, a gravação conta ainda com um timbre de voz jocoso com que De Leve estica sílabas no final de cada frase. Por mais estranho que soe, o resultado conquistou quem gosta da batida hip hop temperada com humor e levou à procura de outras músicas do rapper. Tudo via computador.
Guilherme Barrella, 25 anos, radialista e dono do selo Bizarre Music, de São Paulo, foi apresentado à música por um colega de trabalho que conhecia os rappers do Quinto Andar. Viciou-se na faixa e passou a espalhar pela web seu MP3: "Mandei pra todo mundo que eu podia. O pessoal gostava tanto que saía passando adiante que nem louco. Sem falar no efeito dominó nas empresas: quando um recebia, de repente todo mundo tava ouvindo".
Ricardo Henrique Montenegro Cima, 24 anos, estudante de História em Brasília, conta sua versão do encontro com a faixa: "Eu conheci por um amigo que estranhamente nem é tão antenado assim no meio musical e nos lançamentos. Espalhou assim como se espalha qualquer música curiosa que vem de fora. Acho que só é impactante mesmo porque não faz concessões. Eu mesmo já toquei numas festas e rola aquele efeito maneiro, esvazia a pista, mas fica uma galera que sabe de cor".
Com o boca-a-boca eletrônico funcionando a favor, De Leve não se preocupa com formalidades de divulgação: "Minha divulgação, até agora, foi toda feita por quem ouviu e gostou, por MP3 e Internet. Hoje em dia, nego monta uma banda e, antes de fazer as músicas, já tem pronto o release. Eu nunca tive um, fico de escrever, deixo pra lá...".
Parte do charme de De Leve está justamente na displicência que passa pela maneira como lida com a divulgação do seu trabalho e vai até a qualidade dos registros das músicas. Ele tem consciência disso e assume a tosqueira com "Largado", um hino para os "maluco que andam de havaiana": "A melô dos irmão que só estréiam ropa nova no aniversário/ que ganhou da namorada/ que custou ficar o resto do mês sem salário."
Não faltam erros gramaticais e de concordância verbal para causar chiliques nos puristas. A gramática fica em segundo lugar quando sua intuição gera pontos de identificação com o que De Leve considera "classe média falida", na qual se inclui, acenando com desabafos como "É mó pressão, não tenho emprego, só tem quem pague mal" - em "Melancólico Irônico", sua maior letra, com 850 palavras, sem refrão, escrita em 20 minutos, dedicada "a cada maluco que já foi confundido com ladrão, e ficou preso na porta giratória de tão mal vestido/ pra todos aqueles que só mudam de camisa, mas ninguém percebe porque o pacote são de 3 iguais GG e lisa".
Rap no clima faça-você-mesmo punk
"Minha mãe é manicure, meu pai é taxista e eu moro em Niterói", ele explica em "Eu rimo na direita" (com direito a sample de Curtis Mansfield), mas não desenvolve a informação com investidas na temática de periferia. Morador de Icaraí, bairro niteroiense de classe média, freqüenta bailes funk desde moleque e considera rap e Miami Bass (raiz gringa do funk carioca) a mesmíssima coisa: "Funk é rap, rap é funk; eu ouço a galera do rap falando mal de funk, dizendo que é uma merda, mas a galera do funk ouve Racionais amarradão", critica.
De Leve tentou corresponder às expectativas dos pais entrando para a Faculdade de Biblioteconomia da UFF, mas trancou a matrícula e depois abandonou o curso de vez. Também quase migrou do rap para o funcionalismo público: passou no concurso para auxiliar judiciário com quase 80 de pontuação, mas até hoje não foi chamado. Se fosse convocado agora, não iria: "Hoje em dia todo mundo acha minha música legal porque saiu na televisão (em "Cidade dos Homens", da Rede Globo). Meu irmão, que é bombeiro, dizia que eu fazia música pra maconheiro. Agora todo mundo tá feliz, alegre, agora é legal", constata, rindo. Deixados de lado a faculdade e o eventual emprego por concurso, garante: "Sempre gostei de estudar, mas Biblioteconomia não. Gosto de ler. Agora eu tô lendo o Michael Moore, um da Naomi Klein, sobre globalização, uns textos do Bakunin também".
Dentro do espírito anarquista, o segundo CD independente de De Leve, "Estilo Foda-se", abre com uma faixa que funciona como uma "festa da música tupiniquim" às avessas: em vez de enaltecer, detona Jorge Vercilo, Carlinhos Brown, Jota Quest, Sandy & Júnior, entre outros. ¿É tudo pra enganar trouxa¿, sublinha o tom crítico. E propõe, irônico: ¿Bota tudo no mesmo saco e manda pra Disney¿. Tem uma explicação peculiar para esse tipo de sucesso: ¿Sou melhor que ninguém não, mas isso tudo aí é mó caô. As pessoas compram porque rola uma manipulação sinistra, primeiro de vendas. Dizem que cada um vendeu um milhão de cópias e não vendeu porra nenhuma. Depois, joga o dia inteiro isso na televisão e o sujeito acha que é isso que tem que ouvir, principalmente criança, que pega tudo na osmose¿.
Já gravou uma faixa com as sobrinhas, intitulada "Tio De Leve", e sonha: "Se criança deixasse de ouvir Bros pra me ouvir, eu ia ficar muito feliz. Amigos meus que já têm filhos dizem que as crianças gostam do meu som, acho do caralho". Para ele, fazer rap não é difícil. Pelo contrário: "É fácil fazer e tem mó galera fazendo. O rap é o punk rock de hoje em dia. Qualquer um faz a batida e canta em cima. Não precisa ser grandes coisas. Nêgo diz que eu tenho talento... pô, valeu, mas qualquer um pode fazer. É 90% suor, trabalho; só o resto é talento".
De Leve admite sem rodeios: "Meu som é tosco mesmo". Lembra que o primeiro CD foi gravado em uma semana no estúdio da Tomba Records, em Niterói. Entre os recursos que ajudam a criar as bases eletrônicas para as letras do rapper, estão máquinas, como MPC, e programas considerados bem simples em relação às últimas novidades do mercado, como o Fruityloops ("mó brinquedinho bonzão"). Ele confessa: "Eu pegava esses programas com colegas, tudo pirateado".
Partido alto no Segundo Mundo
Pirataria, aliás, não é um bicho-de-sete-cabeças para o rapaz. Lançando no próximo dia 25 seu primeiro álbum por um selo com distribuição nacional, o Segundo Mundo, do produtor Dudu Marote (que produziu Adriana Calcanhoto, Skank, DJ Marky e Fernanda Porto, entre outros), ele considera a pirataria outro braço aliado da web: "Todo mundo tem mais é que ter gravador de CD em casa mesmo. Cansei de ver meu disco pirateado em loja de São Paulo. Chego lá e pergunto pro cara: "Pô, esse não é aquele que eu te vendi, né?". É pirata, mas pra mim é bom, é divulgação. Artista só aparece na televisão reclamando de pirataria porque a gravadora obriga".
O Segundo Mundo de Dudu Marote não o fez declarar nada parecido e, para ajudar a divulgação automática que a internet e os fãs já oferecem, o rapper ensaia um show, com estréia prevista para janeiro, no Teatro Rival, no Rio. "A gente quer fazer junto com o B Negão, que também vai estar lançando disco novo", conta ele.
Ao lado de Castro, Bruno (produtores do Quinto Andar) e Shaolin, De Leve prepara o repertório, que inclui uma faixa com ecos de partido alto: "O Castro toca guitarra, violão e cavaquinho no disco novo". Conta ainda que escuta muito partido alto: "Tenho ouvido Clementina direto". Vai falando quase sem parar: "Pô, eu falo mais que a língua!", diz quando a fita do gravador chega ao fim, fazendo um trocadilho instintivo como suas letras.