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Quinta-feira, Junho 24, 2004

SIRI HUSTVEDT - As múltiplas paixões de Siri - Jornal do Brasil

Em 'O que eu amava', Siri Hustvedt, mulher do escritor Paul Auster, costura suas obsessões ao relato de 25 anos na vida de um grupo de amigos e amantes.

Cecilia Giannetti

Então você concorda comigo que o romance é um balaio de gatos?'', pergunta o artista plástico Bill Wechsler, a certa altura do romance O que eu amava, o terceiro da norte-americana Siri Hustvedt, que a Companhia das Letras lança agora no Brasil. Casada há 23 anos, vivendo no bairro nova-iorquino do Brooklin com o também escritor Paul Auster, a autora de ascendência norueguesa não deixa dúvidas de que concorda com o personagem.

No mesmo livro, ela conecta suas múltiplas paixões, costurando áreas de interesse como a esquizofrenia; o temperamental mercado de arte contemporânea em Nova York (Siri escreve artigos para revistas especializadas em arte); o começo da evolução da cena de música eletrônica na cidade; o gap entre a geração que viveu o flower power, na década de 70, e o embrião da geração X, que mostraria a cara nos anos 90.

Tema recorrente em seu trabalho (explorado nos dois romances anteriores, The enchantment of Lily Dahl e The blindfold, inéditos no Brasil), as patologias mentais voltam a ser abordadas pela escritora: além do comportamento esquizóide, a bulimia e a anorexia também são levadas pela autora ao contexto dos personagens sem que isso prejudique o viés ficcional da trama. Siri oferece um ângulo nada didático sobre ''patologias culturais'', ou seja, a relação intrínseca entre o patológico e as modificações na esfera cultural ao longo das décadas.

- Sempre gostei de livros sobre neurologia, costumo ler bastante sobre o assunto - explica, por telefone, ao JB.

- Sou profundamente fascinada pelo estudo de doenças mentais, acredito que nos auxilia a compreender melhor o que somos e o que é ser normal.

Menos conhecida que o marido, a autora, de 49 anos, admite ouvir as opiniões de Auster sobre o que escreve. Mas O que eu amava prova que ela tem seus próprios caminhos na literatura.

- Escrever é uma atividade estranha, sempre me leva a lugares diferentes. Com esse livro, eu às vezes sentia que me tornava o Leo - revela, referindo-se ao protagonista.

Em seus dois primeiros livros, são mulheres que conduzem a narrativa. O que eu amava marca a primeira vez em que ela arrisca usar um narrador masculino.

- Foi quase como interpretar, como habitar o corpo de um homem - conta a autora, que virá ao Brasil em julho com Auster para lançar o romance no Festival Internacional de Literatura de Paraty (Flip - www.flip.org.br).

- Estamos ansiosos para chegar ao Rio. Estou escolhendo o que vou ler para o público no evento - diz, ressaltando que dificilmente será um trecho pinçado da segunda parte do livro.

- Eu penso em sua primeira seção como o paraíso: a vida com a família e os amigos pode ser o mais perto que se pode chegar dele na Terra, e os personagens têm algo próximo disso. Depois, é o inferno - afirma, sobre o acidente fatal que abala o idílio dos personagens.

Entre a equipe da Henry Holt, editora que lançou o livro nos Estados Unidos, houve quem brincasse sugerindo que fosse colocado algum tipo de aviso na capa sobre o que ocorre no livro, para ''amortecer o choque'' de leitores mais emotivos. Siri lembra que é comum pessoas lhe contarem que choraram ao chegar no capítulo em que tudo muda repentinamente para os personagens.

- Prefiro que não revelem nas resenhas qual a tragédia, embora o livro se sustente mesmo que o leitor já saiba o que é - pede.

A história começa quando Leo compra um quadro numa galeria do SoHo, em 1975. Em seu apartamento, observa-o, absorto, e o primeiro elemento que chama a sua atenção na tela é a mulher deitada no centro de uma sala vazia. Detalhes periféricos o intrigam, como ''a mulher invisível'', outra figura feminina que sai do quadro, representada apenas por seu tornozelo e um mocassim. Além disso, sobre a barriga nua da figura central, o artista pintara a própria sombra, incluindo-se na obra intitulada Auto-retrato. A mulher de Leo, Erica, também está fascinada: ''É como olhar para o sonho de outra pessoa''.

A partir da compra do quadro, o casal fica amigo das pessoas de carne-e-osso representadas nele: o artista, Bill, sua esposa, a poeta Lucille, e Violet, a modelo principal. A composição criada por Bill agrega pistas sobre as diversas camadas que constituem o enredo do livro.

Como o pintor e sua tela, Siri também projeta a própria sombra sobre o trabalho, explorando suas obsessões paralelamente à teia de acasos e afetos descrita pelo narrador. É o ponto de vista de Leo, em sua velhice, que predomina: ''Minhas imagens do passado continuam vívidas. Foi o presente que foi afetado, e as pessoas do meu passado que ainda vejo hoje em dia tornaram-se seres borrados por nuvens'', relata o protagonista. Ele tem problemas de visão na velhice (degeneração macular), mas acredita que mantém intacta a memória de fatos e pessoas. Dessa maneira, relembra os 25 anos de convívio do grupo.

Eles acabam morando e criando seus filhos no mesmo prédio em Nova York. Ao longo dos anos, estabelecem um intercâmbio intelectual intenso, trocando opiniões sobre seus trabalhos e estudos, assim como um vai-e-vem de sentimentos contraditórios.

A relação do narrador com o artista plástico é outro ponto em que Siri precisou construir algo, segundo crê, fora da experiência feminina:

- O laço entre Leo e Bill é um exemplo de como a amizade entre homens pode ser diferente do que as mulheres experimentam entre si - garante.

- A maneira como os dois sentem suas perdas, sua tristeza, me parece essencialmente masculina. Mas não importa qual o seu sexo, se você viver bastante, haverá dor. Todos nós convivemos com fantasmas.

Para dar vida ao espectro de O que eu amava, ela escreveu durante oito horas por dia, cinco dias por semana, ao longo de seis anos.

- Reescrevi esse livro quatro vezes. Acho que só nos últimos oito meses de trabalho consegui pegar o tom que eu procurava - diz.

Ao final da empreitada, seu primeiro leitor achou dispensáveis algumas linhas.

- Quando li para Paul a última versão, ele sugeriu que eu cortasse do último capítulo um ensaio sobre patologias que estudei. Eu concordei. Não podemos ser muito apegados a tudo que escrevemos.

BERNARDO CARVALHO - Autor sem fronteiras - Jornal do Brasil

Indicado ao Prêmio Portugal Telecom com o romance 'Mongólia' e vencedor do Jabuti e do APCA, o carioca Bernardo Carvalho apaga os limites entre o real e o fictício e diz que críticos literários não correm riscos

Cecilia Giannetti

SÃO PAULO - Vencedor do Prêmio Jabuti 2004 com seu oitavo livro, o romance Mongólia, e indicado para o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, no valor de R$ 100 mil com o mesmo título, Bernardo Carvalho tem uma espécie de antimétodo para escrever. O carioca contraria a imagem do autor que passa dia e noite amassando manuscritos e debruçado sobre a tela do micro - em geral, se travar nalgum parágrafo, foge para a ginástica ou para a fila do banco. Gosta de escrever e reescrever histórias mentalmente, esteja ele em trânsito nas ruas de São Paulo, no deserto mongol, ou no Acre.

- Não escrevo por muitas horas seguidas, duas no máximo. Mas penso no livro o tempo todo - conta o autor, de 44 anos, em seu apartamento no bairro paulistano de Higienópolis, onde vive.

Outro hábito, desenvolvido em meados de 1980, quando se dividia entre a função de repórter da Folha de São Paulo e a literatura, é trabalhar simultaneamente textos diferentes. Começou ao dar desfecho, pela primeira vez, a fragmentos que havia engavetado por meses, criando os contos que integrariam seu livro de estréia, Aberração, de 1993.

- Eu estava em Nova York e o jornal tinha demitido todos os correspondentes, mas meu aluguel já estava pago por seis meses. Não tinha mais nada pra fazer lá, então decidi continuar essas histórias - lembra.

Na infância, forçava-se a terminar os livros que pegava para ler por iniciativa própria. Mesmo que não gostasse deles.

- Na minha família não tive incentivo para leitura, foi algo que fui conquistando aos poucos. Eu não gostava de ler, mas insisti, aprendi a gostar com esforço. Foi como aprender uma língua estrangeira e no início você não entende nada, aos poucos vai pegando mais naturalmente.

No começo dos anos 90, quando voltou para o Brasil, tornou a costurar pedaços de ficção à noite, depois do expediente com os fatos na redação do jornal.

- Cada noite eu aumentava um pouco um conto, não escrevia nenhuma história inteira. Foi a mesma coisa com o Onze (livro de contos, de 1995). Mexer naquelas histórias quando chegava do trabalho era o que me dava alento em relação àquele cotidiano que eu estava achando infernal.

A consolidação como romancista aconteceria cerca de uma década depois, com livros em que realidade e ficção se confundem. Narrativas fragmentadas em cartas, diários e anotações dão conta de personagens paranóicos e mistérios associados aos seus fantasmas pessoais.

Em 2002, Bernardo viajou à Mongólia com uma bolsa concedida pela Fundação Oriente de Lisboa através da editora portuguesa Cotovia, encarregado de escrever um livro. O resultado foi Mongólia, construído sobre o diálogo entre os diários de um fotógrafo desaparecido nos montes Altai e as anotações feitas por um diplomata brasileiro que sai à sua procura. O livro vendeu seis mil exemplares e está entre os dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira 2004 (os vencedores serão anunciados em novembro). Com o mesmo título faturou, em julho, o Jabuti na 46ª edição do prêmio realizado pela Câmara Brasileira do Livro. Foi ainda com Mongólia que o autor levou, em 2003, o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte.

No ano passado também deu Bernardo na primeira edição do Portugal Telecom: depois de levar o Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, Nove noites empatou no primeiro lugar de melhor romance com Pico na veia, de Dalton Trevisan.

- Eles anunciam o Portugal Telecom fazendo uma contagem do tipo ''quem vai levar? É ele?!''- ri. - Fiquei surpreso. Eu tinha birra de prêmio. Demorei tanto a ganhar alguma coisa que agora é como se os livros estivessem ganhando sozinhos.

O escritor não ignora o peso da atenção que tem recebido (nem posa de blasé: diz-se em êxtase com o prêmio concedido pela CBL), mas busca distanciamento para observar a novidade:

- Prêmios exprimem duas coisas: ou o gosto dos jurados ou uma espécie de tendência. No passado, parecia algo automático: quem já ganhou vai continuar ganhando e quem está na mídia também. Como se fosse uma cola para os jurados: ''olha, esse livro está em evidência. A gente vota nele e não se arrisca''.

No seu caso, quem se arriscou primeiro foi o editor Luiz Schwarcz, 47, fundador da Companhia das Letras. Assim que leu os contos de Aberração , enviados à editora por Bernardo, entrou em contato com o autor para comunicar que iria publicá-los. E, desde então, a Companhia é a responsável pela publicação de todos os livros do autor. A aceitação no meio literário, no entanto, não veio a galope:

- Ninguém dá nada pelo estreante. É difícil a recepção. É preciso acreditar muito em si mesmo porque a maioria não acredita. Incrível como a crítica não se arrisca: eles pisam no freio, desconfiam. Se for um livro de contos, têm o clichê pronto do ''livro irregular, de altos e baixos''.

Foi só quando Onze bateu nas livrarias que Bernardo abandonou a rotina de repórter e pegou fôlego para engrenar no romance: surgiu Os bêbados e os sonâmbulos, de 1996, em que conduz o leitor pelo processo de desintegração da personalidade do narrador.

Ambigüidade e metalinguagem

Em seguida, em Teatro , de 1998, cruzou histórias em que identidades e fantasmas pessoais das personagens se confundem. Em As iniciais (1999), assumiu a narrativa em primeira pessoa, feita por uma personagem-escritor que também é jornalista, correspondente internacional de férias. Também tratou do Marquês de Sade em Medo de Sade, (2000), encomendado para a série Literatura ou morte.


O autor defende a ausência de fronteiras entre fato e invenção no romance.

- Nove noites também tem coisas claramente autobiográficas, mas tenho uma vontade militante de fazer da ambigüidade um elemento forte da minha ficção - afirma.

Penúltimo livro de Bernardo, o incensado Nove noites, que investiga os segredos em torno do suicídio de um antropólogo no Xingu, só foi possível por causa de um fracasso: um livro de contos recusado pela Companhia das Letras.

- Mostrei ao Schwarcz e ele me disse que aqueles contos reuniam tudo que eu tinha feito até hoje, mas radicalizados para pior. No final das contas, concordei, mas fiquei arrasado. Foi quando li o artigo sobre Buell Quain, uma frase apenas, e comecei a ir atrás daquela história - explica Bernardo.

A partir daí, ele mergulhou em uma pesquisa obsessiva que varreu desde bibliotecas até listas telefônicas americanas e a internet. Carvalho enviou cartas e e-mails a parentes e possíveis descendentes de sua personagem real. Quando os fatos não deram mais conta da realidade, Bernardo percebeu que tinha nas mãos um romance.

- Era como se eu estivesse tentando recuperar o que havia perdido ao entregar um livro ruim. Eu estava meio sem fé. Queria de qualquer jeito voltar para a literatura.
Seu próximo livro, ainda sem título, tem na própria literatura um dos elementos que movem a trama.

- É sobre uma pessoa que quer escrever um livro e procura o narrador porque acredita que ele pode escrevê-lo. É banal, batido demais, mas é o mundo em que eu vivo. Para mim, a metalinguagem é natural.

Destaque entre os autores brasileiros que começaram a publicar no início da década passada, Bernardo evita ler a chamada Geração 90 (termo cunhado por Nelson de Oliveira para os autores reunidos na coletânea Os transgressores da Editora Boitempo, 2003). Dos contemporâneos, identifica-se com Rubens Figueiredo e André Sant'Anna.

Mas entre vasculhar a produção literária brasileira e escrever, fica com a segunda opção. Além do esboço de romance, Bernardo escreve uma peça junto com o Teatro da Vertigem (conhecido por espetáculos como Apocalipse 1,11, apresentado num antigo presídio). Depois de extrair ficção do deserto da Mongólia e do Xingu, o Acre é o alvo da colaboração com o grupo teatral paulistano. Em julho, pegou estrada até lá num caminhão para pesquisar o novo espetáculo.

- Mas continuo fabricando o romance na minha cabeça.

ROSA MONTERO - A terra da liberdade - Jornal do Brasil

Convidada para a Flip, em Parati, a escritora espanhola Rosa Montero fala sobre seu livro 'A louca da casa', que reúne confissões sobre amores e livros, e defende uma ficção comprometida com a inventividade e a vida pessoal, mas totalmente livre de interesses comerciais. 'É preciso ganhar dinheiro com outra coisa fora da literatura', diz ela.

Cecilia Giannetti

Para a espanhola Rosa Montero, 53 anos, o romancista é aquele a quem é legada a liberdade para ser doido. Não à toa, chama seu nono romance (o primeiro lançado no Brasil) de A louca da casa. Emprestado de uma frase de Santa Tereza de Jesus, ''a imaginação é a louca da casa'', o título define um ensaio incomum sobre a literatura e o ofício do escritor, em que a biografia da autora cruza esses limites a cada página, temperada com ficção.

- O assunto principal do livro não é literatura, são as fantasias que todos nós criamos diariamente. Precisamos da imaginação para traduzir e entender nossas vidas - afirma a autora ao JB, por telefone. Em 9 de julho, ela participa de uma das mesas de debates da Festa Literária de Parati, ao lado de Isabel Fonseca, Adriana Lisboa e Geneviève Brissac.

No livro, a narrativa é definida como a arte primordial da humanidade: ''para ser, temos que narrar (...) É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.'' O runrum fantasioso estaria presente em todos, como um diálogo interior.

Mas só alguns têm a necessidade inexplicável de tentar transpor sua ''escrita mental'' para um suporte físico, como o livro: escritor é aquele para quem é inconcebível deixar de escrever, de fato, o que imagina.

Se a fantasia é indispensável, a memória tem papel determinante sobre a identidade. Esses fatores combinam-se no romance:

- A ficção é um híbrido de diferentes coisas e um desses componentes é uma mistura cada vez mais intrínseca entre ficção e realidade. Todo romance corresponde a tudo o que um escritor realmente é: suas leituras, seus amigos, seus problemas na vida real.

Rosa arquiva lembranças através da associação dos homens importantes que conheceu ao longo da vida e de várias fases de sua produção literária. Ela explica seu método íntimo de catalogação com um exemplo: aos 25 anos, publicou seu primeiro livro, um volume de entrevistas que fez como jornalista; aos 20, se apaixonou perdidamente pela primeira vez. Como o amor, a ficção parece ter desígnios próprios:

- O autor não escolhe seus romances. Seus romances o escolhem. E nem pensar em tapear a misteriosa seleção com objetivos comerciais. É preciso sempre ganhar dinheiro com outra coisa fora da literatura. O romance tem que ser a terra da sua liberdade. Até hoje, a maior parte do meu dinheiro vem do jornalismo.

Na bibliografia de Rosa Montero, La loca de la casa (lançada no Brasil pela Ediouro) aparece situado entre seus romances, não como parte dos volumes publicados contendo material produzido em mais de 20 anos de jornalismo, alguns deles como redatora-chefe do jornal El País, na década de 80. Há oito anos, abandonou a redação e tornou-se colunista do periódico, um dos maiores da Espanha. A experiência com o texto objetivo exigido pelo jornalismo não torna mais fácil para o leitor pinçar no livro o que é autobiografia e o que integra o rol de invenções da autora.

- Menti muito - avisa. - Minha intenção era fazer um artefato, um jogo construído por um mágico.

Veracidade à parte, ela não sonega confissões nem senso de humor ao recriar períodos que remontam ao seu passado de ''quase hippie'', em que morava num apartamento dividido com uma amiga durante anos ''excessivos e movimentados'', marcados por manifestações antifranquistas, perseguições dos cinzas (os guardas de Franco) e shows de rock. Entrega também a seqüência de confusões vividas ao lado um astro de cinema europeu com quem teve um caso, e, em meio ao vai-e-vem de experiências pessoalíssimas, comenta como se divide entre o jornalismo diário e a ficção.

- Sei que é assim para 99% dos autores em todo o mundo: seus livros são escritos na mesa da cozinha, às cinco horas da manhã, antes de irem para o escritório. Sempre escrevi os meus em pequenas horas roubadas do trabalho e do meu sono.

escrito às 9:39 AM por seesaw




PAUL AUSTER - JORNAL DO BRASIL / FLIP

Pedras e jornalistas são os maiores obstáculos do escritor em suas escapadas para tentar conhecer Paraty

Cecilia Giannetti

Caminhando ao lado da esposa, a escritora Siri Husvedt, sobre o asfalto irregular das ruas de pedras do Centro Histórico, Paul Auster é seguido por uma equipe de filmagem e jornalistas por onde vai. Ontem, na abertura da Festa Literária Internacional de Paraty, o norte-americano era um dos autores mais assediados pela imprensa no evento. Fora do bairro novaiorquino do Brooklyn, onde vive e já ambientou dezenas de suas histórias e dois roteiros para o cinema, ele parece destacado da paisagem ensolarada, como um display de si mesmo em papelão.

Deslocado da paisagem urbana que predomina em sua ficção, fumando uma cigarrilha atrás da outra com a naturalidade de quem respira, ele ainda não sabe o
que poderia escrever numa cidade como Paraty.

- Não passei tempo suficiente aqui para entender este lugar mas ontem (segunda-feira) fizemos um passeio de barco, na chuva, e eu fiquei pensando no que os primeiros europeus que vieram ao Brasil podem ter sentido quando viram essa vegetação e as ilhas. Fiquei imaginando como esta cidade foi concebida, como se tornou o que é hoje, com essas ruas incríveis construídas com todas essas pedras - afirma, depois de um passeio curto, monitorado pelas câmeras, por ruas próximas à igreja da Praça da Matriz.

- É difícil andar aqui - comenta. No jardim da Pousada da Marquesa, onde está hospedado, Paul está livre de ao menos um dos percalços mas continua cercado por um cenário que lhe parece surreal: micos pulando de árvore em árvore, antigüidades espalhadas como esculturas pelo jardim, e outros autores dando entrevistas noutros cômodos do andar térreo do hotel.

- Vamos sentar aqui fora, para não atrapalharmos a entrevista do Ian McEwan - indica, acenando para o escritor inglês.

No seu habitat natural, o escritório no Brooklyn onde passa entre cinco e oito horas escrevendo diariamente, Paul já começou a escrever um novo romance, que inclui entre suas principais obsessões atualmente.

- Penso o tempo todo no meu livro, estou completamente envolvido com esse trabalho. Mas ainda é cedo para falar sobre ele.

Recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Noite do Oráculo é um assunto mais fácil para Auster. Seu nono romance (e o 16º. livro entre volumes
autobiográficos e de poesia) explora em três níveis de narrativa as possibilidades do romance dentro do romance, tema do debate de que participará no sábado,
dia 10. Na primeira camada da história está Sidney Orr, um escritor às voltas com uma crise nervosa e persistentes sangramentos nasais, que tenta voltar
ao trabalho criativo depois de passar quase nove meses sem escrever sequer uma linha. No segundo nível, entram os personagens do conto que começa a
escrever após esse hiato e longas notas-de-rodapé, que servem para aprofundar o leitor na confusão mental de Orr sua realidade e a ficção que volta a
criar. Por fim, uma misteriosa relação entre as histórias criadas por Orr, o passado e o futuro de pessoas próximas a ele. "O mundo é guiado pelo acaso",
pensa o escritor dentro do livro. Dono do mundo em que Orr existe, Auster discorda:

- As coisas acontecem como uma colisão de nossos desejos, vontades e planos que fazemos e, então, as intervenções do acaso.

John Trause, amigo de Orr e também escritor, afirma que os pensamentos são reais, assim como as palavras, e que às vezes escrevemos sobre eventos antes
que eles aconteçam. Este elemento mágico, que atravessa todo o livro, interessa a Paul como forma de alinhavar as camadas que construiu em Noite do Oráculo
(também o nome do livro escrito pelo personagem de Orr). É também o representante, neste livro, de uma espécie de fé característica que Auster imprime a alguns
de seus personagens; uma tendência otimista que lhes empresta e eles tomam, às vezes relutantes em aceitar uma visão menos terrível do mundo. Em seu
romance anterior, Livro das ilusões, Hector Mann tenta mais de uma vez colocar uma bala em sua cabeça.

- É um tipo de otimismo, sim: ele tenta se matar mas não consegue, porque ainda tem algum tipo de esperança. Ele é muito duro consigo mesmo, mas não
tanto em se tratando das outras pessoas - avalia.

- Acredito que as pessoas mais charmosas são as que não cobram demais de si mesmas nem dos outros, embora isso não seja uma postura muito inteligente.

Auster cria seus romances sem tomar muito de fatos, da sua vida ou de conhecidos. Nunca experimentou a sensação de ?dupla consciência? que Orr vive ao entrar
no apartamento de Trause após ?apropriar-se? do ambiente e descreve-lo em um conto.

- Tenho os livros que falam da minha vida (como Da mão para a boca) mas nos romances, é a imaginação que controla tudo.

Um trecho de Noite do oráculo, no entanto, é um recorte da realidade: uma matéria retirada de um jornal, ?uma notícia mal redigida sobre um bebê morto,
outro despacho das entranhas do inferno?

- A matéria sobre a prostituta viciada em crack que dá à luz um bebê sentada na latrina é real, eu li aquilo - diz. É o momento, no livro, em que Orr
percebe que "estava lendo uma história sobre o fim da humanidade, que aquele quarto no Bronx era o ponto exato da terra onde a vida humana havia perdido
seu sentido?"

Orr despede-se dos leitores de Noite do oráculo com as esperanças renovadas: "com as lágrimas ainda jorrando de dentro de mim, me senti feliz, mais feliz
de estar vivo do que nunca antes", confessa.

- Quanto a mim, fico com o que (o escritor italiano Antonio) Gramsci disse: pessimismo na inteligência, otimismo no coração.

Fora a ficção, o assunto que mais lhe interessa no momento é a política norte-americana. Usa a música, outra de suas paixões, para declarar-se contra
George W. Bush, através de King George Blues, que compôs com a banda novaiorquina One Ring Zero (a mesma banda que acompanha sua filha, a cantora Sophie Auster, nas gravações de seu primeiro álbum). Disponível no site www.topplebush.com, a canção chama o presidente dos Estados Unidos de demônio e acusa: ?antes, era "nós nunca vamos atacar? / agora nossas tropas marcham pelo Iraque / Você não gosta de um ditador chamado Saddam? / Você o caça e joga uma bomba".

- Eu torço fervorosamente para que George W. Bush não vença as próximas eleições nos Estados Unidos.

Enquanto não retoma seu novo romance e a campanha anti-Bush nos EUA, Auster relaxa o quanto pode no Brasil. Distrai-se brincando com de palavras que viu em placas nas estradas a caminho de Paraty:

- Passamos por um lugar chamado Ubatuba. Nunca vou esquecer o som dessa palavra: U-ba-tu-ba!

escrito às 9:39 AM por seesaw