Mestre Cunningham - Jornal do Brasil - [4/ABR/2004]
Aos 84 anos, o coreógrafo Merce Cunningham traz ao Brasil as experiências que o tornaram o maior nome da vanguarda da dança
Cecilia Giannetti
NOVA YORK - Movimentos que dependem do acaso do rolar de dados e moedas; gestos testados em protótipos no computador; trilhas sonoras iconoclastas, variando entre John Cage e improvisos do quarteto islandês de post-rock Sigur Rós ou dos ingleses do Radiohead. O visual? Os cenários podem trazer desde animações projetadas sobre o palco, geradas por softwares que captam a movimentação dos dançarinos, até a pop art de Robert Rauschenberg, Andy Warhol, Frank Stella, Robert Morris, Willem De Kooning e Jasper Johns. Quem não conhece a Merce Cunningham Dance Company (MCDC) poderia jurar que ela é gerida por um jovem coreógrafo antenadinho.
De fato, Merce Cunningham não parou no tempo: aos 84 anos, o ex-aluno e solista de Martha Graham, que em julho trará sua companhia ao Brasil, ainda é sinônimo de vanguarda da dança. Há 50 anos à frente do grupo de 14 bailarinos (sete mulheres e sete homens), ele já não dança, mas ainda é capaz de surpreender platéias exigentes.
No sábado, 27, ele provocou o público que lotava o Eisenhower Theater, no Kennedy Center de Washington, com How to pass, kick, fall and run, revival de uma coreografia de 1965 em que Cunningham lia histórias curtas (one-minute stories) escritas pelo compositor John Cage, que foi diretor musical da companhia desde a sua fundação, em 1953, até 92, quando faleceu. O sabor dadaísta das crônicas de Cage funcionava como música: a divisão silábica das palavras era estendida ou cortada para que cada história participasse da coreografia com seu próprio ritmo. O resultado dividiu a atenção da platéia, que ria do nonsense ditado em tom cômico por Cunningham, sentado num canto do palco, e ao mesmo tempo observava a dança.
"Quando eu era mais jovem, não conseguia conversar muito com outros dançarinos. Preferia os artistas e compositores, como Cage e Andy Warhol ¿ confessa Cunnigham, ao receber o JB no prédio da companhia, em Nova York. Ele ri ao lembrar que sua parceria com o ícone da pop art começou por acaso, quando passava pela porta de uma galeria de arte onde Warhol expunha um trabalho que incluía enormes balões da gás prateados:
- O que me chamou atenção neles não foi o tamanho mas o fato de que se moviam. Eu estava com Jasper Johns e comentei: "Olha, isso vai ficar bom no palco. Será que ele me deixa usar - Ele acabou permitindo.
Sua busca por vitalidade tomou diferentes formas ao longo das décadas: desde 1991, utiliza o software Life Forms, que emprega para visualizar movimentos antes de repassa-los aos bailarinos.
- Assim, posso testar idéias sem deixar os bailarinos exaustos. O programa mostra a movimentação mais lentamente e podemos ver com detalhes como cada passo é feito - explica Cunningham, que comparece diariamente aos estúdios da MCDC e ainda leciona.
Além do uso da tecnologia, outros procedimentos pouco ortodoxos tornam seu trabalho peculiar. Para decidir se os próximos movimentos de uma coreografia serão executados por pernas ou braços, e em que direções, por exemplo, ele entrega seu gênio à sorte: lança dados e usa os princípios do I Ching para delinear seqüências de passos. Para ele, o acaso tem um papel tão importante quanto a idéia de um destino pré-determinado. Ao menos no mundo da dança: ¿ As chance operations [como chama este método de seleção] são um jeito de abandonar a imagem que temos armazenada sobre certos movimentos e criar algo novo a partir deles ¿ revela.
Ele também incorpora contribuições involuntárias dos dançarinos:
- Tomo notas dos "acidentes" que aparecem nos ensaios e aceito alguns - conta. Seu conceito de dança não é muito acadêmico e, se adotado, poderia deixar sem emprego os críticos.
- Dança não tem que ser ou significar alguma coisa. Ela pode simplesmente acontecer - define o artista.
A obsessão com ferramentas e artistas contemporâneos e seu uso espontâneo é uma característica que persegue em toda a sua carreira:
- Desde o início, meu desejo tem sido trabalhar com criadores do meu tempo, sempre mantendo o princípio de não pedir a eles nada específico.
Cunningham sofre de artrite e se locomove de cadeira de rodas a maior parte do tempo, mas ainda acompanha as turnês do grupo. Ele e a companhia irão desembarcar no Brasil em julho para quatro apresentações. A turnê brasileira, frustrada em 2003 por falta de patrocínio, acontece este ano com apoio da Petrobras e produção da Antares.
A companhia dança para os cariocas no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, nos dias 9 e 10; no Municipal de São Paulo, nos dias 6 e 7; e no Sesi, em Porto Alegre (com apoio da Embratel), em 2 de julho.
Antes da América do Sul, a MCDC fará apresentações na Coréia. A bateria de ensaios e viagens não assusta seu fundador, que não parece ter o ritmo criativo alterado pela idade ou pela doença:
- Ele simplesmente não pára, nunca. Quando estivemos em Londres para o lançamento de Fluid canvas (2002), na manhã seguinte fui ao quarto dele no hotel e o encontrei mexendo no computador, trabalhando na próxima coreografia - conta Trevor Carlson, gerente da MCDC.
A curiosidade de Cunnignham funciona como força motora:
- Existe sempre algo novo por aí. Com a tecnologia de hoje, quem sabe o que ainda está por vir? - questiona o coreógrafo.
O trabalho de Cunningham freqüentemente ultrapassa as paredes dos espaços tradicionais de dança.
- O que fazemos torna-se teatro até mesmo fora do teatro - avalia Merce, que tem no currículo apresentações na estação de trens de Nova Iorque, em museus e numa praia australiana.
O cotidiano, como o vaivém nas ruas, é fonte de inspiração constante. Tudo entra no seu escopo. No filme A lifetime of dance (2000), do cineasta Charles Atlas, ele confirma a fama de bom observador:
- Todos nós andamos de maneiras diferentes, e nos tornamos quem somos através da maneira que andamos - diz Cunningham, lembrando que nem seus gatos escapam à investigação: os felinos aparecem entre os animais desenhados no livro Other animals: drawings and journals (Outros animais: ilustrações e diários), lançado em 2002.
É o mesmo olhar atento que utiliza como filtro nos estúdios da fundação que leva seu nome.
- Eu escolho meus bailarinos nas aulas... Alguns vêm de escolas de artes com um treino considerável, quando não chegam prontos. Já é possível perceber os que são realmente bons.
Assistente do mestre, o bailarino Robert Swinston, 54 anos, explica que Cunningham costuma começar com temas simples, que evoluem para coreografias complexas. Os trabalhos podem levar de seis a oito semanas para ficar prontos ( embora Ocean, última colaboração de Cunningham com Cage, tenha exigido nove meses). Nem Swinston têm acesso irrestrito à produção do mestre:
- Ele nunca mostra o que está fazendo. Só depois de criar o material é que o ''esculpe'' com os dançarinos.
Daniel Roberts, 26 anos, é um deles. Sua história carrega o toque de imprevisibilidade que Cunningham celebra em suas chance operations. Formado em dança e Labanotation (sistema de notação movimentos utilizado em arquivos de balés e teatros) pela Universidade de Ohio, Roberts inscreveu-se em 2000 no grupo de estudos da Cunningham Foundation para reconstruir, a partir da notação, o primeiro solo importante de Cunningham, Totem Ancestor, de 1942. Acabou, ele mesmo, dançando a coreografia no aniversário de 50 anos da MCDC, em 2003. Integrado ao grupo, viu seus planos iniciais tomarem rumos inesperados. Hoje, dá aulas em vez de assistir a elas:
- Na rotina diária, não penso muito nisso. É nas turnês que percebo que convivo com uma lenda. Temos devoção por Merce, apesar de não ser um processo fácil. Leva meses até que o corpo entenda o que ele pede.
Nem sempre o resultado conquista de imediato os fãs de dança:
- Nas primeiras vezes em que assisti às apresentações, não entendi o que ele estava fazendo. Mas eu continuei indo ver até que, em 1976, Sounddance me pegou - confessa Swinston. Criada em 1975, a coreografia que virou a cabeça do veterano faz parte do roteiro das apresentações no Brasil, junto com Biped , que mistura imagens originadas por softwares aos bailarinos.
A repórter viajou a convite da companhia