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Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004

Costurando rotina e ficção - Jornal do Brasil [13/FEV/04]

Antônia Pellegrino revela trechos de seu primeiro livro em diário virtual
Cecilia Giannetti


É possível conhecer um pouco da vida da carioca Antônia Pellegrino através de seu diário virtual Inveja de gato (www.invejadegato. blogger.com.br), assim como se pode enxergar Hélio Pellegrino através da intensa correspondência que trocou durante anos com os amigos Fernando Sabino (Cartas na mesa, Editora Record), Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. Filha da figurinista Sonia Soares e do arquiteto Hélio G. Pellegrino, a neta do escritor e psicanalista mineiro tem hoje 24 anos e escreve desde os 16. Em textos publicados na internet, mostra cenas de sua vida e trechos de seu primeiro livro, Romance roubado, ainda inédito e com título provisório. Rotina e ficção aparecem costuradas na prosa da escritora, assim como lembranças da infância e do avô.

''Meu avô tinha um trecho de mar para consumo interno. O gato tem um trecho de mato pendurado na janela. Eu tenho uns trechos de infância onde apenas meus pés descalços podem caminhar'' - escreve no site.

Se no blog (diário digital) o lado confessional aparece com naturalidade, o romance une o olhar treinado no curso de Ciências Sociais, em que se formou na PUC em 2002, à curiosidade pela paisagem psicológica das personagens:

- Estou escrevendo sobre o vazio, a falta de perspectiva e interesse da juventude classe média. Eu sou fascinada pelo estranhamento, a turbulência, a possibilidade de se perder irresponsavelmente e pelo risco que é ser adolescente - revela, definindo-se como ''leitora de ensaios'', com Marcel Mauss, Foucault e Bataille encabeçando a lista de preferências. No caldo, entram ainda a ficção de Gogol, Tchecov, Clarice Lispector e suas descobertas recentes: João Gilberto Noll e Ricardo Piglia.

Romance roubado vem sendo produzido nas horas vagas de uma rotina de trabalho que inclui a adaptação para o teatro do livro Modas de macho e modinhas de fêmea (Editora Record), escrito pelo marido, o jornalista cearense Xico Sá. A peça é uma encomenda do diretor Roberto Talma, que produzirá o espetáculo. Além das lembranças, ela tem em comum com Pellegrino os olhos vivos e uma maneira intensa de encarar arte e criação. Diz-se ansiosa em relação ao próprio livro e passa tardes e noites sentada à frente do computador escrevendo e reescrevendo trechos do romance:

- Preciso de uma delicadeza extrema na hora de escrever. Tenho saído pouco, e ando com o pulso e as costas doendo.

Antônia também tem ligação com a telinha desde 1998, quando trabalhou como assistente de direção nas minisséries Labirinto e Chiquinha Gonzaga. Hoje, ela faz pesquisa de texto para a novela Da cor do pecado, de João Emanuel Carneiro, e leitura de roteiros para a distribuidora Lumière. Os capítulos do romance vão saindo em altas horas da madrugada, sob a vigilância de Menezes, o felino que inspirou o nome do blog na Internet. Em meio a tantas atividades, ela ainda encontra tempo para mergulhar nos originais de cartas, bilhetes e textos assinados por Hélio Pellegrino, e capitanear uma redescoberta da obra do autor, falecido em 1988, cujos dois livros editados estão fora de circulação há mais de dez anos:

- No início de 2003, me dei conta de que ele completaria 80 anos esse ano e achei importante fazer alguma coisa para comemorar a data e colocá-lo novamente à disposição dos leitores.

Para seguir com o projeto, Antônia pesquisou os arquivos do escritor na Casa Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, e os de Otto Lara Resende no Instituto Moreira Sales, em São Paulo. O levantamento já resultou no livro Meditações de Natal, lançado pela editora Planeta em dezembro de 2003, e no Arquivinho Hélio Pellegrino, com lançamento programado para abril pela editora Bem-Te-Vi.

A partir do material reunido, Antônia prepara um livro mais completo, batizado Lucidez embriagada, no qual pretende incluir textos inéditos e autobiográficos de Hélio, sua produção para o Correio da Manhã, e inúmeras cartas trocadas com seu irmão, Francisco, com Otto, e com a filha Maria Clara. Das coisas escritas para ela, que tinha sete anos quando Hélio morreu, há a carta que ele lhe entregara com ordem expressa (e cumprida) de que fosse aberta apenas na virada do século, e o poema Antõnia dorme.

Outras memórias, feitas de imagens, misturam-se às palavras que guarda do avô:

- Nós moramos no mesmo prédio por muito tempo. Enquanto eu esperava a condução para ir ao colégio, conversávamos muito. Ele da janela e eu da calçada, todos os dias pela manhã - conta.

escrito às 8:46 PM por seesaw




Prazer proibido - Jornal do Brasil [13/FEV/04]

Indústria do disco lança novo ataque à troca de músicas pela internet, uma prática que até gravadoras começam a defender
Cecilia Giannetti


- A música vai ficar cada vez mais forte na internet, não tem barreira de conexão lenta que possa impedir. O que chamam de pirataria online é o que a galera sempre fez antes, em fitinhas cassete.

Quem constata é Carlos Eduardo Miranda, diretor artístico da gravadora Trama, justo quando a indústria fonográfica trava mais uma batalha brancaleônica na guerra contra a troca de arquivos de música na web. De todos os P2P (peer-to-peer, programas de compartilhamento de arquivos) como o SoulSeek, Grotzker, Gnutella, LimeWire, Piolet, etc., escolheu-se para alvo da vez o Kazaa, que concentra mais de quatro milhões de usuários conectados a qualquer hora em sua rede, compartilhando músicas em formato MP3.

Na última semana, sob o comando das gravadoras Universal Music, Festival Mushroom Records, EMI, Sony, Warner e BMG, a Music Industry Piracy Investigations (MIPI, uma espécie de polícia anti-pirataria online) vasculhou computadores em três universidades na Austrália, além de provedores de internet, e até micros de uso pessoal, atrás de evidências de pirataria online promovida pelo Kazaa. Mas por quê investigar logo na terra dos cangurus?



Uma razão especial para isso é que é impossível rastrear todos os internautas, do mundo inteiro, que baixam músicas pelo software. A idéia então é investir contra a proprietária do Kazaa, a Sharman Networks, cuja base fica justamente em Sydney, capital australiana. Lá, a equipe do MIPI chegou a investigar computadores nas residências de dois executivos da empresa, à procura de algo que incriminasse a companhia. Mas a medida pode dar em nada:

- A Sharman Networks já está movendo uma ação para cortar esses procedimentos da MIPI e o juiz deve decidir sobre isso no dia 20 de fevereiro. A questão é: o Kazaa não possui um servidor central, portanto eles não podem provar nada contra nós - garante por telefone o porta-voz da Sharman Networks, Richard Cherlena.

O fato de não ter servidor centralizado dá larga vantagem ao Kazaa em relação, por exemplo, ao Napster, o software caçado anteriormente, num caso que representou, em 2001, um divisor de águas tanto para a indústria do disco quanto para os fãs de MP3. O Napster dependia de um banco de dados para listar todas as músicas disponíveis para download e as máquinas que as compartilhavam. A rede de usuários construída em torno do software desagregou-se quando a justiça obrigou o Napster a fechar seu servidor central, fazendo desaparecer com ele a conexão com os usuários.

Foi só uma questão de tempo até que novos programas, como o Kazaa, se popularizassem, valendo-se do trecho da lei de direitos autorais norte-americana que concede permissão para que se compartilhe música entre amigos. E até, prova em contrário, na rede são todos amigos.

- Do meu ponto de vista, eu estou trocando músicas com um amigo distante. Se for pirataria, que seja... É o preço que vão pagar enquanto o CD continuar caro desse jeito - diz o ator e músico Eduardo Caldas, 19 anos. Ele pega entre 12 e 14 arquivos de MP3 na web a cada vez que utiliza um software para baixar músicas, o que faz quase diariamente.




Gravadora prefere relaxar e... conectar




Eduardo tem conexão veloz e, além do Kazaa, é usuário do Soulseek e do E-mule (para filmes). Seu pai, o músico e produtor Robertinho do Recife, acha que o rapaz perde tempo na internet:
- MP3 é um formato compactado, a maioria vem em oito bits... Isso é quase metade da qualidade de CD e a reprodução da música fica comprometida. Só serve pra quem não liga pra qualidade do som. Pra mim, nem de graça, ainda mais pagando. Quem acha que CD tá caro é que nunca viu como é produzido um disco, a quantidade de gente e trabalho envolvida na produção.

Independentemente dos bits, a realidade de Eduardo é a mesma de grande parte dos fãs de música no mundo inteiro, mesmo dos que não dispõem de conexão banda larga. Para gerações integradas com esta tecnologia, basta digitar o nome de um álbum, das faixas e até de filmes ou seriados de TV que tudo chega diretamente ao seu computador pela internet.

- Gosto de futucar os arquivos das pessoas e sortear coisas dali pra downloadear... é igual a ver CDs na casa de amigos e pedir alguns emprestados - explica Ney Frota, analista de sistemas de 33 anos. Miranda, da Trama, acredita que o hábito, que hoje passa por faixas etárias diferentes de consumidores de música, como Eduardo e Ney, não só é irreversível, mas é uma espécie de evolução de uma antiga mania de gente que gosta de som:

- O que chamam de pirataria online é o que a galera sempre fez antes, através de fitas cassete. Eu não chamaria de pirataria a troca de arquivo, é meramente cultural, é o que está fazendo a revolução na música. Cada vez mais o público está mandando, tem mais força sua opinião. Isso balança um sistema que já estava desgastado - conclui.

A estratégia da Trama é relaxar e... conectar: em setembro de 2003, por exemplo, a Trama fez blitze diárias por programas de compartilhamento de arquivos na web e deu brindes para quem era pego trocando MP3s da música Amor errado, de Fernanda Porto, que podia ser baixada no site da gravadora. Foram distribuídos CDs, bolsas e, no final da promoção, um MP3 Player. Em outubro, para preparar o terreno para o novo CD de Otto, foi lançado um single virtual da faixa Tente entender no iMúsica (www.imusica.com.br) antes mesmo de o álbum Sem gravidade sair. Aí não era de graça: a faixa custava R$ 0,99. Mas quem comprasse levava outra música, Avisa Gil, a capa para imprimir e wallpaper do cantor para o micro.

- Estamos vivendo algo parecido à época em que se vendiam e lançavam antes os singles pra depois lançar o disco inteiro. Uma música em MP3 pode ajudar a divulgar o artista do mesmo jeito - continua Miranda:

- Quem tem dinheiro e interesse por música, vai comprar, não importa o suporte físico.

No entanto, nem todos estão dispostos a adotar este método, por considerarem que já pagam um valor alto para estar conectados à internet:

- Comprar música na rede por $1 cada é super caro! Eu tenho que ter o computador, o HD, internet rápida e tudo isso já é caro. E se eu perder os dados do meu computador (o que é fácil), vou ter que baixar e pagar tudo de novo? - protesta o analista Ney.





Bandas usam MP3 como meio de atrair os fãs




Nem todos os empresários da música concordam com a estratégia da Trama. Para o vice-presidente do iMúsica, Cláudio Campos, os programas peer-to-peer não servem como divulgação. Parceiro da Trama e de mais 70 selos e gravadoras, entre elas duas multinacionais (BMG e EMI), o iMúsica funciona como uma espécie de ITunes (sistema de venda de música digital da Apple) brasileiro, vendendo aqui faixas a R$ 0,99 cada.
- Dizem que programas como o Napster fizeram com que as pessoas entendessem o que é musica digital, sem que as gravadoras gastassem um centavo com isso. Mas isso desvalorizou a música - alerta Cláudio, 38 anos, ex-jornalista da revista Bizz e desde os 19 trabalhando no mercado fonográfico.

Ele também vê problemas de segurança:

- Ao compartilhar a máquina com outras pessoas, você cria um problema de segurança: o MyDoom passava pelo Kazaa - acusa, a respeito do vírus que também é transmitido por e-mail.

O diretor artístico da Universal Music no Brasil, Max Pierre, acha que o site iTunes, da Apple, seria uma saída:

- Até agora, mais de 50 milhões de músicas foram vendidas - exagera. Pierre é categórico contra a troca gratuita de MP3:

- A Universal é uma multinacional com normas que proíbem difusão de músicas através de serviços como o Kazaa - adverte.

Para os DJs, o p2p é ferramenta de trabalho. Edinho (Bunker) e Jesse Marmo (Casa da Matriz), não podem perder o passo e deixar de tocar o que rola nas pistas lá fora.

- Baixo música da internet, sim... mas não copio pra ninguém. Uso pro meu trabalho - conta Edinho, 41 anos.

Jesse, por sua vez, acha que no Brasil o MP3 não pode ser sinônimo de pirataria:

- Ou alguém ainda acha que camelô que vende três CDs piratas por R$ 10 sobrevive às custas de MP3 baixados na rede? - zomba Jesse, de 30 anos.

- Eu uso MP3 para poder tocar artistas que não são lançados no Brasil (comprar importado, por causa do preço, está fora de cogitação), músicas antigas fora de catálogo, versões remix que só são achadas na rede mesmo.

Mas ele garante que a tecnologia não o afastou das lojas:

- Sempre que tenho dinheiro sobrando e alguma loja de departamentos coopera com os precinhos, compro CDs.

Maurício Valladares, que comanda há mais de dez anos a festa Ronca Ronca, não se considera grande usuário de tecnologias para música na web mas entende o MP3 como ''uma ficha que vai cair na marra'':

- Não sei o que vai ter que acontecer pra que as pessoas se toquem de que isso é um atalho pra indústria. Não tenho conexão rápida, não consigo baixar música no computador, mas apóio tudo isso aí - diz o DJ, que no site do programa de rádio/festa www.roncaronca.com.br terá em breve coletâneas criadas por ele mesmo.

Entre as iniciativas que exploram o potencial econômico do MP3, há as que trabalham com a fidelização do público a um artista ou banda. O inglês David Bowie deu um exemplo bem sucedido com a sua BowieNet (http://www.davidbowie.com), onde fornece conteúdo exclusivo aos fãs por $64.99 anuais. No Brasil, os cariocas Los Hermanos saíram na frente com o Clube Hermanos (http://loshermanos.dh.com.br/clube/DefaultLogin.asp), com três planos, variando entre R$ 9,90 e R$ 89, para dar aos associados desde adesivos e acesso a chats com a banda até bootlegs e ingressos para shows. O tecladista Rodrigo Medina, o mais ''conectado'' do grupo, diz que há vantagem para todos no negócio:

- Os fãs ganham conteúdos específicos, a banda estreita a relação com os fãs e fortalece a própria imagem e a gravadora tem o trabalho de divulgação da banda facilitado.

Webmaster do site, Marcos Sketch, 23, afirma que mais da metade dos 9000 cadastrados entraram para o Clube.

- Já chegaram pedidos como ''quero passar um dia com vocês'' e ''faça uma música sobre mim'' - diz.

escrito às 8:45 PM por seesaw




Domingo, Fevereiro 08, 2004

A novela da novela - Jornal do Brasil [08/FEV/04]

Cecília Giannetti

Uma intriga de folhetim acontece nos bastidores de 'MetAMORphoses', nova produção da Record que mistura ficção e 'reality-show' médico

Cirurgias plásticas, troca de identidade, a Yakusa, lutadores de K-1 e um time de autores que discorda dos rumos da trama ditados por Charlotte Karowski, uma poderosa ghost-writer. Estes são alguns dos ingredientes envolvidos na história que vem movimentando o mundo noveleiro e pode significar a abertura de uma nova via de produção de teledramaturgia no Brasil. Com sinopse polêmica e bastidores agitados, MetAMORphoses (o nome é esse mesmo, com ph e letras maiúsculas no meio) reativa o núcleo de novelas da Rede Record a partir de março, adicionando doses generosas de realidade à ficção.

Um exemplo dessa mescla é o destino da atriz Tallyta Cardoso, 26 anos, na trama. Em MetAMORphoses, ela se chama Tallyta Cardoso, é atriz e vai se submeter a duas cirurgias plásticas - pra valer. As operações verdadeiras nos seios e nariz serão feitas no mesmo dia, diante das câmeras, e depois editadas e combinadas a imagens de estúdio. Na ficção, a médica é Luciane Adami (que fez sucesso em Pantanal); na vida real, quem vai mexer nos traços da atriz/personagem é um médico, cuja identidade Tallyta prefere não revelar.

- É como misturar um reality show na novela - define Tallyta, que é filha do antigo galã da pornochanchada David Cardoso. O irmão de Tallyta, David Jr., que participou de A Noite das Taras II (1982) e Tentação na cama (1984) ao lado do pai, também tem um papel na novela: um personal trainer namorador que, segundo Tallyta, será amante da dona da clínica.

Nas primeiras versões da história, constavam czares russos e um mistério envolvendo mísseis. Em tramas paralelas, estão previstos um roubo de jóias raras e muita ação com K-1 (modalidade de luta que é febre no Japão) e a máfia japonesa, sob a direção de Tizuka Yamasaki.

E quem está escrevendo tal miscelânea? Nos últimos dias, a pergunta virou uma espécie de ''Quem matou Odette Roitman'' nas revistas e colunas de fofoca. Desde novembro de 2003, dois autores de novela consagrados e dois colaboradores já abandonaram o barco, todos alegando divergências com a Casablanca Service Provider, um dos maiores grupos sul-americanos de finalização em vídeo, responsável pela produção da novela. Por trás do vai-e-vem de sinopses está a francesa Arlette Siaretta. Dona da Casablanca, ela meteu o bisturi no texto e mantém suas idéias acima das invenções dos escritores.

Co-autor de sucessos como Mandala e Vale Tudo, o presidente da ARTV (Associação de Roteiristas de Televisão, Cinema e outras Mídias), Marcílio Moraes, foi o primeiro a tentar criar a trama de acordo com as exigências de Arlette.

- Ficou claro que tínhamos concepções muito diferentes sobre o trabalho e resolvemos, de comum acordo, rescindir o contrato - conta Marcílio, que deu lugar ao premiado Mário Prata, autor de Estúpido Cupido, entre outras. Mário, por sua vez, adicionou ao projeto dois escribas da nova geração: seu filho, Antônio Prata (autor de Estive pensando, Editora Record), e Chico Mattoso (Parati pra mim, Editora Planeta). O trio chegou a desenvolver cinco capítulos, que foram modificados.

- Li as alterações da Arlete e pensei ''não dá pra fazer''. Parecia um elogio à cirurgia plástica e eu não quero fazer isso. Imagina se as pessoas começam a achar que é isso que vai resolver a vida delas? - questiona Mário. Chico Mattoso enxerga no tema uma questão pessoal para Arlette:

- Eu tenho a impressão de que é muito importante pra ela, como um sonho, e ela não quer que ninguém meta o bedelho nele - comenta o ex-colaborador.

A arte do estica-e-puxa é mesmo próxima do grupo Casablanca: em 2003, a produtora realizou a transmissão do IV Simpósio de Cirurgia Plástica Internacional. Além disso, a organização da quinta edição do evento, que acontece em março em São Paulo, anuncia em seu site (http://www.bold.art.br/simposio/programacao/social.html) um coquetel na ''Clínica Metamorphoses'', mansão que fica na mesma rua em que estão localizados os estúdios da Casablanca. Depoimentos recomendados como material de referência aos autores destacavam o lado positivo das cirurgias plásticas:

- Era algo nesse sentido: ''opere seu nariz, seja feliz''- comenta Antônio.

A Casablanca nega que Mário e os rapazes tenham desistido da empreitada, garantindo que deveriam desenvolver apenas os primeiros capítulos e que o contrato expirou em dezembro. O escritor contesta:

- Fui convidado pra uma novela inteira, recebendo R$ 100.000 por mês. Decidi sair quando vi que Arlette tinha colocado de volta no texto a sinopse dela, provavelmente achando que, por estar me pagando dinheiro, devíamos aceitar tudo.

Antônio completa:

- Fomos chamados pra criar uma novela, não pra escrever idéias prontas de outras pessoas.

Apesar disso, todos os autores fazem questão de frisar que desejam que o projeto dê certo mesmo sem a sua colaboração.

- Tem muita gente da área precisando de trabalho: atores, equipe... Seria bom para todo mundo - avalia Mário Prata.

O projeto 'Charlotte K'

A Record já teve comprovada a competência da Casablanca antes, através da Turma do Gueto, da produtora, que emplaca a sua quinta temporada na emissora. Levando em conta o sucesso da série, as expectativas para a novela são boas.

Mas quem teria assumido o roteiro de MetAMORphoses? Tchan-tchan-tchan: segundo anunciou a Casablanca, saem de cena Mário e cia. e entra a misteriosa Charlotte Karowski, pseudônimo típico de folhetim. Para os que acompanham a novela de MetAMORphoses, o nome esconde a própria Arlette. Ela nega, no entanto, que o esteja escrevendo, em associação com uma nova equipe.

- Tenha paciência. O projeto ''Charlotte K'' é um esquema profissional que será revelado assim que a novela entrar no ar - despista. Ex-colaboradores apostam que ela vai incluir o mistério da autoria no enredo, solucionando-o no ar.

No entanto, um e-mail enviado ao Jornal do Brasil pelo assessor da Casablanca, Antoninho Rossini, parece confirmar os boatos. O pedido de entrevista enviado à secretária da Casablanca foi repassado à Arlette Siaretta. No entanto, logo abaixo na mensagem, é Charlotte quem pede a Rossini que atenda a repórter. Uma cena que parece saída da novela global Araponga.

Arlette também não confirma se já passou por alguma plástica.

- O interesse não é pessoal, mas sim do contexto da vida moderna. Basta ler jornais, revistas ou atentar para a televisão para se saber o quanto as cirurgias plásticas vêm despertando o interesse de homens e mulheres. Vale dizer também que a cirurgia plástica não é sinônimo de estética, mas também corretiva. Como todos sabem, o Brasil é um centro mundial desta especialidade da medicina, uma referência.

Autora ou não da trama, Arlette Siaretta prova ter talento para criar suspense e ação rocambolescos, do jeito que caem bem na telinha. Se a sua trama resultar tão divertida quanto os bastidores, teremos um novelão.




escrito às 11:26 AM por seesaw




Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004

Cauby seduz Le Boy

Cauby Peixoto seduz Le Boy - Jornal do Brasil [05/FEV/2004]


Cecilia Giannetti


No material de divulgação do show de lançamento do CD A bossa e o suingue de Cauby (BMG), que aconteceu terça-feira na boate Le Boy, em Copacabana, Cauby Peixoto comentava sobre o público gay que costuma lotar a casa: ''É um povo muito feliz, por ser muito inteligente... por viver melhor que muitas pessoas. Que apesar da hipocrisia da sociedade (...) sabe tirar o proveito das nuances de ser meio homem, meio mulher na vida'' Mas, na hora H, em meio ao calor com que foi recebido pela platéia lotada, onde as mulheres estavam em absoluta minoria, Cauby tirou o discurso da terceira e assumiu a primeira pessoa.
- Nós somos especiais - afirmou ao microfone, para delírio da platéia.



- É a primeira vez que ele fala isso abertamente - garantiu o jornalista carioca Rodrigo Faour, autor da biografia Bastidores - Cauby Peixoto: 50 anos da voz.



- O Cauby é gay? Claro que não! - protestou Sônia Santos, 55 anos, uma das poucas senhoras a circular pela pista de dança da Le Boy. Sobre os rapazes musculosos de sunga, fazendo coreografias sensuais em cima de pequenos palcos ao som de tecno, Sônia não parecia ter dúvidas. Mas não reclamava:

- O público é interessante - avaliava.



A fã Lídia de Souza, que, a exemplo do cantor, não gosta de revelar a idade, não se abalou com o comentário:



- Não me interessa saber do sexo do Cauby. Eu gosto dele, acompanho o Cauby desde que ele apareceu - afirmou. Sua amiga Clymene Simpson Viamonte de Oliveira, de 66 anos, fazia vista grossa. Acompanhando Cauby ''desde que ele começou no rádio'', Clymene garantia que sempre o seguiu, ''seja onde for''.



Até mesmo quem não era nascido quando o ídolo surgiu teve seu surto de tiete durante o espetáculo. De pé na fila do gargarejo, Rodrigo Couto, 21, chegou a chorar enquanto Cauby cantava New York, New York. Para ele, sua emoção era ''por tabela'', justificada pela admiração da própria mãe pelo cantor..



Acompanhado pelo tecladista Moisés Pedrosa, Cauby cantou o repertório do novo CD, uma seleção de gravações da fase do cantor na RCA, que inclui o primeiro rock com letra em português Rock'n'roll em Copacabana, de Miguel Gustavo. Organizado por Rodrigo Faour, o CD é uma seleção de faixas raras gravadas entre 1957 e 1966, e traz ainda flertes do cantor com a bossa nova, como Gente, de Marcos & Paulo Sérgio Valle e Samba do avião, de Tom Jobim; standards, revisitados com letra em português como Eu dançaria a noite inteira (I could have danced all night) e uma incrível versão sussurrada de Não quero ver você triste, de Roberto e Erasmo Carlos, registrada na boate Drink (com direito a aplausos no fundo), que Cauby abriu em Copacabana em 1964, na Av. Princesa Isabel. Segundo Rodrigo, na época, Cauby dispunha na casa noturna de uma liberdade de escolha de repertório que a gravadora, em geral, não lhe dava. O resultado são interpretações em que o ídolo demonstra versatilidade, completamente à vontade no papel de ''rei da noite''.



Quem compareceu ao lançamento do CD na Le Boy entendeu o clima: com a casa cheia, a platéia participou do show batendo palmas, gritando ''maravilhoso!'' e assoviando. A pedidos, seu hit máximo foi lembrado e levou uma legião de homens a cantar ''Conceiçããããão'' a plenos pulmões. Em resposta à recepção efusiva, ele dava seu recado também entre as músicas:



- Amem... que é bom.



Ao final, já no camarim, Elke Maravilha, vestindo longuíssimas botas, micro shorts e uma camiseta, ajoelhou-se e beijou a boca e os pés de Cauby, emendando uma seqüência de elogios rasgados e palavrões:



- Ele é nosso maior ícone na música! - afirmou, apresentando ao astro a amiga Grace Kelly, alta (cerca de 1,90m) e escultural, metida num longo que brilhava como o antigo glamour de Copacabana na década de 50. Rogéria também apareceu para abraçar o amigo, repetindo enquanto lhe segurava as mãos: ''Que foz, que foz...'', trocando sutilmente o v pelo f.



Cauby Peixoto saiu do camarim cercado por seguranças da boate. Caminhando pela pista onde o bate-estaca do tecno já voltava a imperar, ganhou e distribuiu beijos no rosto dos rapazes que o parabenizavam pelo show. À porta da Le Boy, observado pelas fiéis Clymene, Sônia e Lídia, entrou numa Mercedes preta, com a classe dos pop stars de antanho, quando a vida sexual dos artistas era menos importante que seu talento.



escrito às 9:03 AM por seesaw