Daslu dos pagodeiros - Nominimo.com.br [01/DEZ/03]
Cecilia Giannetti
O que o cantor Cauby Peixoto, o piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher, os humoristas do Casseta e Planeta e o estilista Jean Paul Gaultier têm em comum, além da básica semelhança de gênero? O gosto por roupas nada básicas, como a moda uniformemente extravagante e garantidamente exclusiva da Hobi Club, um bastião do pagodeiro way-of-life, marca ostensiva do estilo desfilado pelos grupos de pagode e outros artistas populares em programas de auditório como os de Faustão e Ratinho.
Não existe tabu no guarda-roupa dos homens que vestem camisas de renda vermelha ou amarelo-ovo com fios dourados, estampas em cores tão vivas que parecem pular do tecido, cetins, brilhos e outras caríssimas extravagâncias desenhadas pelo estilista Carlos Saad, 42 anos. O homem que cria as roupas da Hobi Club estudou moda na Itália, foi estagiário de Gaultier em 1997 e hoje não só veste Cauby e Schumacher e cria figurinos exclusivos para o programa do Casseta & Planeta, como atualiza permanentemente o guarda-roupa de boa parte da música brasileira de gosto popular.
São seus clientes os músicas da banda de Alcione, todo o grupo Revelação, Bezerra da Silva, Neguinho da Beija-Flor, Júnior (o da Sandy), Jorge Aragão, Emílio Santiago, Alexandre Pires, Elymar Santos, Frank Aguiar, Broz, Skank, Só Pra Contrariar e Cadu & Camilinho, uma dupla lançada pelo apresentador de TV Ratinho - que, alías, também veste a marca Hobi Club. A moda de Carlos Saad brilha no palco graças à micro-seda, ao fio de Escócia (malha nobre italiana) e a rendas com aplicações em dourado, entre outros materiais importados da Itália.
O que mais comove a gente do palco, no entanto, é que são peças únicas, como lembra o cantor Alexandre Silva de Assis, o Xandy do grupo Revelação: ¿São roupas que, quando estou no palco, sei que não vou ver ninguém lá na platéia usando¿. Xandy se confessa ¿meio enjoado com roupa ¿ e diz que ouviu falar da Hobi Club pela primeira vez no ano passado. Convidado a se apresentar num programa de televisão, o cantor e seu grupo conheceram nos bastidores Ricardo Saad, 40 anos, irmão de Carlos e responsável pela parte administrativa da grife. "Na época, não dei importância, a gente estava começando e não tinha condições financeiras para comprar na loja, mas, depois que a gente passou a aparecer mais, eu estava andando em São Paulo, vi a loja e, desde então, tenho bastante coisa de lá, a banda toda usa", conta.
Puxadores de escolas de samba como a Imperatriz e o Salgueiro também freqüentam a loja dos irmãos de origem libanesa em busca de novidades. Assim como a turma do pagode, o pessoal da Apoteose procura as peças mais chamativas das coleções: "A gente tem muita força no Carnaval", comemora Ricardo, trajando camisa social e uma sóbria calça que em tudo destoa das cores gritantes nos cabides à sua volta.
Cauby, freguês fiel
Se boa parcela dos que vivem sob a luz dos refletores não dispensa o brilho e as estampas em cores vivas da Hobi Club, há quem ache que o estilo peca pelo exagero: "É uma crítica que recebemos", reconhece Ricardo. E se defende: "Dizem que as roupas da loja parecem feitas para mulheres, mas isso é uma questão de gosto".
Curiosamente, esse gosto não está longe da definição de estilo dada pela consultora de moda Costanza Pascolato no livro "O essencial": "A expressão do seu caráter, a sua atitude para transformar a mesmice e a banalidade da existência em obra original, engraçada". O escritor Oscar Wilde também apostava no exagero com seu estilo dândi e já ensinava no século passado que "a moda é uma forma de feiúra tão intolerável que somos obrigados e modificá-la a cada seis meses". Outra máxima de um grande artista ecoa como defesa do que muitos vêem como mera cafonice: como disse Pablo Picasso, "o bom gosto é inimigo da criatividade".
Mas os clientes da Hobi Club não estão preocupados com a língua ferina dos detratores do estilo "cheguei" e dispensam o respaldo de tão ilustres citações. Outros valores os movem: "Os homens têm uma certa vaidade, sim, e por isso temos tido bastante aceitação com nosso estilo", diz o estilista Carlos.
Cauby Peixoto, freguês fiel da loja há seis anos, que o diga: "Quando visto as roupas deles, eu paro o trânsito", exagera. "Gosto de coisas diferentes, com esse toque europeu das cores muito vivas", acrescenta o cantor, que tem evitado aparecer na loja nos últimos tempos com uma justificativa muito própria: "É para não ganhar mais presentes, pois eles me dão muitas coisas, sapatos caríssimos, gravatas, tudo importado¿. Quando precisa de uma roupa nova, Cauby manda a secretária buscá-la na loja.
Carlos Saad diz que a moda masculina nunca foi bem cuidada no Brasil e garante que o sucesso de suas roupas entre homens vaidosos se deve também ao acabamento: ¿Fiz pesquisa de mercado e senti que dá pra trabalhar com o público masculino no Brasil como se trabalha o homem europeu, bem fashion.¿
Exuberância exclusiva
Carlos e Ricardo gabam-se de que há poucas peças iguais nas lojas do Rio e São Paulo e até na filial em Luanda. A camisa de renda com fios dourados, por exemplo, pode ser encontrada nas cores vermelho, azul, amarelo e branco; mas apenas um exemplar de cada cor. A exclusividade é um valor agregado à roupa no universo em que circulam Xandy e muitos outros pagodeiros. Se as músicas de tais grupos podem parecer indiferenciáveis aos inimigos do neopagode, suas roupas são muito originais, pelos menos as que saem das araras da Hobi Club.
Os preços também são únicos, distantes do poder aquisitivo do grande público, o que vale à Hobi Club o apelido bem-humorado de ¿Daslu do pagode¿. Bom negociante, Ricardo discorda de quem considera exagerado o preço de peças tão chamativas: ¿Não acho elitizado cobrar R$ 200,00 por uma camisa diferente, que não se vê por aí¿.
Eventuais interessados devem saber que uma camisa de algodão e manga curta, por exemplo, custa R$ 169,00; uma calça em micro-seda sai por R$ 249,00. ¿Mas o Ricardo é bom amigo, é compreensivo, faz desconto¿, entrega o partideiro Bezerra da Silva, que mora perto da filial carioca da Hobi Club, em Copacabana. ¿Eu passava e via a vitrine, achava as camisas bonitas, entrei e virei freguês¿, conta Bezerra, confessando que, às vezes, usa as roupas de lá também fora do palco.
As criações de Carlos agradam também às correntes mais tradicionais do samba. Alcione veste seus músicos na loja. Neguinho da Beija-Flor não só usa as roupas da Hobi Club como recomenda aos colegas de ofício: ¿Indiquei para o Belo, para o pessoal do Araketu¿. Foi a propaganda boca-a-boca que transformou a marca em símbolo do pagodeiro way-of-life, mas a popularidade entre os artistas não se restringe ao nicho baticum do mercado fonográfico. ¿O forte da Hobi são pessoas que estão na mídia, mas não tenho preferência por nenhuma clientela específica, não vivemos apenas de artistas¿, garante Carlos, informando que também veste empresários, advogados e políticos.
No ateliê em São Paulo, o estilista comanda uma equipe de oito ajudantes. São os assistentes e o irmão que tocam os negócios no Brasil enquanto Carlos circula pela Europa em busca de novos materiais e tendências, o que faz obrigatoriamente de 20 em 20 dias. Indo na contramão de outras grifes da família - como a famosa Dijon, do primo Humberto -, Carlos considera-se um rebelde no clã dos Saad, que tem longa tradição nesse mercado: ¿Fui contra o segmento predominante na família e apostei no fashion. E não é uma moda só para o palco, só para pagodeiros ou artistas. Temos um projeto mais amplo¿.
Não é moda, é gozação
O bem-vindo espaço na mídia, porém, é garantido pela alta rotatividade de sua clientela em programas de TV. Com bom trânsito no meio televisivo, Carlos já chegou a trabalhar num programa próprio: ¿Fizemos um programa de calouros, eu e Elymar Santos, na TV Gazeta. Eu era o único patrocinador e fazia os figurinos. Foi legal, Elymar é parceiro¿. Entre os globais, a turma do Casseta & Planeta também usa figurinos do ex-aluno de Gaultier. As roupas criadas para o programa humorístico da Globo levam a marca do espalhafato, como não poderia deixar de ser, mas Carlos faz questão de frisar que esse é um trabalho desvinculado da Hobi Club: ¿Para eles eu faço uma coisa especial, não é moda, é gozação mesmo¿.
Carlos acaba de assinar o figurino do mais recente videoclipe da banda mineira Skank e já cuidou do visual de personagens da série ¿Você Decide¿ e dos cantores do programa especial ¿Amigos¿, que costuma reunir um elenco de astros sertanejos na programação de fim de ano da Globo. Não custou muito para que Chitãozinho, Xororó e companhia ganhassem uma linha de roupas diferente da que costuma encantar os pagodeiros. Resultado: Leonardo, Sérgio Reis, Ricardo e Rafael, Eric e Henrique, Pedro e Tiago viraram compradores assíduos. No que depender do estilista, o rótulo ¿brega¿ também não cola nos sertanejos: ¿Hoje é diferente, eles são mais respeitados como artistas¿.
Fora do mundo artístico, o estilista garante que é amigo de Michael Schumacher, que fez compras na loja quando veio participar do Grande Prêmio do Brasil em 2001 e em 2002. ¿Ele só não veio quando abri a loja em São Paulo porque estava ocupado testando um novo carro, mas me ligou desejando sucesso¿, afirma.
Tantos e tão famosos clientes dão a este filho de um fabricante de tecidos, que já pensava em trabalhar com moda antes de se formar em Economia e Administração, a certeza de que o negócio familiar tem tudo para se expandir além do eixo Rio-SP e Luanda. ¿Crescemos muito em Angola e uma experiência com franquia em Fortaleza deu tão deu certo que pensamos em abrir uma filial lá em janeiro¿, diz Carlos Saad. E os planos não param por aí: ¿Agora, meu sonho é abrir uma filial em cada estado do Brasil¿.
Linhas que se encontram - Portal Literal - [15 /10 /2003]
Cecilia Giannetti
Reunindo jovens autores cariocas que, até agora, tinham muitas coisas em comum e pouco contato, revista "Paralelos" será lançada dentro da Primavera dos Livros, abrindo no sábado o Prosa Plugada, evento da feira das pequenas e médias editoras dedicado à nova literatura do Rio.
- Eu não abro mão da primeira pessoa. Acho que você também não devia abrir. É uma característica do teu texto que não dá mais pra dissociar da história dessa personagem.
- Vou pensar nisso...
Digo e já vou pensando-remoendo o que o cara sentado à minha frente sugere, enquanto ajeito numa cadeira as sacolas cheias de material de divulgação da Primavera dos Livros: camisetas e filipetas com o logotipo da feira organizada pela Liga Brasileira de Editoras (Libre), que reúne pequenas e médias editoras e, no Rio (em São Paulo foi em setembro), acontece no Cais do Porto de sexta (17/10) a domingo. Nas sacolas há ainda centenas de livretos "Escritores à beira-mar ¿ A literatura nova produzida no Rio de Janeiro", com mini-contos de 300 toques cada, escritos por novos autores cariocas. Nós, os tais novos autores cariocas, não estaríamos sentados num bar em Botafogo falando dos nossos livros se não fosse pela revista "Paralelos", que terá sua primeira investida, um website, lançada no dia 18 de outubro, às 17h, na Primavera dos Livros. Saímos numa noite de sexta-feira para distribuir o material e divulgar o evento entre bares, restaurantes e livrarias. Acabamos aqui, batendo papo sobre coisas que normalmente só falamos com editores, ou nem com eles.
Por causa da revista e da Primavera dos Livros, esses encontros se tornaram comuns. Entrei em contato com o trabalho de escritores que eu não conhecia e que também passaram a ler o que escrevo. Descobrimos que alguns de nós já têm livros publicados, como Mara Coradello (escritora capixaba radicada no Rio), contos em coletâneas e romances em andamento, além de blogs múltiplos na internet. A maioria dos autores não sabia dos outros até serem convocados pelo carioca Augusto Sales, 32 anos, e pela equipe de seu site, o Falaê!, espécie de embrião on line da Paralelos. Criado em 2000, o site reúne, segundo Augusto, "ficções, poesia, debates, matérias e artigos bem e mal-humorados discutindo os anseios e as inquietações de pelo menos duas gerações de poetas, escritores, jornalistas, músicos, agitadores culturais, publicitários (alguns tudo isso aí, só que frustrados) e curiosos".
Augusto gosta de literatura e entende de números. MBA em finanças, atua como consultor em fusões e aquisições no Rio de Janeiro depois de ter trabalhado no mercado financeiro em Nova York. De acordo com seus cálculos, o Falaê! envolveu, em três anos de atividades, cerca de 30 profissionais e mais de 50 colaboradores. Ao mesmo tempo em que o site abrigava a produção literária de diversos cantos do Brasil, sua equipe questionava por que a nova produção literária do Rio de Janeiro parecia restrita à internet, fragmentada em blogs pessoais. E por que a efervescência de outras praças, principalmente São Paulo e Porto Alegre, com sua produção literária independente de alta qualidade, não estimulava os escritores cariocas da nova safra a mostrar a cara numa revista literária? Por que alguns desses ainda não foram publicados, apesar de representarem novos estilos e manterem uma produção de qualidade?
Foram essas perguntas que levaram à criação da revista, que será publicada pela editora Casa da Palavra, uma das participantes da Primavera. "Vamos produzir uma revista-livro que mostre a novíssima produção literária nacional em prosa, crônica e poesia, mas com destaque para os escritores do Rio. Quando começamos a montar uma lista de nomes de escritores novos que gostávamos, do Rio e de fora do Rio, notamos que, para oito escritores de fora do Rio, tínhamos apenas um nome carioca. Desses oito nomes, a maioria era de São Paulo e dos estados do Sul", explica Augusto. Para chegar aos autores do Rio de Janeiro, foi preciso um mapeamento realizado por ele, por Jorge Rocha (jornalista e escritor de Campos), pelos críticos Jaime Gonçalves Filho, Rafael Lima e André Mansur e pelas escritoras Mara Coradello e Crib Tanaka.
Desde o início de 2003, o grupo vem passando o pente fino em toda a rede em busca de sites e blogs literários. Uma vez encontrados os escritores "bichos-do-mato" cariocas, difícil foi entrar num consenso sobre quem seria contatado para o projeto: "Quem levava um nome tinha que dizer se a pessoa tinha blog, onde tinha encontrado, se o autor já fora publicado, quantos livros, qual editora, se participava de iniciativas na internet etc. e tal. Cada um ficava de ler e pesquisar mais sobre os autores e volta e meia alguém discordava da opinião do outro. Às vezes dava briga."
"O principal objetivo é o de 'desengavetar" originais'", continua Augusto. "Tirar os manuscritos das gavetas, dos hard-disk dos computadores e dividir com uma certa legião de leitores ávidos que se formam dia após dia dispostos a ler o novo."
A possibilidade de lançar o projeto na Primavera dos Livros trouxe a necessidade de nos articularmos para preparar mesas-redondas sobre literatura para o evento. Não demoraram a acontecer também saraus por conta dos escritores que também são músicos. Com apresentação marcada para o dia 18 em palco erguido no Armazém 5, passamos a ensaiar quase diariamente um repertório que inclui de Jorge Benjor a Van Morrison, além de músicas próprias. Toda essa movimentação no sábado ganhou o nome de Prosa Plugada.
"Por que demorou tanto assim pra gente se conhecer e começar a se juntar?", pergunta-se Jorge Rocha, que vai ler trechos de seus contos no evento. Respondo a ele que, em parte, é porque todo escritor gosta mesmo é de ficar quieto no seu canto. Por outro lado, o fato de haver tantos textos novos de qualidade sem uma revista para publicá-los sempre me pareceu um pouco de preguiça da parte dos autores. O nome "Paralelos" traduz muito bem a maneira como nos comportamos sem a revista: não nos cruzamos. Enquanto isso, em São Paulo, a turma nova se encontra toda semana, articulando-se em belas publicações impressas, websites e pequenas editoras. O modus operandi de tatu dessa geração de escribas cariocas vai até contra a própria fama do carioca de gostar de uma reuniãozinha. Mas alto lá: como disse o crítico Paulo Roberto Pires, não se trata de tentar restituir boemias perdidas, mas, simplesmente, voltar a conversar. Num cenário formado por grupelhos de três ou quatro que se linkam uns aos outros em seus respectivos blogs ¿ e disso não passam ¿ unir esses autores de idéias diferentes e estilos diferentes numa única publicação é compreender que não é preciso o radicalismo da pulverização para que cada um mantenha sua identidade.