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Quarta-feira, Novembro 26, 2003

O brilho de Autran Dourado - Portal Literal [20/NOV/03]
Cecilia Giannetti

Bem-humorado e cheio de boas histórias para contar: foi assim que o público encontrou o escritor mineiro Autran Dourado, 77 anos, em uma sala do Auditório do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (Praia Vermelha), na última quarta-feira (19/11). O autor falou a um grupo de alunos, professores e escritores, ao lado do editor Jorge Viveiros de Castro (7Letras), como parte do ciclo de palestras "O escritor brasileiro na virada do século". O escritor Carlos Sussekind estava na platéia do encontro, organizado e mediado pelo professor e escritor Godofredo de Oliveira Neto.

Respondendo longamente às perguntas da platéia, Autran Dourado relembrou lições que carrega por toda sua vida de escritor, recebidas de seu mestre, Godofredo Rangel, e dicas que oferece em seu "Breve manual de estilo e romance" (UFMG). Ele costurou informações preciosas para autores iniciantes, ironias e pauladas fortes em tudo quanto considera prejudicial à criação literária.

"Há uma conspiração para prejudicar o trabalho do escritor. Há um demônio a perturbá-lo. A criação é que salva o escritor. E se você não escreve, você vai pra cucuia. Eu espero que vocês tenham um bom anjo da guarda que os proteja do demônio, da conspiração", afirmou. E não sem conhecimento de causa: "Nunca conheci uma boate, não freqüento reuniões sociais, não conheço a noite carioca, sempre gostei de beber mas não freqüento bares. O que eu faço é escrever de manhã e de tarde. Mal tenho tempo para ler. Trabalho demais da conta".

Autran não poupou o "engessamento" da língua, ressaltando que "a gramática foi feita para ajudar o escritor, e não o escritor para ajudar a gramática. É preciso conhecê-la para poder desobedecê-la", disse. Convicto de que não se deve perder tempo "lendo besteiras", criticou a importância que o livro policial vem ganhando no meio literário, completando: "O enredo é uma coisa muito secundária no romance. Você só usa o enredo para distrair o leitor enquanto lhe bate a carteira".

Para ele, acima de tudo, o escritor "na sua literatura não deve fazer nenhuma concessão" nem deve querer tomar lições de gigantes absolutos, como Balzac; aprende-se mais com os artesãos, "Tchekov, Turgueniev, Flaubert", por exemplo. E confessou ainda, rindo: "Os meus personagens são como eu. Ou estou na maior depressão querendo me matar. Ou estou na maior exaltação querendo matar os outros". Segundo Autran, a personagem sempre se parece com o autor e "só existe depois que é batizado". Em seguida, emendou na história da personagem de "Uma vida em segredo" (virou filme pelas mãos da cineasta Suzana Amaral), que teria lhe aparecido em sonho dizendo seu nome completo, e o apelido, Biela. "Costumo levar dois, três anos para escrever um romance. Este, escrevi em meses."

A palestra chegou a ultrapassar em quase uma hora o horário previsto para seu fim. Depois de mais de duas horas de bate-papo aberto, Godofredo pediu as "últimas perguntas" e Autran protestou, dizendo que o mediador estava "atrapalhando tudo". Mas a chuva grossa que caía o fez mudar de idéia: "Tenho que ir pra casa. Moro em Botafogo. Lá enche".

Os escritores Paulo Roberto Pires e Silviano Santiago são os próximos a participar do evento no auditório do PACC (prédio anexo do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 3º andar. Avenida Pasteur 250, Urca. Campus da Praia Vermelha").

escrito às 1:48 PM por seesaw




História em revista - Portal Literal [20/NOV/03]
Cecilia Giannetti

Produto de uma parceria pouco comum no mercado editorial brasileiro, chega às bancas a revista "Nossa História", produzida pela editora Vera Cruz (pertencente ao Grupo Alfa) e a Biblioteca Nacional. O primeiro número da revista, lançado oficialmente nesta terça-feira (18/11), na sede da Biblioteca, no Rio, aposta na mescla de comentário sobre costumes do povo e bastidores da vida política nacional para atrair os leitores. Em 96 páginas coloridas, traz desde uma análise sobre os hábitos sexuais do período colonial (capa) até a visão de Elio Gaspari sobre a reunião que resultou na aprovação do AI-5, em 1968.

A publicação é comandada pelo jornalista Marcos Sá Corrêa, com textos de colaboradores como os historiadores Ronaldo Vainfas e Mary Del Priore e o brasilianista Richard Graham. Na pauta, 500 anos de Brasil e toda riqueza dos arquivos da Biblioteca Nacional para ser explorada. A proposta ocupa uma lacuna do mercado editorial com textos palatáveis sobre História publicados mensalmente ¿ uma periodicidade difícil de se manter, aliás. A tiragem é de 50 mil exemplares, com distribuição em mais de dez mil bancas, por R$ 6,80.

O ministro da Cultura Gilberto Gil, em discurso durante o lançamento, afirmou que vê na publicação uma maneira de atrair mais público à Biblioteca Nacional, "mais velha que o nosso ministério e, portanto, uma das bases da nossa cultura". Segundo ele, a revista, "além de ser de extrema necessidade, foi produzida com esmero".

Para o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro Corrêa do Lago, a publicação "dá acesso à História sem parecer maçante". Ele espera, é claro, que "Nossa História" tenha vida longa: "Já está vendendo bem. A idéia é que a revista dure."

escrito às 1:47 PM por seesaw




Crimes femininos Jornal do Brasil [26 / NOV / 03]
Cecilia Giannetti

Saem os primeiros títulos de coleção de livros policiais assinados por mulheres

Em livros de Agatha Christie, há invariavelmente uma vítima, um assassino e um investigador misturados a outros personagens na casa de um deles. Até que a identidade do autor do crime seja revelada, todos são suspeitos. Grupos que se reúnem na casa do roteirista José Louzeiro não costumam incluir personagens como os do universo da escritora inglesa. Mas, no aniversário de Louzeiro, há cerca de um ano, havia ao menos uma mulher arquitetando assassinatos e sugerindo a outras que fizessem o mesmo.

Convencida por Louzeiro a escrever um romance, a jornalista Denise Assis descobriu que outras convivas já estavam escrevendo os seus, igualmente incentivadas pelo anfitrião; eram histórias com elementos de suspense policial. Empolgada, ela decidiu reunir aquelas ''mentes criminosas'' a outras autoras numa coleção intitulada Elas são de morte. A Rocco gostou da idéia e hoje lança, no Centro Cultural Justiça Federal, às 19h, três dos 20 títulos previstos: os das jornalistas Atenéia Feijó e Ana Arruda Callado e da escritora Carmen Moreno.

O elenco de autoras conta com a própria Denise, organizadora do projeto, as jornalistas Scarlet Moon, Regina Zappa, Heloísa Marra e Márcia Cezimbra, as dramaturgas Maria Carmen Barbosa e Fátima Valença, a atriz Tessy Callado, a historiadora Mary del Priore e a roteirista de TV Denise Bandeira. Nenhuma delas havia havia escrito romance policial.

Com um currículo que inclui reportagens feitas para o Jornal do Brasil e revistas como Manchete, Geográfica Universal e Fatos e Fotos, Atenéia Feijó usou sua experiência nas redações e em viagens para construir a história de O jantar da lagartixa:

- O fato de eu ser jornalista me facilitou. Repórter é contador de história mesmo. Fiz muita matéria Brasil afora, fui à Amazônia em época que não existia sequer celular, então imagine as coisas por que passei! Fiz um roteiro e fui juntando minhas histórias. Resultou num policial bem brasileiro - conta Atenéia.

Autora da biografia de Adalgisa Nery que integra a coleção Perfis do Rio (Relume Dumará), a jornalista e professora de comunicação da PUC/ RJ Ana Arruda também aproveitou experiências próprias para criar o seu Uma aula de matar:

- A única coisa mentirosa no meu livro é o cadáver boiando. O resto são histórias que ouvi de amigos. Tem também cenas pesadas, desagradáveis, que me aconteceram e sobre as quais eu nunca tinha conseguido falar. Foi ótimo poder fazer isso no livro - confessa.

Viúva do escritor Antônio Callado, Ana afirma não ter pretensões literárias:

- Quis apenas contar uma história e brincar com a realidade.

Carmen Moreno, de quem a editora Rocco já lançou um romance e um livro de contos, diz que já planejava escrever um romance policial este ano. O convite de Denise Assis veio ao encontro do seu projeto:

- Recebi o telefonema dela e no dia seguinte já estava escrevendo - afirma Carmen, que levou quatro meses e meio para criar O primeiro crime, em que empregou técnicas já experimentadas em livros anteriores, como ler o texto em voz alta.

- Preciso ouvir o personagem para sentir se ele existe.

Denise não compreendia esta e outras manias de escritor até arriscar-se na ficção com Vende-se vestido de noiva, que sairá na segunda fornada da coleção, em janeiro, simultaneamente ao Saracusa.com, da atriz Eliene Narducci:

- Quando ouvia os escritores dizerem que seus personagens tinham vida própria, achava afetação... Agora vi que eles têm mesmo - diz Denise, para quem o diferencial de Elas são de morte está na feminilidade das autoras.

- Elas escrevem sobre morte, crime e sangue com realismo, mas com delicadeza, quase requinte.

escrito às 1:09 PM por seesaw