Sem limites entre sagrado e profano - Jornal do Brasil [ 13/ OUT/2003]
Mostra 'Arte da África' exibe no CCBB 300 obras representativas da cultura trazida do continente para o Brasil pelos escravos
Cecilia Giannetti
Um continente inteiro refletido em manifestações artísticas que apagam os limites entre sagrado e profano e estendem sua influência ao Brasil. Esta é a proposta da exposição Arte da África e dos eventos paralelos que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) abriga, a partir de amanhã, até 4 de janeiro de 2004. O evento é o carro-chefe das comemorações dos 14 anos do CCBB e reúne cerca de 300 obras de arte do acervo do Museu Etnológico de Berlim, além de performances teatrais e vídeos sobre a cultura africana. O conjunto exposto na mostra é mais amplo que o exibido em Berlim: embora o acervo do Museu seja de 75.000 peças africanas, só cerca de 200 costumam ficar em exibição.
- Esta exposição retrata que o saber da arte africana nada tem de primitivo; são trabalhos primorosos, de técnica sofisticada, de muita delicadeza - afirma o historiador e poeta Alberto da Costa e Silva, 72 anos, presidente da Academia Brasileira de Letras e a maior autoridade em África no Brasil.
Embaixador na Nigéria e no Benim, na África Ocidental, entre 1979 e 1983, o africanólogo visitou as salas do CCBB dedicadas à exposição a convite do JB antes da abertura para convidados, que acontece hoje à noite, e para o público.
Dividida em três centros temáticos, a mostra traz as chamadas power figures, ou esculturas figurativas, representando poder político ou de ''espíritos responsáveis pelo equilíbrio do mundo''; máscaras e instrumentos musicais, considerados partes das artes performáticas; e objetos de uso, como pentes de madeira e saleiros de marfim, alguns encomendados por europeus aos artistas africanos por causa da sua beleza - são talhados como verdadeiras obras de arte.
Costa e Silva explica que é possível encontrar nas peças produzidas por um mesmo grupo africano diferentes estilos de arte. É o que se comprova caminhando entre as obras confeccionadas entre os séculos 15 e 20, de 31 países africanos, dispostas no primeiro e no segundo pisos do CCBB.
- Na mesma sociedade, podemos encontrar desde peças extremamente realistas até as representações mais simbólicas. Cada povo da África tinha suas peculiaridades, por isso não se pode dizer que há uma arte única africana - continua.
Curador da mostra, o gerente do departamento da África do museu berlinense Peter Junge aponta semelhanças entre estilos africanos e europeus:
- Há peças mais puras, que lembram a tradição Bauhaus, mais simples. O cubismo, por sua vez, aparece ''antecipado'' em algumas máscaras. Já a máscara Fang [na Sala das Máscaras, onde também são exibidos vídeos de cerimônias em que os objetos são utilizados], lembra um Modigliani.
O artista mineiro naif Geraldo Teles Oliveira (1913-1990) também foi lembrado nas comparações. Diante dos postes (da República de Camarões) que serviam de decoração para moradias de reis, Costa e Silva enxerga semelhança entre as esculturas fantásticas de G.T.O. e as peças que enfeitavam entradas de palácios.
- É incrível o movimento dessas figuras. Parece que estão se mexendo. As esculturas africanas têm uma presença quase física.
Essa presença pode assustar um desavisado que cruzar a sala dedicada às ''figuras responsáveis por alterar o equilíbrio da natureza''. As inquices, conhecidas no Brasil como ''mandingas'', como lembra o embaixador, são representações de formas humanas ou de animais, algumas com compartimentos (algo como os santos do pau oco brasileiros), onde eram depositadas amostras de sangue e cabelos, entre outros, com o objetivo de alterar a vida de uma pessoa ou de um grupo.
Outras representações podem impressionar pela proximidade com o cotidiano da cultura brasileira, além da religião.
- Isso aqui toda mulher sabe o que é assim que bate o olho - diz Costa e Silva, apontando palitos de madeira para prender os cabelos. Entalhados, são bem mais elaborados que os de nossos camelôs. Há ainda sandálias de salto alto do Quênia em prata e madeira, também comuns entre os árabes, braceletes de bronze, anéis e pulseiras.
Marca presença ainda um traço cultural africano - representado em escultura na mostra - que ficou de herança para as mulheres brasileiras: a baiaca. O termo, que no Brasil é sinônimo de mulher gordinha, deriva das mulheres da etnia baiaca da África que, quando chegaram como escravas, tinham em comum o fato de estarem acima do peso.
A sala destinada aos instrumentos de música guarda raridades que se tornaram conhecidas em suas versões brasileiras, como a sanza (popular no interior do Brasil) e um agogô de pelo menos meio metro. Assim como os objetos de design, os instrumentos foram selecionados de acordo com sua forma e serão apresentados em cápsulas de acrílico com caixas de som que emitirão amostras de timbres de cada um, lembrando a presença da música africana tanto nas raízes do samba brasileiro como no jazz e na música pop, assim como nos cultos afro-brasileiros . É a união do sagrado e do profano, como explica Costa e Silva.
- Para esses povos, não existe fronteira entre sagrado e profano. A exposição consegue traduzir isso. É a melhor exposição sobre a África que já vi no Brasil. Vai ser um sucesso de público ainda maior que a das gravuras do Rembrandt [em cartaz de março a maio de 2003 no CCBB] - prevê.
O rock de bem com o Brasil - JORNAL DO BRASIL [ 23/SET/2003 ]
Ideal das novas bandas já não é cantar em inglês mas captar ritmos nacionais
Cecilia Barboza Giannetti
Ultimamente, ser brasileiro pega tão bem no meio musical que gringos como a dupla francesa Joyce Hozé e Thomas Naïm se disfarçam de Tom & Joyce para passar por produto verde-amarelo.
Mas houve um tempo em que pegava mal. Se uma novíssima leva de artistas brasileiros - a exemplo do grupo carioca Los Hermanos -, como Wado e André Nervoso Paixão, faz fama assumindo influências que vão de Chico Buarque a Clube da Esquina, o rock nem sempre esteve tão à vontade mesclado ao samba e à MPB. Yes, nós não tínhamos bananas: do final dos anos 80 a meados de 90, uma penca de bandas de diversos pontos do país fez boa música sem dar pinta de que eram brasileiras. Bandas como Killing Chainsaw (SP), Second Come, Dash e Pelvs (RJ), Brincando de Deus (BA), Dead Poets (CE), Sleepwalkers (SC) e Low Dream (DF) não só dispensavam a ''mistureba'' como também a língua portuguesa.
Dois marcos dessa fase curiosa do rock nacional estão fazendo aniversário: os discos Killing Chainsaw (Cri Du Chat), do grupo homônimo, e You, do Second Come (Rock It!, selo do ex-Legião Urbana Dado Villa-Lobos). Lançados no início da década passada, são registros da crise de identidade que tomou o estilo naquela época.
Cantando em inglês e sem resquício de baticum, alguns chegaram a arrancar elogios do DJ John Peel, autoridade da rádio BBC de Londres, e de semanários de música europeus. Outros receberam propostas de gravadoras para gravar em português, mantendo sua sonoridade: Marcelo Colares, do Cigarettes (RJ), foi sondado mas não aceitou a sugestão. Já as meninas do Penélope (BA), que em 1995 tinham uma demo-tape em inglês, fizeram bem a transição e até gravaram Namorinho de portão, de Tom Zé, em seu primeiro disco.
Quem te viu, quem te vê
Os shows do vocalista Nervoso têm sempre um convidado especial. O mais recente aconteceu há duas semanas, na Casa da Matriz, em Botafogo, com participação de Gustavo Seabra. Gustavo é voz e guitarra da Pelvs há 11 anos e agora está gravando seu primeiro disco em português.
- Estou há mais ou menos um ano no estúdio com o Dodô [ex-baterista da Pelvs] gravando a trilha sonora de um livro que ele escreveu, chamado Pessoas do século passado. Isso faz parte de um mesmo projeto, que envolve site, livro e essa trilha - conta Gustavo, ''convertido''.
Simone do Vale, que hoje pilota o baixo no Autoramas, é outro caso de conversão bem-sucedida: foi vocalista do Dash entre 1992 e 1997, tocando ao lado de Formigão, atual Planet Hemp. Eles chegaram a gravar um disco no idioma de Shakespeare, abrindo exceção para uma faixa - gravada em japonês.
- Eu cantava em inglês porque não conhecia nenhuma banda que prestasse cantando em português. Quando apareceu o Acabou La Tequila [referência forte para os Los Hermanos] e o Little Quail & The Mad Birds (DF) com letras em português, virei fã e decidi fazer também - conta Simone, que divide o Autoramas com seu ídolo, o ex-Little Quail Gabriel Thomaz.
Como se vê, a passagem dos anos parece ter resolvido ao menos uma das crises nacionais: a do rock.
A festa Móvel do Riocentro - PORTAL LITERAL [19/MAIO/2003]
Cecilia Giannetti
Percorrer os três pavilhões da Bienal do Livro num sábado é, de fato, um exercício literário. Entre filas e filas, há ótimos estandes, promoções interessantes e um Café com bons vinhos e escritores à vontade. Há poucas coisas mais literárias do que caminhar: Hemingway deu prova disso gastando sola de sapato por Paris na década de 20 e também as pontas dos dedos, ao retornar de seus longos passeios cheio de inspiração e vinho. Os 55 mil metros quadrados do Riocentro, na Barra da Tijuca, não abrigam qualquer área remotamente semelhante à nostálgica Montparnasse, menos ainda a Montmartre, mas garantem uma caminhada puxada. Percorrer os três pavilhões (verde, vermelho e azul) da maior Bienal de Livros que a cidade já recebeu - são 800 expositores este ano - é, definitivamente, um exercício literário.
Por volta das 13h30m do primeiro sábado do evento, o movimento pelos corredores do Riocentro ainda é moderado, mas já é possível identificar a formação de um dos fenômenos preferidos do brasileiro, letrado ou não: a fila. A que se estende agora diante do Café Literário, espaço criado para sessões de bate-papo com escritores, é para pegar senhas para a sessão com Millôr Fernandes, que falará sobre Sérgio Porto. As sessões seguintes desse sábado, com Rubens Figueiredo, João Ubaldo Ribeiro, a argentina Maitena, Zuenir Ventura e outros, todas repetem a longa fila à entrada do Café. Lá dentro, o espaço é atendido pela cozinha da Garcia & Rodrigues. Para encarnar o Hemingway de "Moveable Feast" no Café Literário, vale pedir uma tacinha de tinto seco e observar a fauna enquanto os escritores, sentados num sofá sobre um pequeno "palco", falam ao público sobre literatura. Lá pela quinta taça, já é possível alucinar um John Dos Passos flanando por ali. Mas, em se estando ainda menos
abonado que o Hemingway na capital francesa, o barato é contentar-se com o retrato de Fernando Sabino na parede e a prosa solta dos autores, que já está de muito bom tamanho. A conversa sobre Stanislaw Ponte Preta, por exemplo, foi proveitosa: Millôr abriu com uma de suas clássicas tiradas ("Espero um dia ainda poder falar a uma platéia que não seja igual a essa - estou olhando aqui e é tudo gente do século passado!"), contou estripulias e causos sobre os amigos, e até fez algumas revelações que caíram como uma bomba sobre a comunidade etílica carioca: "Há anos o Jaguar vem promovendo uma auto-mitificação, de que é um bêbado inveterado. Mentira! Vou desmitificar isso aqui: é abstêmio. Na frente da gente, ele finge que bebe um pouquinho". Chico Caruso, da platéia, ainda corroborou, apontando o acusado à
sua mesa: "Tá bebendo água aqui!"
Esse é bem o clima dos encontros programados com os escritores. Mas não é exatamente no Café Literário que se encontra o freqüentador-padrão da Bienal: o megaevento é um shopping center de livros, com todos os side-effects que um estabelecimento do gênero costuma oferecer: lá pelas tantas, os corredores ficam congestionados, as praças de alimentação (sim, temos isso também) lotadas, e o fenômeno da fila já se alastrou por lanchonetes e banheiros. O que fazer? Desistir da empreitada? Nem pensar - não é porque há mães percorrendo os pavilhões puxando os filhos pelas orelhas como se tivessem trocado o Barra Shopping pelo Riocentro sem querer, que você, bravo leitor inveterado, vai arredar o pé de caçar seus livros essenciais e perseguir os lançamentos. No entanto, se o trânsito entre os estandes estiver realmente comprometido, vale esperar que o fluxo normalize participando de um debate aberto ao público (no Café, só os autores e um "entrevistador" falam) - Salman Rushdie foi a pedida do sábado, 17. Nos próximos dias, estão programados Domenico De Masi (um dos nove autores italianos que vêm à Bienal por conta da homenagem à Itália), Caco Barcellos, Cristovam Buarque e Eduardo Bueno, entre outros.
Chega de auditórios? Vai encarar o caminho das letras? Então passe batido - ou não! Quem sabe você ganha - pela aglomeração (outra fila) em frente ao estande de uma operadora de celular que promove um concurso em que as pessoas, através de computadores instalados no local, respondem a questões como "Qual o nome do novo livro de Paulo Coelho" e concorrem a um aparelho de celular; dê uma paradinha estratégica na tenda da Cultura Racional - Universo em Desencanto e pegue um chaveirinho pra impressionar seus amigos fãs da melhor fase da carreira de Tim Maia; confira as promoções da Taschen e da LP&M; não deixe de parar na Libre (Liga Brasileira de Editores), que reúne 55 editoras, como Relume Dumará, 7Letras, Casa da Palavra e Iluminuras, em um enorme estande no Pavilhão Verde; vale checar o catálogo da Editora Planeta, espanhola recém-chegada ao Brasil, assim como outras megas que estão cheias de lançamentos; dá pra achar também títulos raros e usados vasculhando os estandes estilo "sebo" disponíveis; leve as crianças a estandes como o da Editora Globo, que oferece quadrinhos a R$ 1 e R$ 3, ou às leituras de livros infantis para a garotada com atores e marionetes; coma uma pizza, tome um café. E percorra tudo de novo para ver se não esqueceu de algum estande. Festa móvel é isso aí - ande muito e leve um pouquinho dela com você.
A estrela Lya PORTAL LITERAL [ 24/SET/2003 ]
Cecilia Giannetti
Muita gente ficou de "Perdas & ganhos" na mão, sem conseguir lugar para ver a concorridíssima palestra de Lya Luft no Rio. Os sem-autógrafo da noite de terça-feira (23/9) retratam o sucesso da autora gaúcha, transformada surpreendentemente em best-seller aos 65 anos.
Yanchel Fucs, 75 anos, está alheio às senhoras insatisfeitas espalhadas pelo pátio da casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, no Rio. De vez em quando solta um risinho e sacode a cabeça. Alisa a manga do casaco de lã, despista; diz que a sua terça-feira (23/9) foi muito boa, que recebeu uma notícia maravilhosa - "Nada demais". Para comemorar, marcara encontro com uma senhora para assistirem juntos a uma palestra. Naquele momento, já deveria estar sentado com ela no auditório onde a escritora gaúcha Lya Luft falava sobre o best-seller "Perdas & ganhos" e sua experiência de vida. Tinha comprado o livro para pegar um autógrafo da autora e dar de presente à amiga. Mas não conseguiu entrar na sala onde seria discutida "A reinvenção da vida" (nome dado ao evento do projeto Sempre Um Papo): uma hora antes de a
palestra começar, a coordenadora Tatiana Rubin recitava pela primeira vez a seqüência de explicações que passaria a noite repetindo:
- Está lotado; não, nem de pé. Desculpem...
"Não conheço a obra dela", explica o médico Fucs. Ele diz ter mais afinidade com a obra do escritor e psicanalista mineiro Hélio Pellegrino, de quem Lya ficou viúva em 1988. "Há muitos anos, tentei fazer análise. Li umas coisas do Hélio e pensei 'esse é o homem'. Arrumei o telefone mas ele disse que ia ter que me passar pra um ajudante. Acho que ele escolhia quem ia atender. Era escritor, queria falar com gente interessante."O livro não-autografado que Fucs segura chegou a tomar a frente nas listas de mais vendidos nas duas primeiras semanas de setembro, superando até Paulo Coelho e seus "Onze Minutos".
Através das memórias da autora de 65 anos, "Perdas & ganhos" aborda temas como família, maturidade e amor. Abandonando a ficção para alimentar suas reflexões com passagens de sua vida, Lya Luft parece estar atraindo um público diferente dos leitores de seus romances.
"Não é auto-ajuda?", pergunta Ricardo Pessoa, 40, à coordenadora do Sempre um Papo. "É a experiência dela, né? A gente queria dar de presente para uma pessoa que está fazendo 70 anos e tem uma postura muito positiva", continua Ricardo, acompanhado da mulher, Beth Pessoa, 42, e da filha, Gabriela, de 15 anos. Os três ouviram falar em Lya Luft pela primeira vez esta semana, "no Globo".
Sentado num canto do pátio cheio, o ator Rodrigo Penna, 29, fica decepcionado ao descobrir que não haverá uma segunda sessão da palestra: "Tenho fissura por ela. Choro quando leio. Sou louco pra levar pro teatro, recito alguns textos dela de cor. Tô chocado porque não entrei".
Uma senhora alta, de terninho rosa-claro e bem maquiada, circula com seu exemplar do livro pelo pátio da Laura Alvim. Geisha ("pronuncia-se gueixa...") Sily de Assis, 65 anos, é de Vitória, Espírito Santo, e está no Rio de Janeiro a passeio. Combinou com as amigas cariocas para "ir ver a Lya", mas ficaram todas de fora."Eu soube que esse último livro é muito bom. Estou admirada de ver quanta gente veio, o nível dessas pessoas. O Brasil está melhorando...", acredita Geisha. Perto dela, Maria Ester
Ribeiro, 84 anos, desconfia de privilégios: "Comprei o livro aqui para ela autografar, mas ninguém entra mais. Deve ter gente de mais gabarito que nós lá dentro, você não acha?".
Tatiana Rubin procura dar algum alento às senhoras e senhoras (muito mais senhoras que senhores) que não dispersam e insistem com ela para arrumar lá dentro "um lugarzinho": "Na verdade, já tinha gente aqui desde as 6 e meia. Esses entraram, mas não sei precisar quantos não conseguiram. Vamos tentar trazer a Lya para uma segunda data em breve. Esta semana não dá mais, ela vai embora amanhã".
Yanchel Fucs perdeu a palestra e ganhou o livro; acha que sua amiga deve ter comprado um exemplar ao entrar no auditório. Ela não ia querer ficar sem o autógrafo da escritora.
Digitação, o melhor presente para o escritor - JORNAL DO BRASIL [19/SET/2003]
No aniversário de 70 anos, Carlos Sussekind pede a convidados que o ajudem a passar para o computador o diário do pai
Cecilia Giannetti
Um aniversário em que os presentes serão dados apenas três meses depois. E estarão todos datados, mais precisamente com data do início do século passado. Em se tratando do escritor Carlos Sussekind, tudo isso pode ser muito normal.
Sussekind completou 70 anos, anteontem, recebendo os amigos na Livraria Dantes, no Leblon, para cantar o parabéns e entregar a cada um deles um envelope pardo. Cada envelope continha 15 páginas datilografadas do diário mantido por seu pai, o romancista também chamado Carlos Sussekind, entre 1938 e 1963. No dia 10 de dezembro, os convivas deverão voltar à Dantes para outra festa, desta vez levando em disquetes o texto das laudas que receberam nos envelopes.
- É uma armadilha para os amigos - riu o aniversariante, fazendo trocadilho com o título de seu livro Armadilha para Lamartine, de 1976.
O trabalho pesado já havia sido feito: graças a uma bolsa oferecida pela John Simon Guggenheim Memorial Foundation na década de 80, Sussekind passou dois anos trabalhando na transformação dos manuscritos em texto datilografado. O período não foi suficiente para que desse cabo, sozinho, das cerca de 30 mil páginas produzidas por seu pai. Mas o que conseguiu bater à máquina - textos escritos até 1951 - será devidamente digitalizado pelo mutirão que compareceu ao aniversário. Depois, esse material deverá ser disponibilizado em um banco de dados no Instituto Moreira Salles.
- Ele viveu para isso - comentou, à porta da Dantes, o poeta Armando Freitas Filho, agarrado ao seu envelope.
Será que a decisão de passar os textos para o computador significa que serão publicados?
- Com o Carlos, tudo é possível. Pode ser que não publique. Ele tem um monte de histórias incríveis que nunca publicou. Queria fazer o livro Os livros que Carlos Sussekind não escreveu - disse o jornalista Paulo Roberto Pires. Assim como Paulo Coelho, Paulo Pires é um dos conhecidos do autor que viraram personagem em O autor mente muito, escrito por Carlos em colaboração com o psicanalista Francisco Daudt.
A importância dos diários do pai de Carlos Sussekind é histórica, pois eles reúnem descrições detalhadas das transformações pelas quais o Rio de Janeiro passou ao longo de mais de duas décadas, além de trazer comentários políticos e relatos de casos pitorescos.
- São os fatos, o que acontecia. Não tem rasura, não tem balãozinho. É uma pessoa escrevendo sem intenção de fazer literatura - explicou o escritor, que começou a ler o material por volta dos 13 anos.
Nos primeiros tempos, os manuscritos ficavam trancados em uma escrivaninha. Quando todas as gavetas ficaram cheias, o prolixo autor dos registros decidiu ir dispondo tudo em prateleiras.
- Aí todo mundo podia ler. Depois, como eu virei o maluco, o maldito da família [o autor sofreu um surto e chegou a ser internado na adolescência], vi aquele material riquíssimo ali e achei que ninguém mais tinha tanto direito de divulgá-lo quanto eu.
A ''armadilha'' para os convidados foi organizada por Ira Maciel, companheira de Sussekind. Ela teve o cuidado de dispor sobre uma mesinha próxima à porta da livraria um cadastro que guardava nome, endereço, telefone e e-mail das ''vítimas'' comprometidas com cada um dos envelopes. E, como não podia deixar de ser, o bolo ostentava um livrão pintado em isopor sobre a cobertura, lembrando o calhamaço a ser transcrito.
A pesquisadora Flora Sussekind queria levar para casa algumas folhas, mas Carlos não deixou.
- Tentei pegar, mas ele não deixou. Será que é porque eu digito mal? - riu Flora.
E, no clima da brincadeira, o documentarista João Moreira Salles quase sai sem as 15 páginas que lhe cabiam. Antes de partir, esticou o braço para pegar o seu lote. Os mais chegados combinaram de trocar arquivos conforme digitalizassem as laudas. Uns queriam ler os comentários sobre o período de Getúlio, outros tinham maior interesse em saber detalhes da Segunda Guerra. Todos estavam ansiosos para conhecer o conteúdo dos envelopes. O autor mente muito? Pode ser. Mas os amigos adoram.
Muita calma nessa hora Revista Bala - [ 27/03/2003 ]
Cecilia Giannetti
Tom Waits encontra Nelson Gonçalves no EP solo do carioca Nervoso
André "Nervoso" Paixão, 31, diz a que veio no apelido e no sobrenome. Fã do explosivo Keith Moon (The Who), o batera é figura bem conhecida na cena carioca por já ter segurado o ritmo em bandas como Acabou la Tequila, Matanza, Beach Lizards, Autoramas, 77 Idols e Los Hermanos (numa apresentação histórica no Garage).
Agora o lado passional do cara desemboca em verve de compositor: alinhando Nelson Gonçalves, Tom Waits, Roberto Carlos, Los Hermanos e Graforréia Xilarmônica, Nervoso lança seu primeiro CD solo. Ou quase solo: "Personalidade" foi gravado com a participação de amigos e parceiros de som das antigas, como Simone do Valle (Autoramas), Gabriel Thomaz (ex-Little Quail and The Mad Birds, atual Autoramas, na guitarra) e Pedrão (Pelvs, trompete), Marcelo Callado (do Carne de Segunda, na batera), e ainda Guilherme Paixão, seu filhote de dois anos, falando em "Mais Justo".
Nervoso é editor de texto do programa Cineview (Telecine Premium) mas suas letras não sofrem da constrição do texto jornalístico. Para alegria de quem gosta de confissões rasgadas, o EP reserva faixas como "A Visita" ("Eu vim aqui saber / Se você ainda vive essa vidinha banal / Estou de volta mas considero / Uma afronta, uma ofensa / Não te encontrar") e "Bom Veneno" ("O bom veneno é amargo / E os melhores vêm em pequenos frascos / O bom veneno é rasgante / Seu ventre queima, seus dentes rangem / (...) Eu te peço, sirva uma dose desse para mim (...) E o meu fim será o seu suplício"). O baterista desce o braço e faz um disco que paga tributo a artistas que admira. Mas mantendo a personalidade.
Quando você começou a escrever as músicas pro EP? Tinha a intenção, logo de cara, de transformar num trabalho solo?
Nervoso - As músicas que entraram nesse CD foram compostas de três anos pra cá. Apesar de ter uma penca de canções mais antigas - prontas e inacabadas - encalhadas no meu computador, quis gravar essas, pois sempre acho que as mais recentes são sempre melhores. Na verdade, não foi logo de cara que tomei a decisão de lançar esse EP. Aliás, se tivesse grana lançava logo um disco, material não falta. O que me deu gás na hora de entrar em estúdio sem ensaiar, com boa parte dos arranjos na cabeça, foi justamente, além da empolgação, a possibilidade de produzir minhas músicas, o que até há pouco tempo, era uma das fantasias que sempre tive. Gravei cinco discos - que adoro, por sinal - como baterista e sempre achei que havia algo mais a ser feito. Comecei a pagar uma dívida comigo mesmo e, quer saber? Tá valendo, tô gostando e quero mais! Na verdade, não estou muito preocupado em ser um "artista solo" (palavrinhas pesadas, não?), e sim em dar continuidade às minhas perversões em boa companhia.
Quais as maiores referências pras músicas de "Personalidade"?
Nervoso - É difícil parar nisso, mas não dá para negar: sempre que estou compondo, penso com carinho em algum artista que admiro e, muitas vezes, a canção surge como uma homenagem. E então, quando a música está pronta, agradeço a Deus por ter conseguido finalizá-la e a esse artista por existir. Pensei em Nelson Gonçalves, quando compus "A Visita"; em Tom Waits, quando pedi socorro ao Renato (Acabou La Tequila, Charada) para compor "Bom Veneno"; em Beatles, Jupiter Apple e Graforréia quando fiz "Clube da Luta" pros Autoramas; e em Los Hermanos na hora de compor "Mais Justo" para o meu filho Guilherme. E por aí vai.
Qual a sua primeira memória de ouvir - e gostar - de música, da infância? O que você escutava quando era moleque?
Nervoso - Aos oito anos de idade, morava em Jacarepaguá (Zona Oeste do Rio) e meu melhor amigo tinha um irmão mais velho, que era DJ, skatista, tinha mesa de som Tascam em casa e colecionava vinis. Querendo ou não, a gente absorvia aquele som que depois, fomos descobrir, era chamado de
"rock pauleira" (eh,eh). The Who era a banda que mais nos impressionava. Mas na verdade, isso foi depois, quando já tínhamos uns dez anos de idade. Antes, tínhamos uma rixa, pois eu adorava Roberto Carlos, especialmente o disco que tinha a faixa "Amigo", e esse meu amiguinho chamado Dudu Caribé gostava de Milton Nascimento. Discutíamos bastante. Engraçado é que 20 anos depois, trabalhei como jornalista no Rock in Rio 3, e lá estava o cara, tocando guitarra na banda do Milton. Esse é um amigo que voltei a ver depois desse tempo todo. Temos trocado muitas idéias, ele compõe também e é um puta guitarrista, músico de verdade, com a vantagem de não ter aquele estereótipo de "músico", sabe?
Em 83, aos 11 anos, comprei meu primeiro vinil, foi o Maiden in Japan, do Iron Maiden, e comecei a frequentar shows de bandas de metal carioca, tipo Dorsal (Atlântica), Metalmorphose, Azul Limão, Kronus. Grande experiência, universo novo, cabeça a mil. Nunca tinha visto um solo de guitarra frente a frente até presenciar um show do Dorsal. Achava o Carlos Lopes um grande deus da guitarra (e ainda acho, Carlos!), fiquei maluco com aquilo tudo! Foi essa a primeira dose. E do sangue não mais saiu. Do final dos anos oitenta pra cá, comecei a ouvir de tudo, muito punk rock, gótico, eletro, rock progressivo, jazz...
Está tocando/ensaiando com outras bandas? Como vão esses outros projetos?
Nervoso - Estou bem concentrado nas minhas composições e em montar uma banda que me ature. Colaboro com o web designer Bruno Costa para montar um site. Estou compondo mais no computador também.
Os quarks vestem Versace - Fraude.org [ 07/02/2003 ]
Cecilia Giannetti
A atriz usa uma saia longa abaixo do umbigo, deixando à mostra um piercing prateado com jóia pendurada e uma barriga perfeita. O top é decotado e ela afasta os cabelos para trás, liberando o caminho para os fotógrafos. A atriz já pulou para o lado perigoso dos 30 e passa a mão esquerda nas minhas costas de um jeito maternal, como se fôssemos amigas. Talvez sejamos porque, de acordo com o que ela me conta, todos somos um. Estrelas, árvores, animais e seres humanos: somos feitos da mesma partícula. A atriz esfrega a mão nas minhas costas e pergunta se eu já li sobre o quark. As luzes apagam e uma voz no alto-falante anuncia que, a partir daquele momento, os lugares vagos poderão ser ocupados pelas pessoas que ficaram de pé. Eu ganho um assento e assisto ao desfile ao lado da atriz, que retira a mão de minhas costas delicadamente, roçando de leve as pontas das unhas na minha camiseta.
A grife Graça Ottoni trouxe à passarela um outono-inverno confortável que também ousou ser sexy, com apliques e estampas florais, blusas e vestidos finos com mangas em crochê, xales multicoloridos e calças leves. Não que eu entenda porra alguma sobre isso, mas qualquer jornalista na minha posição tem que aceitar quando é escalado para cobrir O Evento de Moda do Rio de Janeiro, o Fashion Rio / Fashion Business.
Unindo, sob a estrutura do Museu de Arte Moderna [MAM], moda e negócios, o evento pretende reerguer a indústria têxtil carioca, que hoje amarga um último lugar no ranking do mercado, atrás de São Paulo e Minas Gerais. Este é o Fashion Rio 2003. E um jornalista na minha posição, seria o quê? Alguém cujo quark universal e intergaláctico obedece ao quark de um chefe que, não satisfeito em me mandar cobrir desfiles de moda, também me enviará à Sapucaí em março pra cobrir desfiles de escolas de samba. Porque ele pode.
Não tenho uma partícula sequer que jamais tenha remotamente se interessado por moda. Tenho 1,60 de altura e briguei com meu peso por muitos anos, meu cabelo é longo e ondulado e eu amarro a cara na defensiva quando vejo uma câmera. Pra completar, meu chefe não conseguiu [sic.] um substituto pro meu trampo diário, que consiste em atualizar um site sobre toda a programação cultural do Rio de Janeiro [da última vez que checaram, era uma cidade enorme e bastante movimentada], desde o HTML das páginas e as fotos até lidar com os leitores, correr atrás de promoções e escrever as matérias e tijolinhos com as referências sobre o que acontece na cidade. Sem substituto, tenho que passar o dia e parte da noite assistindo a desfiles de moda e ainda dar conta de todo o resto. Acredito que, neste momento, minha sanidade mental está a 15% e o corpo... Cansado. Cansado demais.
Desde a abertura do evento na segunda-feira [03/02], durmo às duas, três da madrugada e chego às 13h para começar nova maratona. Subo e desço correndo uma rampa que leva de uma das salas onde acontecem os desfiles à sala de imprensa, porque é preciso dar as notas imediatamente, assim que os desfiles terminam. Não posso passar o texto lá de cima por celular a um outro membro da equipe porque não existe um outro membro da equipe exceto meu fotógrafo, Celso, um coroa gente boa que corre para cima e para baixo comigo também. Me ajudou pacas no primeiro dia, quando tava afônica por causa de umas festas do fim de semana. Ele se aproximava com o ouvido pra entender as instruções que eu tentava sussurrar antes de cada desfile ou quando avistava alguma personalidade sentada na primeira fila.
Hoje, quarta-feira, minha voz já está de volta, mas ainda vacilante. E tusso no ar-condicionado assassino da sala de imprensa, usando um casaquinho patético de velho sobre roupa toda preta e um tênis laranja. O bom desse lugar é que tudo é válido. As pessoas vêm com um puta vestidão ou um belo jeans e lá embaixo tascam uma sandália Havaiana da série mais tosca, mais rasteira. Uma calça velha cortada e uma camiseta preta e um tênis conga verde. Um tomara-que-caia transparente e sandálias de salto fino também aparecem. Resumindo: se você estiver mulambento, bem-vindo. Se você estiver alinhadíssimo, bem-vindo. Mas que seja tudo muito natural. Acho que essa foi a primeira lição de moda que eu aprendi na minha vida. Vou tentar não esquecer.
O desfile acaba e a atriz se vira pra perguntar onde vai sair a matéria e se a foto entrará. Eu respondo e mando outra pergunta, lembrando que o chefe queria:
- Como você vai de amores? [Como eu pude?]
- Não tenho ninguém em vista. Mas eu quero ser vista.
Entendida a mensagem, desci para contar aos leitores sobre o filme em que ela interpretará Madalena ["Vai ter Jesus, Judas... é de uma diretora estreante"].
Noutra apresentação, da marca Permanente-Andrea Saletto, o ex-Farofa Carioca e atual hype da cidade, Seu Jorge, encarnou uma mistura de puxador de samba e MC, fazendo ao vivo a trilha sonora do desfile, ao lado do DJ Negralha. Seu Jorge é sucesso com os shows da mega banda Orchestra Imperial [16 integrantes, entre eles: Moreno Veloso, a atriz Thalma de Freitas e Amarante, do Los Hermanos], que lota o Ballroom tocando bolero, cha-cha-cha e sambas clássicos para a juventude tostada de praia, que bate palma e pede bis.
Cercado pelos fotógrafos no fim do desfile, Seu Jorge garantiu que a Orchestra vai dar mais caldo que as apresentações ao vivo: "A Orchestra vai gravar", declarou, "estamos decidindo repertório". E sumiu na direção dos camarins, deixando para trás o burburinho por conta da ausência de seu tradicional black power, agora tosado, e a opção pelo kilt com estampa da coleção Permente e sandálias. As jornalistas adoraram. "Ficou másculo. Mas porque é ele".
Por volta das 19h eu consegui agarrar alguns sanduichinhos que moravam no balcão do buffet na sala de imprensa. Os agrados vêm em bandejas, na forma de sorvetinhos de frutas ou doces finos. É preciso adoçar essa turma. O caderno Ela, do Globo, é um dos maiores incentivadores do Fashion Rio e fala muitíssimo bem do evento, assim como Joyce Pascovitch e Erika Palomino. Mas sempre há aqueles que vêm determinados a falar mal de tudo, antes mesmo de conferir as coleções.
- O Fashion Rio não existe. Porque não existe moda no Rio.
Por mais desligada que eu seja do assunto, já ouvi isso milhares de vezes. Desta vez, estou ouvindo de J.L., uma das estilistas que trabalham para a Cavendish [que não está no Fashion Rio], num pub irlandês. Eu e ela freqüentamos religiosamente esse bar e nunca me lembro de que ela trabalha com moda porque é um dos últimos assuntos que qualquer pessoa tentaria puxar comigo. Dessa vez, eu tomei a iniciativa e agora ouvia sua opinião dramática sobre o evento.
- Em São Paulo sim! Aqui, não tem criação. Não adianta fazer um evento de moda numa cidade que não cria moda.
Com tal fracasso vaticinado antes mesmo de eu apresentar minha credencial pela primeira vez ao segurança na entrada da sala de imprensa, eu esperava o pior.
Meu fotógrafo chegou e a gente tem que tentar invadir um camarim antes do primeiro desfile porque o chefe quer mais bastidores.
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Cecilia Giannetti é jornalista e também vocalista do Casino.
Som no caldeirão eletrônico JORNAL DO BRASIL [ 26/OUT/2001 ]
Cecilia Giannetti
A luz do monitor de um PC Athlon é a única acesa no quarto. O cursor fica piscando na tela lentaço, sem conseguir acompanhar as batidas que o sujeito de óculos sentado à frente do micro inventou através de combinações de softwares. Ele acentua uma música com graves de drum and bass, daqueles que vibram no peito. A faixa ganha mais peso e fica no ponto para fazer dançar.
''Comecei a mexer com música eletrônica em 1997, usando uns programas gratuitos bem toscos que achei na internet, tipo Orion Pro e Virtual Sampler. Tudo que aprendi em computador foi por conta própria, só mais tarde fiz um curso de estúdio.'' Quem fala é o cara em frente ao PC, o carioca Fábio Soares, 25 anos, o FZero (ganhou o apelido no exército, onde sua atuação era bem parecida com a do Recruta Zero dos quadrinhos). Ele costuma virar o micro do avesso pra fazer música do jeito que quer. Podia ser mais um nerd passando o fim de semana entre partidas de Quake II e Alice ou qualquer outro estereótipo similar associado aos fãs de joguinhos eletrônicos. Mas no meio do caminho, havia Depeche Mode, The Beloved e 808 State, que serviram de pílula vermelha para Fábio: sabe a pílula que Morpheus oferece a Neo e faz o mocinho de Matrix ver o mundo de outro jeito? É bem por aí: essas três bandas de música eletrônica fizeram mais ou menos a mesma coisa com Fábio, mostrando outra possibilidade para a máquina que já era sua companhia inseparável. Acabou virando produtor musical, criando um projeto que reúne sampler, baixo, guitarra e batidões de drum and bass, o Gerador Zero. E continua nerd incontestável: ''Também trabalho com webdesign e arquitetura de informação'', comprova.
Em live P.A., o Gerador Zero apresenta-se como KZero, junto com o DJ baiano Lúcio K e... Peraí, pára tudo. FZero, Lúcio K, Gerador Zero, KZero, P.A.... Vamos organizar isso, que já está parecendo fórmula matemática: FZero é o produtor; Gerador Zero é seu projeto; e KZero é o Gerador Zero com samples e DJ, no formato de live P.A., ou seja, para tocar ao vivo em boates, como acontecerá no próximo dia 5 de setembro na Bunker, em Copacabana.
Boate - ''KZero é outro tipo de performance'', explica Maurício, baixista do Gerador que fica de fora do live P.A. quando a boate não tem estrutura para a banda toda. Neste caso, o guitarrista também é suprimido da apresentação ao vivo, mas o show não fica morno. Pelo contrário, conta com as inserções de Lúcio K, que também é produtor e carrega no currículo a organização da primeira festa eletrônica na terra da axé music, Salvador, em 1994:
''Adaptamos um restaurante todo feito de pedra, com óleo de baleia, que tinha sido uma senzala'', conta. O som de Lúcio chamou a atenção de Daniela Mercury, que acabou convocando o DJ a integrar sua banda na turnê brasileira do ano passado. Lúcio também participou da etapa carioca do Freejazz Project, que rolou no início de agosto, e é DJ residente da Casa da Matriz, em Botafogo, onde toca toda sexta-feira.
''O Lúcio é o único no Gerador que não é nerdzão de informática. Ele é mais vidrado em vinil mesmo'', diz Fábio, dedurando o vício do amigo em discos. ''O talento do FZero é tirar leite de pedra no computador; com um mínimo de recursos, ele faz de tudo'', rebate Lúcio.
Turma
Entendida a baderna sobre Gerador, KZero e similares? Então segura, que vai complicar de novo agora. Pra evitar a mesmice de qualquer jeito, Fábio agora decidiu mexer na configuração do Gerador Zero e, de quebra, dar um upgrade em alguns músicos da cena alternativa carioca que estavam meio devagar, quase parando: reuniu uma turma que tem propostas musicais bem diferentes entre si e está produzindo todo mundo sob a alcunha Gerador Zero. O projeto-banda segue a linha do britânico UNKLE, com um produtor encabeçando as gravações de vários artistas. Paco (harpa), Mary Fê (poesia, voz, violão, tocava no Amp Lee com Löis, do Zumbi do Mato) e Clara (flauta transversa), músicos da banda Trova Zen; o alemão Maurice Velte (da banda Plano B, de música eletrônica industrial); Sandro Carvalho e Mauríco MMA (guitarrista e baixista do Gerador Zero original, trabalham com programação de sistemas) e Lúcio K preparam músicas juntos e vão gravar sob a batuta de Fábio, no estúdio caseiro - mais precisamente o quarto - do produtor. Além disso, o site do Gerador na internet passa a trazer na sua primeira página um blog coletivo onde os músicos vão postar
informações sobre o andamento do projeto e bater outros papos afins.
''Gerador é um trabalho de parcerias. E, se eu perceber, por exemplo, que a Mary fez uma música na mesma escala que outra do Maurice, posso juntar as duas e fazer uma terceira música a partir dali. Esse é o barato do sampler: Ele não impõe limites'', diz o produtor.
''Vou usar informação de música pop, que é um negócio que eu gosto e não é muito comum em drum and bass. Apesar de ainda usar batidas DB, quero ir além disso.''
Bon Jovi repete músicas para show na TV - TERRA MÚSICA - [ 24/OUT/2002]
Cecilia Giannetti
O grande estouro do Bon Jovi, Slippery When Wet, de 1986, teve seu repertório escolhido numa estratégia até então inédita no showbusiness: 30 canções foram criadas com a ajuda do compositor contratado Desmond Child e apresentadas a uma fatia do público-alvo (adolescentes), mecanicamente, como uma ação de marketing. As músicas favoritas apontadas pela pesquisa entraram no álbum, que vendeu mais de dez milhões de cópias. Os tempos são outros, Bon Jovi não compõe mais hits como You Give Love A Bad Name e tamanho sucesso de vendas está no passado. Mas sua aproximação com o público no Garden Hall (Barra da Tijuca) pareceu tão gelada quanto sugere qualquer estratégia de mercado de ontem ou de hoje.
Após cerca de duas horas de atraso e confusão em busca de credenciais, tietes e jornalistas foram admitidos no Garden Hall para assistir à gravação do showcase da banda para o programa Fantástico. Sem data prevista para um show maior de Bon Jovi no Brasil este ano, os fãs tiveram que se contentar com um set de cinco músicas, três delas repetidas à pedido da produção do programa. Ainda escondendo-se sob os óculos escuros e vestindo a mesma camiseta preta justa, jaqueta de couro e calça jeans (justíssima) que usava na coletiva pela manhã (uniforme que também usou nas últimas duas décadas), Bon Jovi não fez um pequeno show para fãs, mas defendeu burocraticamente Everyday, It´s My Life, Misunderstood, Bounce e o hit inevitável, You Give Love A Bad Name. A banda seguia a mesma linha, exceto por Richie Sambora, tão ligado no público quanto nas câmeras de TV. De echarpe vermelha, calça jeans e paletó roxo com detalhes em vermelho, ele respondia aos apelos de fãs com acenos, beijos e risos, um pouco mais que o blase Jon queria dar.
Bis e bandeira brasileira
Poucas horas antes, durante a coletiva, Jon e Richie criticavam grupos que privilegiam o lado comercial de suas carreiras em detrimento de outras que, como eles, passavam pelo período de "ralação" em garagens e barzinhos baratos. Tanta cancha de palco, adquirida ao longo de uma carreira que já dura cerca de 20 anos e dez álbuns, parece surtir efeito entediante, em vez de energizar na banda. Jon cantou sem muito gás o que os fãs achavam ser um bis de presente mas tratava-se da obrigação de repetir três músicas (It´s My Life, Everyday e Bounce) para o Fantástico. Não tocaram os hits pedidos, não se desvencilharam do roteiro básico do programa. A simpatia calculada, de levantar uma bandeira do Brasil ao final da apresentação, já não espanta mais jornalistas, mas certamente ainda ganha pontos com os fãs. O gesto talvez adquira mais significado quando o programa for ao ar, após o segundo turno das eleições para a presidência da República no Brasil.
Com Bounce caindo da 2ª posição para a 11ª (parece que Elvis sacudiu a banda mais lá para baixo com seus quadris imortais outra vez...) nas paradas americanas, e o Brasil enfrentando uma crise que faz das bilheterias dos mega-shows uma incógnita, a melhor estratégia para se lançar o CD no país era precisamente esta: um show fechado e sua transmissão pela TV aberta.
Rápido (12 horinhas no Brasil), mais barato e infinitamente menos arriscado. Onde lucra o fã? Compre seu Bounce, digite o número de acesso ao conteúdo exclusivo do www.bonjovi.com que só o CD oficial traz e pegue uns minguados MP3 e fotinhos. Se é fã, você merece.
FURO
Eu dei essa notícia na Revista Bala há uma semana:
[ Ter Set 23, 11:38:37 PM | Cecilia Giannetti ]
MUDANÇAS NA UNIVERSAL MUSIC
Chegou ao Rio de Janeiro na terça (23), um time de executivos da General Electrics incluindo um Kennedy - para começar reformulações na sede brasileira da Universal Music (Barra da Tijuca); a G&E abocanhou, no fim de semana passado, parte ou tudo da Universal e está disposta a fazer mudanças com "cabeças grandes" da gravadora no Rio.
Abaixo, o que saiu hoje por aí:
Vivendi e NBC, demorou mas vai sair 14:15 A fusao dos ativos de entretenimento da Vivendi Universal com a rede NBC está perto de ser concluida. O acordo final poderá ser anunciado até 6a feira, segundo fontes ouvidas pela Reuters. No inicio de setembro, a Vivendi tinha divulgado que concordava com a fusao com a emissora, encerrando um tumultuado processo de ofertas que envolvia outras 4 candidatas, anterior aqui. Os termos finais nao devem diferir do que foi informado há 1 mês. A General Electric, controladora da NBC, ficará com 80% do novo empreendimento, enquanto a companhia francesa terá os 20% restantes. A empresa resultantes da combinaçao de negocios na area de TV aberta, TV a cabo e cinema vai criar uma nova gigante de entretenimento para rivalizar com a Disney e com a Viacom, dona da CBS e dos estudios Paramount. 01/10 Ana Kelner
Os amigos literários de Nise da Silveira - [ JUL/2003 ] Revista CCBB
Cecilia Giannetti
Com Graciliano Ramos, ela dividiu uma cela do presídio Frei Caneca, enquanto com Manuel Bandeira discutia filosofia na espera pelo bonde. A Dra Nise da Silveira, que revolucionou a psiquiatria no Brasil, chegou preferir os ensinamentos de Machado de Assis a Freud
"Para todas as palavras tem um sonho." - Fernando Diniz.
Única mulher entre os 157 alunos matriculados na turma da Faculdade de Medicina da Bahia, a alagoana Nise da Silveira não teria nisso a maior distinção de sua trajetória. Sua sensibilidade a levaria ao convívio de escritores e artistas, e influenciaria a descoberta de métodos revolucionários para o tratamento de pacientes com distúrbios mentais.
Após a formatura, em 1927, Nise seguiu para o Rio de Janeiro, instalando-se primeiro em uma pensão em Copacabana e, em seguida, em Santa Tereza. O bairro ainda oferecia sossego e aluguel barato. A Rua do Curvelo (hoje, Dias de Barros), como conta a pesquisadora cearense Elvia Bezerra em A Trinca do Curvelo (Topbooks), passou então a abrigar também a jovem doutora, além do alagoano Otávio Brandão, um dos principais elementos dos quadros do PCB, e que a apresentaria à obra de Nietzsche e Tolstoi. Na casa em frente à de Nise morava o poeta Manuel Bandeira; no Largo do Curvelo, Nise e Bandeira falavam de poesia e da vida enquanto esperavam o bonde. Por essa época, Nise chegou a ser colaboradora de A Manhã, jornal de Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues.
A vizinhança ilustre só foi abandonada quando Nise passou no concurso para médica psiquiatra, em 1933; mudou-se do Curvelo para viver e trabalhar no Hospital de Assistência a Psicopatas, na Praia Vermelha. Lá, prosseguiu com suas leituras de orientação marxistas, iniciadas sob a influência de Otávio Brandão; em 1936 (Ditadura Vargas), descobertos seus livros e anotações "subversivos", foi denunciada por colegas do Hospital e levada para o DOPs; transferida para o presídio da Rua Frei Caneca, ficaria lá por um ano e quatro meses, entre companheiros como Olga Benário, Eneida de Moraes, e o conterrâneo Graciliano Ramos.
A descrição que o escritor faz de Nise em "Memórias do Cárcere" relembra a fragilidade e inteligência da médica: "Sabia-a culta e boa. Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, reduzir-se, como se escusar de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. (...) Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes..."
Na rotina da prisão, Nise e Graciliano procuravam se animar com uma brincadeira: passavam horas discutindo que filmes iriam assistir no cinema, chegando a requintes de imaginar em que cinema e horário seria exibido, como se pudessem a qualquer momento sair da cadeia e conferir a sessão. A amizade se estreitava, tornando mais tolerável o ambiente: certa vez, por ocasião da publicação do romance Angústia, de Graciliano, Nise organizou, junto à Eneida e à mulher do escritor, Heloísa (a quem permitiam às vezes visitá-lo), uma festa numa das salas do presídio; prepararam almoço especial e flores para celebrar o lançamento do livro, impresso após vários atrasos.
A amizade entre a psiquiatra e o romancista sobreviveria ao período do cárcere. Diferentes em vários aspectos - Graciliano era indiferente aos animais, tão queridos de Nise, por exemplo - tinham, no entanto, um interesse comum: o ser humano.
"Eu tinha uns seis pra sete anos quando eles saíram da prisão. Nise freqüentava a casa e era muito amiga da minha mãe. Ela nos tratava com muito afeto, demonstrava querer muito bem a todos nós", lembra Luísa Ramos, filha de Graciliano.
Após o cárcere, Nise só voltaria a trabalhar como psiquiatra em 1944, no Hospital Psiquiátrico Pedro II. Logo se opôs com firmeza aos tratamentos impostos aos pacientes, desaprovando abertamente as práticas empregadas na época, como o eletro-choque, o choque de insulina e a lobotomia. Acabou transferida para a área considerada menos nobre do Centro Psiquiátrico, o setor de terapia ocupacional. Em 1946, seu trabalho já rendera frutos na instituição e Nise pôde criar a Seção de Terapêutica Ocupacional, no hospital de Engenho de Dentro.
Amor por Machado de Assis
Segundo Elvia Bezerra, Nise procurava despertar entre os estagiários o interesse por seu escritor brasileiro preferido: "Dizia que largassem seus manuais de psiquiatria e lessem Machado de Assis, que ele havia estudado profundamente a alma humana". Autores teatrais também eram lembrados no dia-a-dia com os pacientes (ou "clientes", como Nise preferia chamá-los). A partir da leitura de textos de Antonin Artaud, Nise criou as bases para uma experiência inovadora no tratamento de esquizofrenia. No "Relatório de 20 anos do Centro de Terapêutica Ocupacional", publicado no livro Imagens do inconsciente, Nise observou que "o teatro não alcançou ainda na Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação o nível que cabe a esta atividade (...) O teatro para esquizofrênicos (atores e espectadores), deveria ser teatro segundo conceito de Antonin Artaud. Teatro que apresente aos olhos certo número de quadros, de imagens indestrutíveis, inegáveis, que falarão ao espectador diretamente".
Das experiências em terapia ocupacional, a que tornou mais célebre o Centro foi o atelier de pintura e modelagem, cuja produção abundante levaria à criação do Museu de Imagens do Inconsciente, em 1952. Em 1956, fundou a Casa das Palmeiras, clínica de reabilitação para doentes mentais, em regime de externato, que privilegia atividades expressivas. Influenciada por Carl Jung, com quem estudou em Zurique entre 1957 e 1958, pesquisou mitologia grega para melhor compreender as imagens trabalhadas na terapia por seus pacientes. Os trabalhos expostos no Museu acabaram por despertar a atenção de outros meios além do médico por sua qualidade artística. A crítica destaca, até hoje, pacientes como Fernando Diniz e Emydgio de Barros. "Emydgio de Barros é um dos raros gênios da pintura brasileira", afirma Ferreira Gullar conheceu a Dra. Nise e o Museu de Imagens do Inconsciente através de Mário Pedrosa. "No começo de 1952 ele me convidou pra ir até lá conhecer os trabalhos de Emydgio, Raphael... Passei a conversar com Nise sobre arte e política e escrevia sobre as exposições", conta o poeta e crítico. Para Gullar, "há bons pintores e há maus pintores, independente de serem loucos. Eu olhava os trabalhos como expressão de artistas".
A Nise interessavam os aspectos da arte que pudessem revelar caminhos para a compreensão do funcionamento da mente fragmentada pela esquizofrenia. Para pensar a evolução de seu trabalho e explicar o que desenvolvia, arriscou-se na literatura utilizando a forma das cartas na descrição de suas descobertas. Em Cartas a Spinoza (Ed. Numem), ela desenvolve questões comuns ao trabalho de ambos. O livro é considerado uma das chaves para o pensamento de Nise da Silveira; escrito na forma livre de missivas, surgem naturalmente memórias da infância, da Sala 4 na cadeia, do convívio com mestres e comentários sobre os avanços em sua pesquisa. Nise publicou ao todo 12 livros e mais de uma dezena de ensaios em periódicos sobre aqueles que Graciliano Ramos chamou de "seus queridos loucos".
Rosângela Rennó e seu acervo humano - [ JUL/2003 ] - Revista CCBB
Cecilia Giannetti
Em velhos arquivos, a artista mineira recupera imagens fotográficas esquecidas e dá a elas
uma nova leitura e criação.
Rosângela Rennó é uma fotógrafa que não fotografa. Por outro lado, escreve histórias de que a própria História se esquece, apropriando-se de arquivos públicos e privados, de fichas penitenciárias e material jornalístico, de fotos antigas de desconhecidos e até mesmo de parentes. Em seu trabalho, esse material torna-se um esforço contra a amnésia. "A atividade literária é exatamente isso. Não se deter diante de nada. Que se faria do lixo, se ninguém quisesse ser lixeiro?" - sentencia uma personagem do livro O encontro marcado, de Fernando Sabino.
Mineira radicada no Rio de Janeiro, assim como Sabino, a artista não nega uma proximidade entre seu trabalho e o processo de criação literária descrito no romance. "Acho que meu trabalho sempre esteve próximo da literatura, porque eu o vejo como um meio para mostrar e falar sobre as humanidades. Sempre gostei de lidar com a história dos vencidos, das minorias, dos anônimos. Por esse ponto de vista, meu trabalho está mais próximo da literatura do que da grande História."
E Rosângela não se detém. Usa imagens destinadas ao esquecimento ou ao lixo para construir narrativas sobre o comportamento de uma sociedade para a qual o hábito de documentar e arquivar tornou-se tão comum quanto comer e beber, perdendo na automação do ato um sentido primordial de memória. Quando a foto é engavetada ou arquivada, condenada ao fundo do armário ou vendida junto aos pertences de falecidos em feiras de antiguidades, perde sua função primordial, tornando-se livre para sua arte.
Seus retratos ocupam diferentes suportes, como painéis e vídeos, e fazem ressurgir sob novo olhar o tipo comum, o negligenciado, o esquecido. Um apanhado significativo dessa produção ficará exposto no primeiro piso do Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro entre os dias 29 de julho e 21 de setembro, na panorâmica O Arquivo Universal e Outros Arquivos. A mostra traz grandes obras a partir de 1995, além de objetos menores criados anteriormente. O Arquivo Universal é o nome dado por Rosângela ao seu arquivo de textos sobre fotografias colhidas em jornais. Na mostra, esses textos aparecerão em dois projetos, Hipocampo e Duplo V, mas o título principal foi mantido como geral, segundo a artista, "por causa da idéia meio absurda de ter um arquivo universal, que por princípio já englobaria todos os arquivos do mundo... e outros mais. É pra ser irônico mesmo", diz.
A exposição reunirá trabalhos ainda desconhecidos no Rio de Janeiro e obras totalmente inéditas como Corpo de alma (2003), realizada a partir de fotografias de jornais brasileiros e de outros países em que pessoas aparecem carregando imagens de ídolos e entes queridos. "A foto exibida surge como uma maneira de trazer a identidade daquele morto, ou desaparecido, de volta", diz Rosângela.
Vestígios do sistema penitenciário
Estarão presentes também obras como a Série vermelha (2000/2003), em que comenta a obsessão bélica da humanidade em 16 retratos tingidos de vermelho que mostram militares e crianças com uniformes. Vulgo (Cabeças) (1998) parte de material recuperado entre centenas de negativos do arquivo de identificação da Penitenciária do Estado de São Paulo. São ao todo nove fotografias em que redemoinhos e cicatrizes das cabeças dos presidiários ganham destaque em vermelho. O que fica evidente com o "grifo" é o caráter único de cada redemoinho e cicatriz, apontando os indivíduos em oposição a uma população penitenciária anônima. No suporte vídeo, Rosângela apresentará Espelho diário (2001), misto de performance e instalação em que faz um falso auto-retrato construído a partir de personagens inspiradas em histórias reais de mulheres chamadas Rosângela, descobertas em notícias de jornal. Hipocampo (1995-2003), uma das instalações com texto, consiste em 16 textos cortados em vinil fosforescente auto-adesivo, sobre parede e piso. Segundo a artista, a peça tem montagem delicada e será adaptada a um dos cofres do CCBB.
Aos 41 anos, Rosângela foi representante do Brasil em junho último na Bienal de Veneza, ao lado de Beatriz Milhazes. Não é a sua primeira vez no evento: já participara em 1993. Nome conhecido desde meados da década de 1980, quando conquistou seus primeiros prêmios, ela vem mantendo uma trajetória coerente, preocupada em explorar os diferentes sentidos da fotografia, criando novas possibilidades de interpretação para imagens que recupera de uma espécie de arquivo morto social. "[A apropriação] é a base do meu trabalho. Não me é necessário fotografar para mostrar ou explicitar o que pretendo. Entretanto, sempre que necessário, faço ¿novas fotos¿, mesmo que sejam reproduções de outras. De qualquer maneira, o trabalho sempre gira em torno do universo fotográfico, mesmo que não da forma convencional, usada pelos fotógrafos em geral."
Jornalismo Gonzo? - O GLOBO [2002]
Cecilia Giannetti
Apesar de toda a pecha de bêbado-drogado-desregrado que atribuem a Hunter S.Thompson, pai do jornalismo conhecido como "gonzo", este não é sinônimo de matérias mal escritas sob o efeito de substâncias ilegais. Quem pensa apenas no filme "Medo e Delírio em Las Vegas" (na foto, Johnny Depp caracterizado como Thompson), de Terry Gilliam, baseado no livro homônimo do jornalista, pode discordar, mas existem mais coisas no gonzo que a vã filosofia dos bebuns pode enxergar. De acordo com Hunter, gonzo é "um estilo de reportagem segundo a qual a melhor ficção é infinitamente mais verdadeira que qualquer tipo de jornalismo". O jornalista gonzo deve estar presente na ação que descreve, dispensa pretensões à objetividade e escreve quase sempre em primeira pessoa. O "eu" do jornalista interfere na matéria: reportagem e repórter não estão separados, dando brecha à crítica, paródia, ironia e alerta.
CECILIA GIANNETTI é jornalista e faz o blog escrevescreve.blogger.com.br
Tom Wolfe por inteiro NO.COM.BR [ 22.Jan.2002 ]
Cecilia Giannetti
Na capa da edição americana de "Ficar ou não ficar" ("Hooking Up"), o título do livro foi omitido, surgindo apenas o nome de seu autor-vedete em letras vermelhas e garrafais contra um fundo amarelo-ovo: naturalmente, um lembrete ao leitor de que está prestes a entrar no universo histérico de Tom Wolfe. Os exageros do escritor não costumam vir desacompanhados de uma compensação à altura: desde "The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby", de 1965, aos best-sellers "Fogueira das Vaidades", de 1987, e "Um homem por inteiro", de 1998, o que se espera de um livro de Wolfe é uma crônica da sociedade americana feita por um observador atento que disseca seu assunto (a vítima) com um riso cínico na boca. Como parece ser praxe em qualquer evento envolvendo Wolfe, houve quiproquó acerca deste lançamento também. Desta vez, a reclamação não foi exatamente contra seu estilo hiperbólico. Os ataques concentraram-se em seu ego. A fatia da crítica americana mais inclinada à paranóia viu-se tentada a julgar este livro pela capa: Wolfe foi acusado de usar o prestígio acumulado há 13 livros e mais de trinta anos de carreira, para vender um produto que não corresponde à expectativa criada por seu rótulo. A marca registrada "Tom Wolfe" estaria, portanto, fazendo na capa de "Ficar ou Não Ficar" uma propaganda enganosa de um texto que está muito abaixo do potencial sugerido pelo letreiro. "O nome do autor transcendia a obra", yada yada yada, daí pra baixo.
A capa da edição brasileira (Rocco) é preta, com os títulos TOM WOLFE em branco no alto e o nome do livro em destaque vermelho e preto embaixo, o que talvez permita divagações tão criativas à crítica nacional quanto as que foram produzidas pelos colegas americanos. Para fazer esse jogo, eu poderia dizer que Wolfe é um narcisista (o que não estaria muito longe da verdade) indeciso entre permanecer um torcedor do Botafogo (repare na predominância alvi-negra na parte superior da capa) e virar casaca em prol do Mengão (vermelho e preto no título), e este comentário teria tanta consistência quanto as afirmações do setor mais chatinho da crítica americana. Mas a verdade é que existe qualidade no que encontramos entre a tão falada capa e sua não menos controversa contracapa - esta também ganhou comentários maldosos, por trazer uma foto de Wolfe de corpo inteiro (quando o normal é o autor aparecer apenas dos ombros para cima) em seu costumeiro, mas nunca fácil de engolir, terno branco. Como um dos alvos preferidos de Wolfe sempre foi a superficialidade do comportamento humano, ele deve ter se divertido um bocado lendo esses ataques. E seu ego, com certeza, agradeceu a confirmação de suas suspeitas sobre os partidários dos "rococós". A edição de "Ficar ou Não Ficar" lançada pela Rocco no Brasil corresponde a 250 páginas de ensaios e jornalismo que carregam a marca da maldição de Wolfe: extravagância, auto-referência e pontos de exclamação. Seria um trinômio do qual se poderia escarnecer, não estivesse combinado com wit, um senso de humor irresistível e a forte curiosidade que empurra o escritor para o fundo de cada história, de onde ele emerge trazendo mais que relatos distantes, acena com uma experiência. Wolfe é grande fã do naturalismo de Émile Zola ("Zola era um repórter extraordinário", como explica em "O País dos Marxistas Rococós") e dedica algumas páginas ao estilo e suas variações mais radicais: vê no romance com base jornalística a única saída para a literatura norte-americana, que considera morta desde 1972. Neste ano, anunciou em artigo para a revista "New York" o nascimento do New Journalism como um antídoto para a atrofia da literatura norte-americana. Em "Ficar ou Não Ficar", Wolfe volta a bater nesta tecla. Para ele, a modorra da esmagadora maioria dos romances americanos, e seu subseqüente fracasso de vendas, é conseqüência do ar viciado que respiram seus autores, que nunca deixam seu próprio círculo; um escritor que não observa a vida à sua volta está desperdiçando sua carreira (é preciso "sair de sua própria experiência pessoal afim de obter material para seus romances"). Ou seja, histórias claustrofóbicas sobre casais de escritores que jamais saem de casa não são exatamente a idéia de Wolfe sobre um romance.
E ele deixa isso bem claro quando ataca, armado até os dentes com números e pesquisas, três dos maiores nomes da literatura americana contemporânea: John Updike, Norman Mailer e John Irving. Ou melhor: Larry, Curly e Moe, os Três Patetas do capítulo VITA ROBUSTA, ARS ANOREXICA. Wolfe cita as vendagens de proporções astronômicas de seu romance "O homem por inteiro" para refutar observações maldosas (até raivosas) feitas pelos três autores contra seu best-seller, além reivindicar um lugar no Olimpo literário ao lado de Honore de Balzac e Charles Dickens, aboletando-se lá como mais um escritor genial aceito pelo público. A picuinha entre Wolfe e Irving, Updike e Mailer esquentou em Janeiro de 2000. Em entrevista concedida a um programa de TV canadense, ele respondeu a provocações dos três com pesada artilharia que antecipava o bombardeio perpetuado em "Ficar...". Wolfe mordeu de um lado e soprou de outro: ¿Sou um admirador de Douglas Coupland (autor de "Geração X"), que eu acho que é uma das mais vivas, excitantes vozes da literatura moderna", explicou, "então, não estou aqui sentado dizendo que a coisa só pode ser feita do meu jeito".
Ele pode ser egocêntrico mas não se pode chamá-lo de incoerente; pelo menos não no que diz respeito à rixa contra a escrita encruada. Uma das seções mais hilárias do livro é o perfil que Wolfe escreveu sobre o recluso editor da revista "New Yorker" em 1965, William Shawn. Pode-se dizer que aquele foi o primeiro round da luta de Wolfe contra a rigidez e a falta de imaginação de alguns padrões literários. Em "O Caso New Yorker", ele usa seu histrionismo para combater e ridicularizar um formato que desprezava: o da revista "New Yorker". ¿Depois da guerra, os subúrbios das grandes cidades americanas começaram a se encher de mulheres instruídas com casas grandes, maridinhos sérios e gosto para... comprar coisas caras. A ¿New Yorker¿ era mais ou menos a única revista geral que elas ouviam os professores mencionarem de uma... maneira cultural boa. E de repente elas descobriram (...) que essa revista (...) estava falando diretamente pra elas. (...) ter essa revista em casa já é um símbolo, uma espécie de distintivo.¿ Wolfe sabia bem que nervo estava atingindo quando escreveu isso. Nada poderia soar mais distante do projeto do fundador da revista, Harold Ross, que uma publicação dedicada às donas de casa suburbanas. E qualquer ofensa ao projeto original de Harold Ross causava terror absoluto em William Shawn, o editor que se negara a colaborar com o repórter para um perfil (vendetta). É possível confiar em Wolfe após a leitura desta parte do livro. Seus exageros parecem menos lunáticos quando somos lembrados dos livros sobre a "New Yorker" que passaram a pulular no mercado a partir da década de 90. Em alguns deles, as mesmas ex-estrelas da "New Yorker" que negaram as histórias contadas na matéria de Wolfe em 1965 aparecem confirmando tudo que ele tinha escrito sobre a revista e lhe rendeu alguns processos por calúnia na época. O capítulo é leitura obrigatória para jornalistas e escritores. E leitores da "New Yorker".
O fato de o olho de Wolfe estar arregalado quase estritamente sobre a cultura e o comportamento norte-americanos não deve servir de empecilho para o leitor brasileiro: não é difícil relacionar-mo-nos com temas como a sexualidade precoce e a cultura do corpo quando qualquer festinha de playground e banca de jornal brasileiros podem provar que enfrentamos questões semelhantes; em um mundo conectado por TV a cabo e Internet, o que as gerações futuras irão saber sobre hoje? O livro de Wolfe procura responder a esta pergunta concentrando-se em algumas das mais recentes obsessões do autor, ligadas a temas quentes contemporâneos como os avanços tecnológicos, o crescimento do Vale do Silício, hipersexualização, literatura, entre outros. Quem conhece o trabalho de Wolfe sabe que não deve temer um relato burocrático sobre as novas invenções dos magos da informática, considerações arrastadas sobre arte, lampúrias da terceira idade acerca de como os mais jovens vêm praticando o antigo esporte nem idiossincrasias fundamentadas tão-somente nas achâncias do autor sobre o suposto "fim" da alma e a neurociência (em "Digibesteiras, pó de pirlimpimpim e o formigueiro humano", com destaque para a história hilária sobre Wolfe levando Marshall McLuhan para almoçar em um strip club). Sobre este último assunto, aliás, ele critica, com os pés no chão, teorias cada vez mais populares que se sustentam por analogias sem base científica alguma, mas estão prestes a tornarem-se dogmas.
"Ficar ou não ficar" é Wolfe reconstituindo cenas e contando histórias com a extravagância e a espirituosidade do sujeito mais popular da festa, aquele que prende todo mundo à sua volta mexendo um uisquinho com gelo e fazendo rir. Mesmo que o seu terno branco pareça um pouco desgastado agora que possui uma cabeça repleta de cabelos brancos para combinar, Wolfe ainda tem uma ou duas coisas interessantes para dizer sobre a época em que vivemos.
Depois do arco-íris NO.COM.BR - [ 28.Fev.2002 ]
Cecilia Giannetti
"Nesse negócio, vale qualquer coisa. Desde que você consiga dormir à noite". - Dick Clark, apresentador de programa de música e variedades nos Estados Unidos, em entrevista a Ben Fong-Torres, em 1973.
"As coisas que nos tiram o sono são coisas que não valem a pena, por mais grana que tragam, por mais reconhecimento que tragam." - Marcelo Camelo
Certamente, você já ouviu uma música do carioca Marcelo Camelo. Deve ser possível contar nos dedos das mãos quem mora no Brasil e não ouviu "Anna Júlia" ao menos uma vez, desde 1999, ano em que Los Hermanos gravaram a faixa.
Quando conversamos pela primeira vez, em 98, num boteco da Praia de Botafogo, a banda de Marcelo contava então menos de uma dezena de apresentações, todas em pequenos bares como o Empório, em Ipanema, e o Bukowski, em Botafogo, mas já havia arrebanhado um público fiel que sabia de cor suas letras. Agora, depois do verão de "Anna Júlia", das regravações do sucesso assinadas por Frank Aguiar e Jim Capaldi (com participação especial do ex-Beatle George Harrison) e de ganhar "acanhado" o prêmio da MTV para o qual Chico Buarque também havia sido indicado, a única mudança evidente em Marcelo parece ser a enorme barba que tenta somar mais idade a 24 anos completados este mês. ¿Todo mundo pergunta esse lance das barbas e eles sempre fazem palhaçada pra responder. Mas é que eles gostam de conquistar ¿sendo feios¿, essas coisas...¿, explica Marcus Sketch, amigo próximo dos Hermanos que, assim como Alex Werner, cuida do website oficial da banda.
Mas o visual ¿Talibã¿ não é a única mudança na banda. Tudo começou com uma alteração em seu som, que abandonou o hardcore para fazer harmonias mais complexas e andamentos mais lentos, que as privilegiam. Depois, a banda trocou de empresário (¿Agora estamos com um empresário ¿menor¿) no final do ano passado. Seu status na gravadora Abril Music também sofreu alterações. A mesma coisa aconteceu com seu lugar nas paradas das rádios e da MTV.
A gravadora não acreditou em ¿Bloco do Eu Sozinho¿, sucessor do álbum que estourou com ¿Anna Júlia¿, em 1999, ainda que ¿Bloco¿ tenha recebido críticas entusiasmadas em todo o país. A Abril exigiu que a banda refizesse o trabalho, do repertório à produção, pedindo inclusive a substituição do produtor Chico Neves por Marcelo Sussekind (O tecladista Bruno escreve sobre a troca de produtores no site da banda, em ¿biografia 2001¿). A banda não cedeu e entregou o trabalho para a distribuição mantendo suas características essenciais intocadas pela remixagem de Sussekind. A Abril, em troca, ofereceu divulgação fraca, o que resultou em poucos shows pelo país.
O vocalista, guitarrista e principal letrista da banda chega descalço, de bermudão largo e camiseta listrada, à portaria do prédio onde mora no Humaitá, Zonal Sul do Rio de Janeiro.
- Não repara na bagunça. Homem morando sozinho... sabe como é...
Marcelo se mudou há menos de 15 dias para o apartamento. Na sala, pilhas de CDs enfileiradas tomam uma das paredes; no único armário à vista, parte de sua coleção de vinis: Raridades nacionais, onde a banda garimpa covers como ¿A Palo Seco¿, de Belchior, tocada no programa Luau MTV, em Fevereiro. Além do armário, os únicos móveis são uma mesinha de centro e um sofá. A caixa-coletânea de Chico Buarque, um de seus compositores preferidos, ao lado de Noel Rosa, faz parte do cenário.
Entrego a ele o CDR de uma banda independente carioca. Como bom ex-estudante de jornalismo (PUC-RJ), ele me faz perguntas:
- Quanto é que custa pra fazer um CDR, por unidade?
É seu jeito de começar a conversa, falando dos tempos em que fazia o fanzine ¿Doostraw¿ com o amigo e produtor Alex Werner, e distribuía fitas-demo dos Hermanos entre outros fanzineiros para conquistar público entre os freqüentadores de casas como o Garage, abafado, com palco pequeno e difícil acesso no Rio. A cena de rock alternativa de onde Los Hermanos emergiram em 1999 ganhou uma tendência de se dirigir ¿ ou pelo menos tentar ¿ cada vez mais ao mainstream. Na época da entrevista no boteco em Botafogo, os Hermanos trabalhavam, então, com estrutura de banda independente mas responsabilidade de banda grande. ¿Quem gosta mesmo de música quer viver de música,¿ contou. ¿Acredito que, se existisse mercado alternativo no Brasil como eu acho que existe nos EUA, com bandas que conseguem sobreviver num esquema independente tocando em tudo que é lugar, fazendo mini-turnês, e o cara até ganha dinheiro com isso... se existisse um esquema assim eu estaria mais que satisfeito.¿
Depois de quase quatro anos, um mega-hit e de algum conhecimento adquirido sobre o mainstream de que tanto se falava com alguma ingenuidade, o que a banda busca agora é justamente um ¿esquema¿ semelhante, que permita sobreviver no mercado entre a simplicidade da estrutura independente e as obrigações com a gravadora.
- Quando a banda fala é que mais se fode. Quando jornalista fala pela banda, sempre sai um pouco melhor.
É, mas ninguém melhor do que você para falar sobre o pote de ouro depois do arco-íris que parece ser a fantasia de todo artista não-contratado no Brasil.
Marcelo Camelo: É isso... Agora acanhei. ¿ Hesita, mas logo esquece do gravador.
Você vê algo errado na postura das gravadoras hoje em dia?
MC: É uma lista sem fim, mas se resume à falta de respeito pelo artista. Ponto. Isso tem muitas causas, causas muito grandes, muito maiores que a própria gravadora. Isso passa pelas rádios, passa pela televisão, passa pela maneira como as pessoas do mercado vêem o músico, como o próprio mercado fonográfico virou um negócio que tem muito a ver com dinheiro e pouco a ver com arte.
Como funciona isso hoje?
MC: As gravadoras entraram num círculo vicioso de procurar sempre a próxima sensação, a próxima moda, a próxima coisa que vai estourar e vai vender e acabar três meses depois. Parece um cachorro tentando morder o próprio rabo. Elas não formam mais um cast firme, não conseguem ter um artista como Legião Urbana, que não precisa de um centavo do dinheiro pro marketing, não precisa dar um centavo pra Legião Urbana hoje em dia e continua vendendo disco. E que vai vender disco durante muito tempo. Eu fico pensando... será que todas essas bandas do anos 80 que fizeram carreira no Brasil tiveram no primeiro single um megahit? Será que nenhuma bateu na trave? Sei lá, Plebe Rude, Capital? Será que o primeiro single de todas elas foi um grande sucesso? Hoje em dia não se permite mais bater um primeiro single na trave. Não deu certo, já era. No nosso caso, a gente vendeu mais de 300 mil discos do primeiro disco, é um número razoável pra uma banda de rock. Fizemos um segundo disco considerado um dos melhores discos do ano pelo Globo, JB, O Dia, jornal da Bahia, Brasília. E a gente não teve um segundo single. Só o primeiro: Só tocou ¿Todo Carnaval¿. Porque ¿Sentimental¿, a gente fez um clipe, orçamento baixíssimo, e não toca na rádio.
Se a gravadora não ajuda, é ela a culpada por as músicas novas não serem tocadas pelas rádios?
MC: É, precisa de investimento, a gravadora resolver fazer promoção, sim.
Não sai mais caro investir numa banda nova que vai durar pouco do que privilegiar os artistas de seu cast?
MC: Se você realmente consegue encontrar um Frank Aguiar a cada três meses, você faz uma gravadora de sucesso. ...Frank Aguiar, o Harmonia do Samba, todo mundo que vende muito disco em pouco tempo. Mas não seria mais prudente pra uma gravadora que pensa na sua existência a longo prazo, pegar artistas sólidos, artistas que pensem em uma carreira? Talvez, se o presidente de uma gravadora fizer isso hoje, ele perde o cargo. Entendeu? Gravadora não está preocupada com investimento a longo prazo. Cadê o Maurício Manieri? Ele é da Abril. Eu nãos ei onde está o cara. Ele vendeu à beça, cadê o trabalho de continuidade? Não consigo entender porque não valeria a pena investir em carreira. Tudo é muito descartável. A gravadora desacredita completamente sempre se a banda não tem um megahit a cada seis meses. É difícil. A galera de bandas independentes, elas têm que ter muito cuidado com esse sonho de assinar com uma gravadora grande. Quando você entra pra uma gravadora, começa a envolver o interesse de um monte de gente, você começa a sentir muita pressão, é um lugar um pouco diferente. Se você tá disposto a pagar as conseqüências de não ceder... mais que uma disposição de não querer mudar diante das pressão, é uma questão pessoal de não conseguir. Pô, num consigo aceitar que o cara fale pra mim que eu tenho botar no repertório do disco uma música que ele acha mais comercial e ceder a isso... não consigo! Nem que eu quisesse. É uma parada que ia tirar meu sono. E as coisas que nos tiram o sono são coisas que não valem a pena, por mais grana que te tragam, por mais reconhecimento. Ninguém vai responder por você uma pergunta sobre o seu disco. Então que o seu disco só tenha as coisas das quais você se orgulhe.
Houve um hiato de shows entre outubro e agora, fevereiro de 2002...
MC: O negócio do nosso hiato de shows, quando a música não toca na rádio, é difícil conseguir show. Esse é o problema de você ter uma banda com uma estrutura grande e que não tem o apoio da gravadora e que não toca na rádio. Você não tem mobilidade. O grande lance do underground é você ter o seus equipamentos, carregar tudo no seu carro e a sua estrutura se bastar, não precisar gastar dinheiro pra que a banda entre no palco. Você faz show num quiosque se você puder, entendeu? A gente não pode mais fazer isso porque, só no palco, são quatro músicos contratados, então já existe um custo inicial pra que a banda toque. Então tem que ter uma infra-estrutura mínima, um dinheiro mínimo pra tocar. E se a música não tá tocando no radio...
Eles não quiseram ajudar o disco nas rádios? Hoje em dia rádio não toca nada se não rolar um...
MC: Eles não gostaram do disco, eles queriam que a gente refizesse o disco com outro repertório, com outro produtor. Isso não era uma opção pra gente. Disco não é uma coisa que você faz de uma hora pra outra. É um repertório de músicas que você compôs e falam de situações que você passou e que você divide o arranjo com seus amigos, que você passou um tempo fazendo e tal. Muita gente tomou nossa atitude em relação ao ¿Bloco¿ como corajosa, mas não acho que seja coragem. Acho que é só uma falta de opção. Da maneira que foi colocado pra gente, ou a gente lançava o disco do jeito que o disco era, do jeito que a gente queria, ou a gente largava a banda e voltava pra faculdade. Não era uma opção refazer o disco com outro produtor depois de ter passado seis meses bolando o disco, de ter feito arranjos com tanto carinho, e o disco na verdade é um registro de momentos. Você não vai recuperar os momentos. Ia ter que gravar outro disco. E a gente não ia fazer outro naquele momento. A gravadora só é um dos alicerces responsáveis por manter isso. A banda tem que ser muito mais forte que o mercado, que a gravadora, do que rádio... pra isso, tem que ser perseverante, gostar do que faz... ser inteligente pra buscar alternativas pra isso, pra tocar.
Então, como fica a situação da banda?
MC: A gente precisa achar um meio termo, pra bancar nossa estrutura mais ou menos sem precisar de um apoio total da gravadora, porque a gravadora vai apoiar quando ela sentir que o disco tá pro lado dela, quando ela sentir que o disco é fácil, que ela não vai precisar se empenhar muito. Durante muito tempo a gente teve muita raiva da Abril, uma coisa meio adolescente, de quem tá entrando no mercado, e a nossa visão hoje em dia é um pouco mais serena em relação a isso. A gente viu que a Abril é parte de uma coisa maior. Quem manda é a grana mesmo, sabe? Quem vai dar mais grana é quem vai estar por cima da carne seca. Só que quem vai dar mais grana hoje pode ser quem não vai dar grana amanhã. Eu só acho muito burra mesmo essa falta de preocupação com o futuro. Uma gravadora que trabalha procurando artistas que vão estourar a cada três quatro meses, passar um ano sem encontrar um artistas desses, se houver no mercado um lapso de artistas de vendam um milhão de cópias, a gravadora acaba, né? ¿Cadê Teu Suin¿ (faixa de ¿Bloco do Eu Sozinho¿) fala muito sobre isso. (...) Esse negócio de música de trabalho, que é uma das coisas mais cruéis que se pode fazer com um artista que é pegar o disco dele e resumir o disco a uma coisa só. De tomar o todo pela parte. Mas isso é só o mercado.
Segunda opinião: A crise é o decreto de que algo não vai bem com o mercado como o conhecemos, é a falência de um formato de gerir as coisas. No momento, parece estar se delineando um meio termo, como Marcelo Camelo procura, para acomodar os artistas. Com a palavra, a baixista e vocalista Simone do Valle, do Autoramas:
- Antes da nossa geração, banda que prometia e não estourava no segundo disco acabava, brigava, era chutado da gravadora. Hoje a gente vê Bidê ou Balde, Penélope, Autoramas. Los Hermanos, Matanza, Video Hits... formar um bonde intermediário, sem sentido pejorativo, porque custa muito sobreviver nesse mercado das múmias. Era pra ter mais banda nessa jogada, era pro underground inteiro estar nessa, forçando a barra, metendo o pé na porta. Afinal, a gente veio daonde? Cogumelo Plutão, Surto, Tihuana, Superfly... essas não vieram do mesmo lugar que a gente. Ter ou não ter um hit na rádio não impede ninguém de nada. O público existe, e está aí. As casas de shows existem. É só ter vontade de trabalhar duro porque jabá nenhum desse mundo garante nada pra banda merda. O Surto que o diga. Cadê o Surto? Mas eu sei aonde estão os Hermanos, aonde a gente está, aonde está o Penelópe... ahá!
Benjor para 70 (+ 1) no.com.br [ 31.Jan.2002 ]
Cecilia Giannetti
"Tá com a credencial?"
com as roupas
"Só pode entrar com credencial..."
e as armas
"Desculpa, mas eu tenho ordem pra não deixar ninguém entrar sem credencial".
De Jorge
A maioria desses eventos (gravações de acústicos para a MTV, por exemplo) são feitos para vips: artistas, jornalistas com alguns anos de estrada e funcionários - alto e médio escalão - de gravadora. Por isso, poucos, pouquíssimos eventos fechados inspiram coragem para arriscar com a segurança. Um show acústico de Jorge Ben (Benjor, para algumas correntes mais pra frentex) vale o perrengue. Claro que havia o risco de arranjos modernosos terem destruído completamente os clássicos mas, ainda assim)
Sem credencial, convite, passe, crachá ou nome na lista, o jeito era adotar o modus operandi infantil (ou dar uma de doido, tanto faz): quero doce - doce atrás do balcão - entro balcão - pego doce. Pagar no caixa, fazer o pedido, entregar a ficha que comprova que paguei o doce isso são coisas que não existem diante do desejo puro de comer brigadeiro; a ação é cega.
"Sou da produção". Entrei sem pedido, caixa, balcão. Balcão não: os dois armários que ficavam na porta do estúdio.
"Credenc..."
Que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
Já dentro do Pólo de Cinema e Vídeo, bateu uma felicidade de mendigo em chafariz: refresca mas qualquer hora chega a polícia. Só que Jorge da Capadócia protege as crianças, os bêbados e os penetras. Sendo assim, todo penetra pode contar com pelo menos uma benção: é que, via de regra, seguranças têm medo de ouvir como resposta um você sabe com quem está falando? e estar, de fato, falando com o tio do dono da festa, a irmã do chefe de polícia ou a namorada do diretor do programa. De modo que perturbar demais um potencial ("Por que não seria...? O que entrega que ele não devia estar aqui?") convidado é um risco que os homens de preto costumam evitar.
De camisa laranja, calças curtas e tênis, Jorge chega para passar o som. Pouco antes, Seu Nenén, da cozinha da banda do Zé Pretinho, havia benzido o palco (¿Dá licençaaaa...¿) Outros membros da banda tomam posição, assim como a orquestra ao fundo do estúdio, regida por Lincoln Olivetti. Um fotógrafo me conta que no teste de iluminação do dia anterior, Jorge tinha se recusado a tirar o boné. "Mas tá dando uma sombra..." Não, o boné não sai, se não for assim não é. Hoje deixou disso, veio sem boné e de bom humor. Léo Gandelman, na sessão de metais, convoca Jorge para uma disputa, fazendo com que ele respondesse aos agudos do sax com a voz. A coisa persiste até um iiiiii prolongado e aí passam ¿Mas Que Nada¿, "Jorge da Capadócia" e a inédita "Dá Licença" com a banda do Zé Pretinho, sendo que ¿Jorge da Capadócia¿ é tocada três vezes e, a cada uma, Jorge altera o final, prometendo versões pouco rígidas para o acústico. Enquanto eu dançava em um canto do estúdio, minha credencial invisível chamava atenção balançando no ar. E eu na paranóia, achando que todos os seguranças podiam ver que ela não estava ali.
Por volta de 20h30, abrem o estúdio aos convidados. Poucos vips, de diferentes estirpes:
Branco Mello, João Suplicy, Lídia Brondi, a turma de comediantes do programa Hermes & Renato, da MTV, Paulinho Moska. E a casa não lota; provavelmente quem faltou hoje vai aparecer na entrada do estúdio no dia seguinte, dando algum trabalho extra para a produção - amanhã a banda se reúne novamente no estúdio para tocar durante uma hora posando para fotos que serão usadas no material gráfico do lançamento, além de refazerem algumas passagens em que as imagens ficaram comprometidas como, por exemplo, quando o Nenén improvisou e sambou diante de Jorge, e um violão caiu no palco.
Pouco tempo depois, a VJ da MTV Marina Person anuncia a entrada de Jorge. Na primeira parte do show, ele é acompanhado pela Admiral Jorge V em formação original com João Vandaluz no piano, Gustavo Schroeter na bateria e Gordinho e Joãozinho na percussão. Dadi, no baixo, e Marçalzinho, filho de Mestre Marçal, na percussão, completam o time. Nos backing vocals, o trio Golden Boys canta rindo pro público e dançando de sapato bicolor e gravata fininha. A gravação começa com ¿Jorge da Capadócia¿. Na seqüência, ¿Roberto Corta Essa¿, emendada à ¿Ponta de Lança Africano¿, que repetem a pedido do diretor. Seguem ¿Balança Pemba¿, ¿Comanche¿, ¿Bananeiro¿ (também repetida), ¿O Circo Chegou¿, ¿Ive Brussel¿, ¿O namorado da Viúva¿, ¿Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar¿, ¿Take It Easy My Brother Charles¿, e ¿Zazueira¿ .
Suspeito que a produção de endorfina esteja modesta entre as cinco fileiras de cadeiras dispostas ao redor do palco. Sacundim sacundém é som pra mais animação que aquilo. Se há alguma coisa de errado com a decisão de fechar os acústicos da MTV em um cercado para vips e jornalistas é que a platéia acaba se revelando... uma platéia de vips e jornalistas. Que não são, necessariamente, sempre os maiores fãs do artista no meio do palco.
Para a segunda parte do show, uma troca de banda: Sai Admiral Jorge e entra Zé Pretinho, composta pelo piano de Lourival Costa, bateria de Eduardo Helbourn, baixo de João Lucrécio e cuíca de Nenén. O set traz ¿Mas que nada¿, ¿Por causa de Você/Chove Chuva¿ , ¿Que maravilha¿, ¿Menina Mulher da Pele Preta", emendada em "Telefone¿, ¿Denise Rei" e "Que Pena¿ juntas, ¿País Tropical" e "Spyro Gyro¿, ¿W/Brasil¿, ¿Os Alquimistas¿ , ¿Fio Maravilha¿, ¿Dá Licença¿, fechando com ¿Taj Mahal¿.
Ausência sentida: ficou faltando ¿Charles Anjo 45¿ que, na terça, 29, eles haviam ensaiado.
Pausa para reflexão: suponhamos que você aí, leitor, é hoje, em 2002, diretor artístico de uma gravadora multinacional que tem no elenco um trio de loiras dançarinas batuqueiras da derrière tornada exuberante por meio de avanços tecnológicos; tem lá também sua banda de rock que vende bem usando o mesmo acorde de Hendrix em todas as suas músicas; um medalhão que vende um milhão de cópias por ano. Essas coisas, entendeu? Então, faz de conta que você, leitor, é esse cara. E aí aparece hoje em seu escritório um rapaz cismado em cantar ¿ voXe¿, com X, ao invés de ¿você¿ com C. E que também escreve umas letras sobre plâncton, ¿um bichinho verde que dá na água¿ e alquimistas que dispensam a companhia de pessoas de temperamento sórdido. Ele tem uma batida de violão que às vezes
FURO
Eu dei essa notícia há uma semana no site da Revista Bala. Veja o
escrito às
2:25 PM por
seesaw