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Segunda-feira, Novembro 27, 2006

A MORTE DA FESTA

[Rio Fanzine - Outubro]

Era uma vez uma vizinhança de aluguéis baratos, era uma vez uma cidade que inspirava mais música que penteados, era uma vez o rock. E agora o clube - onde cresceram e apareceram artistas como Ramones, Blondie, Talking Heads, Patti Smith e Television - deixa seu espaço na área novaiorquina do Bowery.

Num canto escuro do CBGB & OMFUG (Country, BlueGrass, Blues - Other Music For Uplifting Gormandizers*), pilhas de fanzines formavam a platéia da passagem de som dos últimos garotos anônimos que tocariam ali antes que o lugar fosse oficialmente fechado com o show de Patti Smith. Estampados nas capas dos zines, uma foto da entrada do clube na década de 70 e um selo que, hoje em dia, é coisa rara no mundo do rock: ABSOLUTELY FREE.

"Gente, alguém aí tem um Xanax? Não tô legal. Quero chorar". A bartender Karina LaVicchia, 33 anos, trabalhou por cinco no CBGB e encarna o climão de enterro do último fim de semana de função normal do clube: "Estou triste mas anestesiada. É tudo dinheiro hoje em dia. História e música não significam mais nada".

Let's lynch the landlord

O proprietário da marca e da birosca, Hilly Kristal, 74, vinha lutando desde 2005 contra o despejo do CBGB's pelos proprietários do prédio - que, a exemplo de outros proprietários em NY, impõem aluguéis galopantes aos seus inqüilinos. "Meus advogados avisaram logo que era caso perdido", conta, com a experiência de quem gerencia clubes desde a década de 60. Paralelamente, combate um câncer de pulmão. Agora que a campanha Save CBGB deu em nada, ele confirma o futuro do clube mas - bem ao estilo punk - não sabe dizer nem como nem exatamente onde vai enfiar o novo CBGB: "Não há nada definido ainda, não escolhemos um lugar mas é certo que será em Las Vegas e vamos levar para lá tudo que representa o clube". Levará as portas, que tornam a fachada notória, e - promete - até os mictórios. Tudo pela "autenticidade".

A mudança para Vegas parece absurda, se considerarmos boa fatia da história inicial do punk e da new wave, atrelada ao clube bagaceiro aberto em 1973. Mas a escolha da terra extravagante dos casinos e shows de ídolos acabados americanos é coerente com o que se tornou o CBGB já há uns bons dez anos: comércio da marca.

Ignorando a cara de poucos amigos da bartender, uma mulher - que tem algo entre 50 e 60 anos - vestindo couro e estampa de oncinha, aproxima-se do balcão perguntando onde pode comprar camiseta CBGB para seu cachorro. Miss LaVicchia resmunga secamente: "Não aqui". Mentira: na lojinha do clube - que continuará em Nova York, em novo endereço - vende-se de tudo que leva a sua marca, de camisas, casacos e suportes para guitarra até calcinhas.

Faça você mesmo... seja aonde for

O que aconteceu ao CBGB não é novidade para os fãs de rock em NY e já roubou da cidade outros marcos da cena, como o Continental, em St. Marks Place, que há um mês fechou seu palco - por onde também passaram Ramones e Smith, e era parada obrigatória para bandas na estrada - após mais de 20 anos, reabrindo como bar-com-jukebox. A praga dos aluguéis altíssimos - e subindo! - expulsa da cidade aqueles que raramente têm dinheiro: gurizada que faz música; e despeja clubes históricos.

"Nova York era um lugar para onde gente criativa vinha tentar fazer sua coisa, independente do que fosse, punk ou fotografia ou pintura. Agora é só um lugar para ricos," me diz Joshua Lee, vocalista da banda novaiorquina The Party Death (http://www.myspace.com/thepartydeath). "O que aconteceu de profético neste lugar pode acontecer em qualquer outro. Já estava morto havia algum tempo," decreta, pendurado no balcão do bar.

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* Gormandizer, na definição assinada por Kristal, pregada num canto da parede do bar, é "um consumidor voraz de, neste caso, música".

escrito às 12:15 PM por Cecilia Giannetti




Segunda-feira, Setembro 04, 2006

LIVRO BARATO É NO BROOKLYN

[Prosa & Verso]

Ficar rico não era bem o objetivo de Walt Whitman quando publicou Leaves of Grass por conta própria - e anonimamente - no Brooklyn. Mais de cem anos depois, pequenas editoras independentes chamam atenção no mercado de livros em Nova York, infestando a mesma área. Algumas passam a gerar lucros e fornecer talentos para o mercadão - caso da Akashic Books, cujo romance The Fuck-Up rendeu ao estreante Arthur Nersesian rótulo cult e um contrato com a Harper Collin.

Apesar do destaque, a maioria permanece como empreendimentos oficialmente não-lucrativos. Uma visita à Ugly Duckling Presse dá uma idéia de como operam essas micro editoras. A UDP ocupa no segundo andar do prédio conhecido como Liberty Warehouse, e não é só porque suas janelas dão vista frontal para uma distante Estátua da Liberdade que o lugar se chama "Armazém Liberdade". Ao entrar no loft alugado pela UDP, o visitante encontra caixas vazias de cerveja e de pizza integrando a paisagem caótica de papel picado, tintas, cola, carretéis de linha colorida e todo tipo de material necessário para criar o acabamento artesanal que é a cara da UDP.

"Olha essa bagunça. Ontem tivemos um grupo trabalhando até tarde e parece que se esqueceram de limpar," desculpa-se Garth Graeper, um dos coordenadores da UDP, que tem jeitão de coletivo literário. No som, enquanto trabalham, rolam Tom Waits, Sonic Youth e jazz latino. Um estagiário derruba um copo de café sobre uma pilha de cadernos recém-impressos. Não é o fim do mundo: os cadernos podem ser reimpressos em casa mesmo. "Não me desmonte", implora um bilhete pregado sobre uma velha prensa da década de 70.

Suas tiragens variam entre 500 e mil livros. Quando publicam mil, usam uma gráfica externa barateira e apelam para a "caixinha" de doações. É assim que conseguem a liberdade de publicar o que dá na telha: autores obscuros como Anja Mutic (imigrante da antiga Iugoslávia, residente no Brooklyn), encontram lugar na UDP, que também produz eventos fora do papel, "performances que podem existir em vídeos, CDs ou latidos-para-uma-árvore", reunindo escritores e outros artistas.

Mãos à obra

Todos os livros passam pelas mãos de grupos de voluntários, através de workshops que acontecem no loft durante os finais de semana. A editora abre suas portas a quem tiver interesse em aprender - fazendo - detalhes sobre a produção dos livros e disposição para ir até Red Hook. Originalmente um vilarejo de colonização holandesa, anexado ao sul do Brooklyn, essa vizinhança foi cenário de "Uma Vista da Ponte", de Arthur Miller, e do "Terror em Red Hook", de Lovecraft. Na verdade, o verdadeiro horror de Red Hook é que, de Manhattan até lá, é preciso encarar ônibus e metrô num mínimo de duas horinhas de viagem.

A base de voluntários é fiel e comparece ao loft sempre que um novo livro entra em produção. "As pessoas vêm quando querem, não há compromisso. Mas a maioria volta regularmente", conta Garth. Todos participam de cada ciclo de tarefas, desde encaixar corretamente cada caderno de uma edição até costurá-la manualmente, com linha grossa e agulha. Ninguém recebe pelo trabalho nem a Ugly Duckling também não lucra com isso, a exemplo de outras casas editoriais desse boom.

A mais famosa entre elas, Archipelago Books, tem ganhado as páginas da Business Week, New York Times e Publisher's Weekly, além do inevitável Village Voice, graças ao sucesso de crítica e vendas Gate of the Sun, 11o. romance do libanês Elias Khoury. O que já seria surpreendente apenas porque a Archipelago não faz campanhas publicitárias como suas mega-concorrentes - conta apenas com propaganda "boca-a-boca", a maior parte via internet - e não tem distribuição em cadeias de livrarias; além disso, trata-se da tradução de um autor estrangeiro praticamente desconhecido do público americano, especialidade da casa.

De acordo com o estudo "Under the radar", promovido no ano passado pelo Book Industry Study Group, existem hoje 63 mil pequenas editoras nos Estados Unidos, que geraram 14.2 bilhões de dólares em 2005, contra cerca de seis mega-editoras que, segundo a Association of American Publishers, lucraram 23 bilhões com vendas no ano passado.

O começo é sempre dureza: no caso da UDP, um dinheirinho tirado do próprio bolso e, principalmente, donativos foram os investimentos que mantiveram a empresa viva nos primeiros dois anos. Regra geral entre as micro do Brooklyn é usar a internet para tudo: angariar doações e voluntários, divulgar e vender livros. E há ainda uma feira que já acontece há seis anos, a Brooklyn Alternative Small Press Fair.

"Hoje em dia já conseguimos sustentar a editora sem tirar do nosso bolso: cobrimos o aluguel com a venda dos livros, assim como o material de produção", explica Garth. Segundo ele, a Ugly Duckling - e muitas outras - permanecem fiéis aos princípio do pioneiro Whitman: "Às vezes alguém tem que paga uma pizza pra gente. Não estamos milionários mas ninguém morre de fome...", brinca. No final do workshop, os voluntários ganham um churrasquinho no terraço da editora.



escrito às 10:41 PM por Cecilia Giannetti




Domingo, Setembro 03, 2006

Rinha de rappers - Jornal do Brasil

'Batalha do Real' reúne na Lapa MCs que disputam verso a verso prêmio e fama
Cecilia Giannetti


Sábado, 27 de setembro. Madrugada. O chão está enlameado, apesar de não ter chovido. De vez em quando um pingo grosso cai do teto: casa cheia, paredes suadas. Os meninos tiram a camisa e exibem os resultados da malhação enfeitados por tatuagens e cordões de prata ou ouro pendurados no peito. As garotas vão de top ou camisetas bem decotadas para enfrentar a temperatura no Balcão da Lapa, um salão de sinuca que fica no número 73 da Rua do Riachuelo.


É lá, que, desde abril, acontece a Batalha do Real, disputa entre MCs em que os versos são improvisados e cuspidos na cara do adversário. Organizada pelos rimadores Marechal e Aori , o local chega a receber 500 pessoas, com dezenas aguardando na calçada para entrar. Nesta noite, final do I Campeonato da Liga de MCs do Rio de Janeiro, há cerca de 350 aqui dentro. Nas primeiras competições, o público não pagava para entrar e o vencedor de cada noite ganhava como prêmio notas de R$1,00 que eram recolhidas entre a platéia (daí o nome do evento). Agora, o melhor improvisador vai levar uma porcentagem sobre os ingressos cobrados na entrada. O palco instalado ao fundo do salão serve de ringue, a cada rodada, para dois MCs armados de rimas para conquistar a platéia, que decide com aplausos e gritos quem é o melhor. No calor da disputa, as ofensas são meras ferramentas de trabalho: os MCs se xingam, desenterram podres do passado, propõem futuros desafios, mas tudo costuma acabar sem mágoas.



- A batalha mais sinistra que eu já vi foi Marechal contra Don Negrone. Os dois se conhecem há anos, tinham muita roupa suja pra lavar. No palco vale tudo. - conta Matias Maximiliano, 23 anos, que há cerca de dois anos reúne material para um documentário sobre o movimento hip hop no Rio de Janeiro. - Esses caras estão ficando grandes, fazendo show por aí. São os melhores do underground. - avalia.



Max B. O., do coletivo paulista Academia Brasileira de Rimas, é o mestre-de-cerimônias convidado a apresentar a finalíssima. Considerado um dos melhores improvisadores de rap do Brasil, sucede na função Jovem Cerebral e Xis, que comandaram as etapas nos fins-de-semana anteriores.



-- São Paulo não tem Liga de MCs! É só aqui! - Max grita ao microfone e a platéia urra de volta. Não se trata de alimentar picuinhas bairristas. Ele explica: se o rap paulista tem mais CDs lançados que o carioca, os rappers cariocas estão menos dispersos por conta dessa iniciativa.



Antes de surgir a Liga dos MCs cariocas, quem gostava de rap no Rio se cruzava na festa Zoeira, pioneira do gênero na Lapa, ou na Freestyle, da Fundição Progresso, organizada pelo coletivo Brutal Crew. O fim de uma e a periodicidade incerta da outra esfriaram o público por um bom tempo, até o surgimento da Batalha do Real. Com dia e lugar certo para conferir os MCs em ação, os fãs de hip hop ganharam um novo ponto de encontro. O sucesso do evento exigiu mais profissionalismo na produção e Brutal Crew, acabou assumindo a organização das batalhas.



- Somos um crew de hip hop: lidamos com a cultura hip hop, produzimos eventos de hip hop, além de músicas e roupas da nossa própria grife - explica César Schwenck, 22 anos, um dos oito integrantes do coletivo que inclui MCs (entre eles Aori), DJs, designers e produtores. O Brutal Crew existe desde 1998 e fincou seu Q.G., o estúdio conhecido como Campo de Concentração, na Lapa.



- Brutal! Só sinistro! Brutal! Brutal! Só sinistro! - Max B. O. arranca da platéia o grito de guerra, já registrado em CD produzido pelo coletivo. É o sinal de que o intervalo pro público dançar ao som do DJ e produtor Cristiano Rafael, terminou. Mais dois rivais sobem ao palco e começam a disputa. Na finalíssima, concorrem os MCs Papo Reto e Slow. Marechal, campeão invicto até esta noite, não aparece para defender seu posto; viajou para fazer um show em Recife, onde já chegou sua fama de rimador. Papo Reto leva o prêmio - R$ 200, uma camiseta da Brutal Crew, mais um DVD e um CD cedidos pela Universal Music.



- É importante ter um lugar onde as pessoas se concentram pra trocar uma idéia e ver quem são os bons MCs. - explica Verônica Nascimento, 22 anos, uma das produtoras. - Com a Batalha, vieram pra Lapa MCs que a gente não conhecia, gente de Ipanema, da Baixada, de Jacarepaguá, de Santa Cruz.



E até de Angola: em uma das primeiras edições da Batalha, um MC angolano acusou os organizadores e o público de xenofobia por sua desclassificação. A crítica não foi levada a sério, uma vez que o MC garantia-se mais em ''Yós!'' sucessivos que nas rimas.

Xenofobia e fronteira na Lapa

Desde então, ''xenofobia'' é usado como uma espécie de gíria sarcástica pelos freqüentadores da casa, representando qualquer tipo de injustiça. Exemplo: colocar mais cerveja no próprio copo que no de um parceiro é xenofobia.


Brincadeiras à parte, as fronteiras entre comunidades, cidades e crews são sempre lembradas por quem sobe ao palco. Marechal vem de Niterói, o Jovem Cerebral representa o Morro da Mineira, e por aí vai. Mas, junto aos seus nomes, falam sempre na Lapa, uma referência de lugar e geração que se revela no grito ''Éle-A-Pê-A''. Ou, como faz o rapper Don Negrone, no improviso: ''Lapa/Q.G. do Brutal Crew/ Isso é hip-hop nacional, amigo/ Isso é Brasil''.



Já há propostas para levar o evento a outros estados. Mas, por enquanto, a Batalha continua na Lapa. Este sábado, dia 4 de outubro, os MCs voltam a guerrear com palavras no Balcão, com ingressos a R$ 1,00, garante a produtora Verônica. Com muito calor humano, já que a casa não tem ar condicionado. Continua tudo chapa quente.


Os bambas

Aori: um dos criadores da Batalha, é conhecido também pelo som que faz com Inumanos, em dupla com o DJ Babão.
Marechal: ex-integrante do Quinto Andar, tem participações no disco do Instituto ( de São Paulo) e de Marcelo D2 (produziu a faixa "Loadeando"); tem um disco em andamento

Don Negrone: indicado ao prêmio Hutús, especializado em rap, este ano, por melhor demo; atualmente, grava Armaggedon, seu primeiro CD

MC Tigrão: parceiro de Emerson Facão na dupla Ciência Rimática, está na coletânea de hip hop Direto do Laboratório, da Trama

Papo Reto: considerado a surpresa da noite, venceu o I Campeonato da Liga, desclassificando Aori

Papo de MC

MC: abreviação de Mestre de Cerimônia, é quem comanda o microfone e a galera em festas e shows; rapper, em geral.

MC Crews: grupos que reúnem MCs, DJs, grafiteiros, produtores de som e de festas, designers, etc.

Freestyle: rap criado de improviso

Digital Dubs: grupo do DJ Dubmaster

Flow: é a levada de cada MC, o fluxo de rimas aliado ao ritmo

Família: quando um MC chama a "família" para ver a Batalha, não é pai-mãe-titia; são os amigos

B-Boys-Girls : dançarinos especializados em street-dance Xenofobia injustiça, preconceito; marmelada ao julgar um mano na Batalha.

Links

Digital Dubs Sound System (coletivo do DJ Cristiano Dubmaster): http://www.esquemageral.com.br

Prêmio Hutus 2003 - http://www.hutus.com.br

Quinto Andar (coletivo de origem de Marechal) - http://planeta.terra.com.br/arte/quintoandar

Real Hip Hop (revista) - www.realhiphop.com.br

escrito às 2:29 AM por Cecilia Giannetti




Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

INFERNINHOS DE DEUS

No Mínimo

"Mãos pra cima, todo mundo, mãos pra cima!..."

Naquele momento eu não sabia, mas esse mesmo comando seria repetido mais tarde na noite de sábado, 22 de outubro de 2005, pelos rappers veteranos do De La Soul; noutra língua, claro, noutro lado do Rio de Janeiro, e com uma diferença fundamental em sua conotação. O Hands up in the air é a maneira como MCs convocam, do palco, a participação do público. O "Mãos pra cima" do DJ Marcelo Araújo é uma maneira de associar uma marca registrada do hip hop - código comum entre quem gosta do estilo em qualquer lugar do mundo - a um gesto que, entre os freqüentadores das festas que promove, representa uma demonstração de fé.

Para quem está sempre nas festas da equipe Gospel Night, fundada por Marcelo, o sinal aproxima uma cultura mundana por excelência à outra, dominada pela Bíblia. O universo dos low-riders grafitados (carros antigos rebaixados), gangstas e cordões de ouro que pesam cinco quilos cruza-se com a austeridade anacrônica do imaginário bíblico com que a igreja evangélica vem moldando gerações há décadas.

Nos clubes noturnos evangélicos, Jesus Cristo é o hype. "Amém ou não amém? Quero ouvir vocês... AMÉM OU NÃO AMÉM?", incita o DJ, saindo de trás da mesa de som. Com o microfone na mão, Marcelo faz as vezes de mestre de cerimônias ao fundo de um imenso galpão na avenida Padre Roser, 224, próximo ao Largo do Bicão, em Irajá. O telão no canto direito do palco mostra cenas do público que dança com as mãos para o alto.

Pioneira do gênero no Rio de Janeiro, a Gospel Night terá sua sede reinaugurada no Irajá Atlético Clube no dia 26 de novembro, agora com dois andares. Enquanto a obra não fica pronta, Marcelo e outros DJs agregados à equipe, como Kiko e W, continuam circulando com festas em diversas igrejas da cidade. Suas noitadas são uma opção para jovens evangélicos que jamais poriam os pés no Castelo das Pedras (templo do funk em Porto das Pedras) nem na Fosfobox (boate em Copacabana).

Andressa Barcellos tem 17 anos, adora as roupas de Alexandre Herchcovitch e, apesar de fã de Caetano Veloso e João Gilberto, considera-se uma "b-girl", título que defende dançando hip hop em bailes na zona norte do Rio. Permite-se algum ecletismo na mistura entre bossa nova e MPB com a música que a inspira a aperfeiçoar passos de break - mas pára por aí. As restrições surgem quando ela escolhe a pista onde vai dançar, o tipo de rapazes com quem trocará olhares debaixo da luz do estrobo e a bebida que vai encher seu copo entre uma música e outra: as boates devem ser evangélicas, os meninos idem e o drinque não pode conter álcool.

A estudante se converteu quando tinha 14 anos, em 2002, na Assembléia de Deus - Ministério Ombro Amigo, no subúrbio carioca de Anchieta. Levada por amigos de fé, virou habitué também dos embalos do DJ Marcelo e de outros.



O pastor de Andressa não é tão liberal quanto os do Projeto Vida Nova. "Ele sabe que eu gosto de festa e tal. Ele não curte muito, diz que é uma maneira que a igreja pode ser confundida com o mundo", explica. Para ela, o que importa é Jesus; e a moça crê contar com a aprovação Dele: "É claro que Ele é alegre e fica feliz quando nos vê dançando e cantando em Sua presença", argumenta. E os movimentos com o corpo, são pecado? "A dança é a oração do corpo! É adoração com gestos! Eu amo hip-hop, isso me ajuda até a saber mais sobre a Palavra. Tem poder evangelístico, sim."

Paquera até rola, mas ela nunca ficou com nenhum garoto numa festa gospel. Por timidez diante do Senhor: "Sei que, além de olhos humanos (como a coodenadoria da igreja, em caso de noite gospel), o mais importante, os olhos de DEUS estão em mim. A todo momento rola a paquera mas a ficada, comigo, nunca! Nem namoro. Desde que me converti, não namorei mais! Ora por mim, irmã, tá brabo! Haha!"

Se persistir o medo de ser observada por Deus enquanto namora, Andressa ao menos pode investir numa paquera mais comportada, virtual, fora da igreja: Encontro Evangélico (http://www.encontroevangelico.com.br) é site de relacionamentos para crentes. Para ver fotos e perfis dos participantes, é preciso preencher, além do cadastro default desses serviços - que inclui nome completo, idade, cidade, altura, peso, cor dos olhos etc - um formulário sobre "atividades religiosas" em que constam perguntas como "Seu comprometimento com o Senhor" e "Dizimista - sim ou não?". Dureza, Andressa: o Senhor te vigiará até lá.

Enquanto o show do FLG não começa, Marcelo segue se dividindo nas funções de DJ e "ministro" da Palavra do Senhor. É como um novo tipo de pastor, com upgrade nas roupas e atitude. repete o bordão "Amém ou não amém?", e solta o que parece ser o começo de "Nothing but a G Thang", clássico de 1993 e único rap que a repórter consegue cantar sem cãimbras na língua, pelo menos até o começo da segunda estrofe. Porém, após a intro, em vez do indefectível "one, two, three and to the four, Snoop Doggy Dog and Dr. Dre 'is' at the door", os vocais não entram, nada acontece, a música fica apenas na base. É o mesmo princípio que segue nos programas que apresenta na Rádio Manchete (veja a programação: http://www.gospelnight.com.br/prog_radio.htm): deixar rolar a base do melhor som e remixa-las com "ministrações".

Compreensível. O Senhor, em Sua Onisciência, não ignora que o mundo criado por Ele, e o mundo do hip hop dentro desse mundo, é cheio de caras que não têm namoradas mas biiiiatchs e hookas; que esses caras descem o braço nas cachorras; que cheiram cocaína com canudos feitos de notas de dólar, entre outros clichês videoclípicos. Mas não é por isso que Ele vai querer ouvir, dentro de Sua própria Casa, o longo relato de Dre. e Snoop sobre o estilo de vida gangsta de Longbeach. Então estamos combinados: a música predominante é hip hop mas as letras passam longe da língua solta dos CDs que ostentam o selo de Parental Advisory: Explicit Lyrics" na capa.

Outra que ataca de versões na rádio Manchete é a apresentadora Lili da Silva. Todos os sábados, na 107,9 FM, às 13h30, uma vinheta anuncia que ela está na área (e tem o selo de aprovação do Projeto Vida Nova): "Oi, Lili! Aqui é o pastor Ezequiel Teixeira! Tô juntinho com o Nóis na Fita! Ligadinho com todo mundo aí", exclama a voz do pastor em gravação feita pelo telefone. Loira, de cabelos cacheados cobertos por um boné preto virado pra trás, é famosa entre crianças e adolescentes evangélicos. Tanto que já lançou um perfume com seu nome/marca, "uma fragrância marcante, com notas cítricas e madeiradas de essência importada, inspirada no CK Be". Os mais exigentes definiriam assim as versões: o pop-chiclete chupado de Britney Spears e transformado em gospel, hit da programação, está para o original internacional como o perfume Lili está para o original da Calvin Klein.

Por volta das 20h, muita gente ainda aguarda do lado de fora, batendo papo numa fila que vai da bilheteria improvisada até a loja de madeiras e compensados, três casas depois da igreja. O evento acontece no templo do Projeto Vida Nova de Irajá, o primeiro das 39 pertencentes ao Apóstolo Ezequiel Teixeira (como se auto-entitula o pastor do Vida Nova). Há mais noutros estados do Brasil e até nos Estados Unidos, em Portugal e na Argentina). Ezequiel ouviu o "chamado" no final dos anos 80. Teria escutado até um coral entoando louvores justamente naquele galpão de Irajá onde antes funcionava a sede de um clube de pagode. Junto com pastores dissidentes da Assembléia de Deus, criou, há dez anos, a "Igreja que tem Cara de Leão", título pintado no letreiro acima da portaria, com a logomarca mostrando o perfil do animal, uma cruz vermelha e branca, e uma chama desenhadas sobre a juba.

Começo a ficar tensa com o horário. Tenho ingressos para De La Soul, MIA e outras tentações mundanas em cartaz na cidade. Olho por cima do mar de cabeças para a cantina da igreja, onde dois funcionários bocejam ao lado de geladeiras cheias de água com gás e refrigerantes. Penso na caipirinha de morango e Absolut servida a preços nada caridosos no lounge do MAM (onde shows começam dali a pouco). Minha lente de contato começa a ressecar com a fumaceira. Gelo seco tudo bem mas desde priscas eras - leia-se na Dr. Smith e noutros inferninhos menos cotados - que não me burrifam essa fumacinha de talco.

Pelo telefone, o DJ W havia me garantido que o show começaria às 19h. Cheguei à igreja na hora marcada, após um ônibus, doze estações de metrô e um táxi. E agora descubro que o quarteto FLG (Feeling), que passou o som antes da entrada do DJ, só entrará às 22h. Eles saem da igreja pela porta principal e entram num ônibus estacionado à frente. Braços tatuados, street wear, grandes cruzes prateadas no pescoço - mais do mesmo que vemos entre um e outro no público. A maioria não ousa na indumentária mas, ainda assim, é muito mais do que se poderia esperar de um culto religioso. Sim, os shows e festas são considerados sessões de louvor. Esta noite, principalmente, por acontecer nas dependências do templo por onde passam, toda semana, dezenas de fiéis. Filas de cadeiras estão empilhadas nas laterais do galpão onde acontecem os cultos menos heterodoxos do Projeto Vida Nova.

(E por falar em heterodoxo: um cartaz na parede anuncia a quarta edição do Halloween Gospel - Noite dos Mortos Vivos. Bem, parece congruente, uma vez que Cristo ressuscitou Lázaro e depois levantou-se Ele mesmo... melhor parar aqui com o ataque de infâmia.)

Ceder o espaço de orações para o hip hop faz parte do conjunto de ações que o pastor Ezequiel Teixeira chama de Evangelismo Estratégico, em que cabe até um bloco carnavalesco, acionado durante o período de maior tentação, o Bloco Cara de Leão.

Vale tudo na guerra por uma alma perdida. DJ Kiko, de 26 anos, não tem dúvidas quanto a isso: "É um jeito de chamar os jovens para ouvir a Palavra de Deus. Se eu chegar assim, na rua, e ficar convidando as pessoas pra igreja, tu acha que elas entram? Não entram. Mas tem gente que passa, ouve um som legal, vê um monte de gente bacana na porta, aí entra e acaba aceitando a Palavra", conclui.

"Abrimos o evento com uma oração, em seguida o DJ começa a tocar as músicas que são alternadas com os clipes no telão", explica Marcelo. "Temos brincadeiras, sorteio de brindes. Depois entra a atração principal." As apresentações têm uma pausa para que seja "ministrada a Palavra de Deus". Após a mensagem, o show continua, seguido por mais um set de Marcelo. No encerramento, será feita uma oração. Calculo que a coisa toda leve ainda umas quatro horas.

Seguranças parrudos circulam pelo galpão, como em qualquer evento de música para adolescentes. De repente, a turma que arriscava uns passinhos em frente ao palco incorpora mais pessoas. Forma-se uma fileira de dançarinos. Pelos cantos do galpão, cerrando os olhos para enxergar através do estrobo e da fumaça, a "prata da casa", os tais coordenadores da igreja. Já vi esse filme.

Como não lembrar de Footlose? Balzacos e gente de vinte-e-muitos-anos em geral reconhecerão o mote do filme protagonizado por Kevin Bacon, reprisado à exaustão nas sessões da tarde em finais dos anos 80: rapaz (Bacon) enfrenta a fé ultra-restritiva de um pastor (John Lithgow) que proibia música e festinhas e considerava seus requebros passos em direção ao mármore dos infernos.

"Cadê o povo de Deus? Mão pra cima quem for de Jesus!", Marcelo segue gritando.

A turma dança direitinho, exibindo calças jeans grafitadas, bonés na cabeça, camisetas de times de basquete americano e tênis all star. A música agora parece ser uma versão clean, em português, de "No scrubs", do TLC. A voz feminina não lamenta a crueldade de homens safados mas evoca a compaixão de "Meu Jesus".

Um quarteto se destaca. São eles quem lideram os passos seguidos pelos outros: Airton de Paulo, 18; Bruno Pereira Machado, 21; Aristotele Arnel, 16; e Samuel de Almeida Sarmento, 20. É o grupo Éfeso de street dance gospel. "Começamos na igreja há quatro anos. Dançar é uma maneira de louvar. A gente atinge as pessoas, quebra a barreira e chega a quem pensa que em igreja só tem música lenta, chata," afirma Samuel.

Na balada de Jesus, a música equivale ao aditivo socializador por excelência. O ritmo basta. É dançando que eles e elas se aproximam, nas coreografias organizadas. É o que ajuda a descontrair - não o álcool, escolha número 1 de quem sai na noite e, pra desinibir, precisa de algo mais além.

Se os chamados cinco elementos do hip hop estão reunidos hoje aqui - MC, DJ, grafite, b-boys (e b-girls) e, de certa forma, consciência - foi depois de enfrentar pastores mais quadrados que o de John Lithgow no filme.

O fórum de discussão da Central Gospel (http://www.centralgospel.com.br/fcg), dá uma idéia da polêmica. Piria Ligeiro é um exemplo da forte oposição que os eventos costumam enfrentar: "Esse tipo de coisa só vem tirar o impacto que o pecado tem em nossas vidas. Boate gospel, carnaval gospel, ficada gospel... Vai me dizer que essa boate não tem cantinho nem escurinho gospel? Daí pro inferno é um pulinho só. Não vou e não aconselho. Quando isso perder o impacto, você vai começar a freqüentar uma boate light, depois outra, depois um motel gospel, uma droguinha light e tal... aí nada passa a ser pecado." O pastor Jeff Fromholz, da Equipe Geração Benjamin (www.geracaobenjamim.com), de Volta Redonda RJ, também condena esta época "em que a igreja se veste, fala, brinca e peca como o mundo." O pastor não está só. O blog "Surf, fé, louvor e boas ondas em Jesus!", do curitibano que se identifica apenas como "Crew Surf", é um exemplo de jovem que execra as naites de Jesus: "Numa boate gospel, o 'chupim espiritual' chega numa garota, joga seu papinho e fica com a guria! Mas não é pecado porque é uma ficada gospel, num ambiente gospel."

"Não estou com a Gospel Night desde o começo, em Jacarepaguá (1998), mas já acompanhava de fora e sei que não foi fácil", conta DJ Kiko.

"AMÉM OU NÃO AMÉM?!", Marcelo parece adivinhar a gratidão do amigo que dá entrevista fora do palco.

Assim como a Gospel Night, equipes de sonorização especializadas como a Equipe Gospel Tracker crescem junto com o nicho de mercado. Mas alguns novatos, considerados "bifões" - termo que usa para designar os DJs que "só pensam em embolsar o dele primeiro", geram desconfiança. "A Palavra de Deus não interessa pra eles. A Gospel Night é diferente. Somos um ministério. Somos DJs que vivem a Palavra de Deus e levamos a Palavra de Deus. O que eu sou hoje, é porque cresci junto com a Gospel Night, com o Marcelo Araújo", afirma Kiko.

Na web, o negócio também prospera. Multiplicam-se os sites especializados em divulgar naites estritamente para crentes, como Os Karas (www.oskaras.com.br) e o SuperGospel (www.supergospel.com.br). E, para o crente nerd - que gosta de Jesus mas não dispensa um programa de troca de MP3 p2p (peer to peer) - existe o ZPoc (http://www.zpoc.com). "O diferencial do Zpoc para os outros programas de compartilhamento é que ele tem a essência cristã, pois seus operadores e criadores são todos cristãos. Não são disponibilizadas no sistema músicas não-cristãs", explica a homepage do produto. Mas há outra diferença crucial. É preciso pagar pelas músicas: "Os artistas e bandas trabalham duro o ano todo e necessitam do nosso apoio para poder continuar com o ministério que lhes cabe. Use o ZPoC para conhecer novas bandas e divulgá-las, mas comprem os CDs e ajudem nossos irmãos no ministério."

Na "Graça e Paz da parte do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo", a Cara de Leão Promocional - Produtora e Distribuidora do Projeto Vida Nova - comercializa por televendas e também na internet cerca de 47 produtos, entre livros, revistas e vídeos que custam de R$ 7,00 a R$ 18,00, mais R$ 5,00 de frete. Esses são produtos comuns da igreja evangélica. A veia hip hop e pop movimenta outras empresas para se posicionar no mercado. No caso do que se apresenta esta noite, o FLG, e de outros como Lynk 4, Wand B, Lael e Blackness Boyz, é a AW Produções quem cuida de tudo. O banner colocado à esquerda do palco anuncia um serviço que associa assessoria de imprensa, gerenciamento musical, distribuição, criação de peças publicitárias e, claro, organização de eventos como este em igrejas evangélicas em diferentes estados do Brasil. "É um novo conceito de música gospel", define a assessoria da produtora, responsável pela maior parte dos grupos do gênero, vindos de São Paulo.

No Rio de Janeiro, o grupo que pode ser considerado precursor em hip hop evangélico já conta dez anos de estrada: o ´REP` (Radicalizando, Evangelizando, Politizando), formado por OSK e DJ W. Cconhecidos pelo hit gospel "Mão Pra Cima" e pelas festas Gospel Beat (www.gospelbeat.com.br), definem-se como "um ministério formado por um grupo de loucos com um sonho." O DJ W explica sua ausência do circuito desde agosto: "Estamos nos concentrando no nosso disco agora, sem fazer muitos shows. No comecinho do ano que vem, quando lançarmos, voltamos com toda força. Na paz!" A história dos rappers começa em 1994, na primeira Igreja Batista de Vila da Penha: a idéia, então, era usar o rap para conscientizar jovens infratores do Instituto Padre Severino, localizado em Quintino (zona norte). Eles são os precursores do estilo no Rio, investindo na pegada hip-hop.

Não é o caso do FLG. Nitidamente, os garotos de Osasco são uma boy band de rhythm & blues bem diluído. Assim que eles aparecem no palco, meu santo canta pra subir: fujo pro MAM. Pecado seria desperdiçar os ingressos.

escrito às 12:31 PM por Cecilia Giannetti




Sábado, Janeiro 28, 2006

Tudo pela fama

'Divina comédia da fama', do jornalista Xico Sá, relata purgatório, paraíso e inferno de quem deseja esquecer 'o gosto de jiló do anonimato'
Cecilia Giannetti

Xico Sá andou pensando um bocado sobre fama. Não a que conheceu ao receber os prêmios Esso, Grupo Folha e Abril de jornalismo ou ao fazer reportagens-denúncia, como a série sobre PC Farias, em 1993. O tipo de fama que prende sua atenção é mais espalhafatoso: desde o embrião, quando é apenas um sonho na cabecinha-de-vento de alguma darlene, até o momento em que os flashes finalmente espocam e pululam notinhas em colunas sociais, o espetáculo inteiro lhe interessa.

Foi esse universo que usou como base para escrever Divina comédia da fama, que a editora Objetiva lança no próximo dia 24 em São Paulo e no começo de junho, no Rio de Janeiro. Inspirando-se na estrutura da Divina comédia, de Dante Alighieri, o jornalista cearense apontou sua verve investigativa para o umbigo da sociedade e saiu com uma bem-humorada crônica sobre os (des)caminhos das celebridades e dos muitos candidatos à fama.

Começando pelo senso comum, Xico concorda em que os atributos exigidos para concorrer a um posto no paraíso dos famosos são bem poucos: atualmente, uma derrière construída em academia basta.

- A bunda é a metonímia da fama, aquela história da parte pelo todo. Há mulheres cujas bundas ficaram mais famosas que elas próprias - explica Xico, 41 anos, que já se aventurara na crítica de costumes com Modos de macho & modinhas de fêmea (2003, Editora Objetiva), sobre a guerra dos sexos.

Comédia inclui diversos graus de disparates cometidos pelos fanáticos pela fama. Gente disposta a tudo por um naco de espaço na mídia aparece representada por tipos como a sósia brasileira de Demi Moore que, sem conseguir emplacar uma foto para divulgar sua peça caça-níqueis (feita no rastro do longa Striptease, com a atriz americana) , ofereceu dinheiro e, diante de nova recusa, ofereceu sexo; o professor de filosofia paulistano que ganhou alguma notoriedade ao participar da versão gay do programa Fica comigo, da MTV, e procura mantê-la freqüentando todas as festas de São Paulo e almoços cariocas; o ilusionista nova-iorquino David Blaine, que passou 44 dias exibindo-se dentro de uma caixa de blindex pendurada sobre o Tâmisa, em Londres, enquanto jejuava (acabou internado à força).

São muitas as trajetórias de tentativas, erros e acertos reunidas pelo jornalista. O ponto de partida de todas elas é o purgatório, onde começamos a acompanhar a história da protagonista que, curiosamente, não tem nome. Ela ainda sente ''o gosto do jiló do anonimato na boca'' e batalha pelos primeiros convites para festas e lançamentos de qualquer coisa:

''Você faz o quê - o fotógrafo pergunta. (...) Disse que seria hostess de uma boate fina que abriria dali a um, dois meses. Pegou bem. Também disse que tinha sido DJ (...) tudo muito verossímil. DJ também é função moderníssima'' - escreve Xico.

Os capítulos são pontuados por frases sobre a fama proferidas por celebridades de todos os tempos, de Oscar Wilde a Michael Jackson. O narrador alterna o tom cruel com o solidário e não sonega informações sobre a trilha do sucesso, dialogando com a consciência da ambiciosa personagem sobre seus desvios e atalhos. Mas garante: não quis dizer, com a escolha, que só mulher cai na armadilha de perseguir a vã notoriedade.

- Escolhi uma mulher como personagem porque o sexo feminino, até na hora em que perde, tem mais capacidade de auto-ironia que o homem. Homem é chato.

E foram justamente duas mulheres que sugeriram a ele fazer o livro: a editora Isa Pessoa e a artista plástica Pinky Weiner, que certa vez saíram de um almoço em um restaurante apinhado de celebridades e logo pensaram em Xico para cronista do mundinho.

- Elas pensaram em mim porque eu circulo tanto no boteco quanto na festa chique. Observei esse universo nas mesas de bares do Baixo Gávea, nas madrugadas na Pizzaria Guanabara, no Leblon. Por outro lado, numa festa, você vai na varanda e o elenco da novela das seis está todo lá, na sala está a novela das sete, na cozinha a novela das oito.

Para ver de perto o paraíso dos famosos, Xico passou a circular de orelha em pé e olhos bem abertos pelas festas mais badaladas do eixo Rio-São Paulo, escoltado por amigos do métier, ou descolando convites pelas vias tradicionais: as assessorias de imprensa. Nem sempre, no entanto, conseguia acesso total ao objeto de sua pesquisa. Ele não estava na Ilha de Caras, por exemplo, quando os ex-BBB (na definição da personagem, um ''bando de deseducados. Só sabem malhar e comer'') bateram palmas para um faqueiro para aparecer na foto com a legenda: ''artistas aplaudem faqueiro de Caras''. Mas procurou fontes alternativas para conhecer a rotina do local cobiçado pelos aspirantes ao estrelato.

- Não me deixaram entrar na Ilha mas eu falei com o povo todo dos bastidores: cozinheiro, garçom, cabeleireiro, colunista... - revela.

- É como um estúdio, é tudo muito fantasioso. Tem aquele marzão de Angra mas também tem mosquito à beça, e mosquito sabe quem está desprotegido de fama: quem é calouro na Ilha sempre acaba mais picado porque não sabe que tem que levar repelente.

A mobilidade era maior em terra firme, no Rio de Janeiro, onde os agitos reunindo o elenco de novelas são comuns graças à presença da TV Globo na cidade. A mulher, Antonia, que trabalha como pesquisadora de texto para a emissora, também ajudou:

- Ela é quase co-autora do livro. Toda vez que eu faltava a alguma festa de novela, Antonia ia. Quando chegava em casa, eu a ''entrevistava''.

Foram cerca de oito meses ouvindo conversas noite adentro, entre colunistas, jornalistas, assessores e fofoqueiros de plantão. Trabalho de insider, que pedia discrição. O que, no mundo do espetáculo, significa divertir-se à beça - como um autêntico famoso, é claro, para que ninguém note o intruso.

- Acabava até me esquecendo o que tinha ido fazer lá. Às vezes eu precisava recorrer a outra apuração, ''pós-alcoólica'', para juntar as histórias - ri.

- Mas sempre acontecia algo que me fazia lembrar o trabalho. Imagina: eu ia no banheiro e de repente aparecia o Renato Mendes (personagem de Fábio Assunção na novela Celebridade) para fazer xixi também. Isso me fazia voltar imediatamente pro livro.

De tanto olhar, ele já aposta quem cairá no esquecimento e quem fará sucesso até no Vale a pena ver de novo daqui a dez anos:

- A Malu Mader é um exemplo bom, tem fama muito consistente, está impregnada no imaginário brasileiro. Vai ter vida longa como celebridade - avalia, lembrando a ocasião em que viu como a atriz foi recebida à porta de uma recepção nababesca.

O brilho efêmero

- Vários famosos passavam pelo povo que juntou na rua pra vê-los, mas só Malu levantou a galera. Roberto Carlos é indiscutível, tem sobrevida na memória - avalia Xico Sá.

Em São Paulo, as celebridades podem ser um pouco diferentes das avistadas em solo carioca: longe dos estúdios de gravação globais, o mais comum mesmo é que empresários, hostesses de boate e VJs da MTV causem frisson:

- O Johnny Luxo (VJ) é a Malu Mader dos paulistas - avalia Xico.

No paraíso descrito no livro, todos parecem ter a sigla vip - very important person (pessoa muito importante) - tatuada na testa. O que não quer dizer que ela ficará lá para sempre: de repente, podem virar outro tipo de vip - very invisible person (pessoa muito invisível, ignorada por todos). A última parte de Divina comédia da fama é dedicada ao inferno, à queda de quem já foi célebre de volta ao anonimato.

Na descida às labaredas, a mesma pessoa que antes atraía os cliques dos fotógrafos passa a ser desprezada pelo mesmo maître que a paparicava, pelos fãs e flanelinhas que pediam autógrafo, pelas assessoras de imprensa que a assediavam. Mas há maneiras de voltar a brilhar, mesmo que por pouco tempo.

- Hoje, arrumar o nariz no cirurgião plástico tem a mesma importância que fazer uma novela. Rende foto, fofoca.

O livro é permeado por segredinhos como esse, que os mais hypados (do glossário: hype = badalação do momento, em voga) preferem não compartilhar. E se isso fizer do livro um manual para o brilho efêmero?

- Pode levar alguém a desistir da fama ou a achar que não é tão infernal assim tentar - conclui Xico, que dedica o livro a José Costa, o ghost-writer do romance Budapeste, de Chico Buarque: ''que nunca careceu pisar em chão de estrelas''.

Os aliados dos candidatos à fama

Quem almeja chegar ao paraíso depende de uma infinidade de acessórios e profissionais para começar a sair do purgatório. Veja alguns deles, pinçados da Divina comédia da fama:

Agente - Alavanca novos contratos, participações em programas de TV, shows etc. Fica com cerca de 10% do valor dos cachês. Quando puder, arranje também outro ''a'' importante: o assessor de imprensa, para administrar na mídia a imagem que o agente alavancou.

Biografia - A do aspirante à fama precisa ter toques de drama e ser verossímil. Fãs adoram uma infância difícil.

Cabeleireiro - Ditam tendências, são grandes amigos e podem ter status de famosos. Exemplo: Dudu Meckelburg.

Cirurgião plástico - Ivo Pitanguy é um ícone: transcendeu o bisturi e ganhou cadeira na Academia Brasileira de Letras, onde realiza cortes epistemológicos.

Diretor/ autor de novela - Profissionais do naipe de Dênis Carvalho e Gilberto Braga estão na mira dos que desejam recuperar a fama perdida.

Fã - Não esqueça: tudo começa com ele.

Guru - Não interessa a linha espiritual, é preciso um palpiteiro esotérico.

Personal - Stylist (moda), trainer (boa forma), dieter (idem). Sem grana para esses três, apele para o quarto ''p'': photoshop.

Semancol - É preciso saber quando está sendo ''mala'' e over.

Teste do sofá - Muita gente do meio ainda mantém a prática e a expressão criada em tempos imemoriais, pré-TV.

Ver e ser visto - Aparecer e prestigiar a aparição do outro para dar continuidade ao frisson. É a peça-mor de toda a engrenagem.



escrito às 1:04 PM por Cecilia Giannetti




Terça-feira, Outubro 25, 2005

A ditadura disfarçada

José Saramago analisa as armadilhas da democracia em novo romance e diz que não é pessimista: 'O mundo é que é péssimo'

Cecilia Giannetti

José Saramago tinha pela frente seu 11º romance mas não podia vê-lo. Nada de extraordinário - isso já lhe acontecera com Ensaio sobre a cegueira, de 1995, quando enxergou o título antes mesmo que tivesse uma história, conforme explicou em entrevista por e-mail ao Jornal do Brasil:

- O processo gerador (mas não consciente) foi semelhante nos dois casos. As idéias surgiram-me subitamente, quase que apetece dizer vindas do nada, e logo no instante seguinte os títulos apareceram como por uma espécie de mecanismo automático: já tens a idéia, agora dou-te o título. Depois só há que imaginar a história e construir o livro...

A simplicidade da explicação faz parecer inútil qualquer tentativa de teorização sobre sua obra ou a literatura em geral. A maneira como descreve o processo criativo de Ensaio sobre a lucidez, que a Companhia das Letras lança esta semana, faz pensar no escritor como um cego guiado por um labrador enredo adentro, até que encontre o livro. Que a comparação não sirva para insinuar irresponsabilidade do autor para com a obra: é mais uma pista de que ainda vale como fórmula na sua literatura o velho mote que ele continua oferecendo como conselho literário a quem o peça: ''Começar pela imaginação e a partir daí deixar que a razão predomine''.

Falando sobre o novo romance, o escritor português de 82 anos, abordou democracia, comunismo e até a atuação do governo Lula. O sistema democrático é tema do livro, que tem pontos em comum com o universo de Ensaio sobre a cegueira:

- Quando terminei o Ensaio sobre a cegueira, nem sequer como remota possibilidade se me apresentava a hipótese de lhe dar continuação. Aliás, o Ensaio sobre a lucidez não é, em rigor, uma continuação da Cegueira. É quando já levo muito adiantada a escrita da Lucidez que ''compreendo'' que a cidade é a mesma (de Ensaio sobre a cegueira), que as personagens da primeira história, embora não todas, devem passar para a segunda - esclarece.

Uma das personagens recorrentes é a mulher do médico que, no livro anterior, havia sido a única a escapar da espécie de surto de cegueira que varrera uma cidade não identificada pelo autor, que também não dá nomes próprios aos tipos que cruzam as duas histórias. A mulher do médico ressurge carregando uma possível ligação entre a anterior cegueira coletiva e o que os políticos de Ensaio sobre a lucidez denominam Insurreição dos Brancosos.

A insurreição corresponde a uma eleição cujo primeiro escrutínio resulta em 70% de votos em branco, e o segundo (uma tentativa desesperada do governo para reverter a situação) em 83% de votos em branco. Institui-se o estado de sítio na capital, que é transferida para outra cidade, junto com o presidente e deputados em debandada. O voto em branco, ''um febrão que se estava incubando'', é considerado nocivo ao regime e, com a Constituição suspensa, suas engrenagens devem ser investigadas e solapadas. São presos para averiguação no Ministério 50 cidadãos e cerca de 500 outros são levados a unidades investigadoras, ''enquanto uns ainda eram livres de entrar e sair de suas casas, e, esquivos, escorregadios como enguias, tanto apareciam como desapareciam''. As perseguições, prisões e desaparecimentos remetem a procedimentos comuns a regimes ditatoriais e o governo diz agir em nome da democracia contra um ato que considera ameaça ao regime. Para Saramago, a ditadura ''disfarçada'' não é mais difícil de ser combatida que a ditadura declarada:

- O que as ditaduras brandas aprenderam, disfarçando-se de democracia, foi a arte de fazer das suas vítimas cúmplices. Se protestas, dizem-te logo que não és democrata, que estás contra a democracia. Meios de resistir? Puxemos pela cabeça, para alguma coisa nos há-de ela servir.

''É regra invariável do poder que, às cabeças, o melhor será cortá-las antes que comecem a pensar'', vaticina o narrador, ambientando o leitor no cenário que em muito lembra o terror às cegas de Ensaio sobre a cegueira. O polígrafo (detector de mentiras) é utilizado por agentes do governo para descobrir os que haviam votado em branco.

- O governo (...) entra em pânico porque percebe que o voto em branco põe em causa todo o sistema. Mas o voto em branco é absolutamente democrático, não põe em causa a democracia, aplica-a - avalia Saramago.

Primeiro comunista a ganhar um prêmio Nobel (de Literatura, em 1998), o autor questiona no romance um sistema capaz de voltar-se contra o povo sem que este tenha infringido qualquer lei.

- A democracia é assim como Deus, fala-se muito dele, mas ninguém sabe onde está - critica o autor.

Quando uma bomba real explode na estação central do metrô da capital, toda a imprensa atribui o atentado terrorista aos ''brancosos'': ''Com a liberdade de expressão e comunicação condicionadas, com a censura a olhar por cima do ombro do redator, estava encontrada a melhor das desculpas'', diz o narrador sobre a postura da imprensa.

O presidente da Câmara da capital abre mão do cargo após entender que os mandantes do atentado são membros do governo, entre eles, o ministro do Interior, que avisa que, com a demissão, ''se arrependerá amargamente, ou nem terá tempo para arrepender-se, se não guardar sobre este assunto um silêncio absoluto''. O presidente da República, por sua vez, demonstra-se acuado e dividido, como se não tivesse poder decidir para contornar os rumos trágicos que a situação vai tomando: ''O maior erro da minha vida como político foi permitir que me sentassem nesta cadeira, não percebi a tempo que os braços dela têm algemas'', diz a personagem.

O cenário descrito por Saramago é desolador, mas o autor não crê que tenha exagerado nas tintas:

- Eu não sou pessimista, o mundo é que é péssimo. Encaremos os fatos e decidamos que papel queremos desempenhar na tragédia do mundo. Os meus brancosos fizeram o que estava ao seu alcance. Triunfaram? Duvido. Como igualmente não triunfaram as personagens da ''Caverna''. Mudaram de sítio, simplesmente, não mudaram o sistema.

Segundo Saramago, Ensaio sobre a Lucidez é uma sátira que acaba em tragédia:

- Não devemos estranhar, é o que acontece na vida. Eu sou apenas um escritor, escrevo livros para explicar o que penso. Se esses livros têm leitores, cabe-lhes a eles dizer o que pensam do que pensei. E se isso os levar a uma ação tendente a mudar ''a realidade que temos hoje'', poderão ter a certeza de que me encontrarão lá.

escrito às 12:18 PM por Cecilia Giannetti




Leitura distante

MEC decide suspender edital de definição dos livros infantis que seriam distribuídos em 2005 a alunos da rede pública, alegando que é preciso avaliar se obras estão sendo realmente lidas

Cecilia Giannetti

A formação de um leitor pode começar num dia de chuva em que não há nada de bom na TV, ninguém para brincar na rua e se é jovem o suficiente para transformar a primeira incursão às prateleiras de livros de casa numa paixão para toda a vida. Às vezes, não é preciso chuva nem falta de opções de lazer, mas um elemento, certamente, é indispensável para que essa paixão comece: o livro. O Ministério da Educação, no entanto, acredita que os títulos distribuídos à rede de ensino público por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) podem estar apenas juntando poeira na casa dos alunos. Por essa razão, suspendeu o lançamento do edital do PNBE, que aconteceria este mês, para a escolha dos títulos não-didáticos a serem distribuídos em 2005.

Sob a coordenação da Secretaria de Educação Fundamental (SEF, que tratava da seleção dos livros desde o surgimento do Programa, em 1998) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE, responsável pela aquisição e distribuição das obras), só em 2003 o PNBE atendeu mais de 20 mil escolas, em todo o Brasil, através de ações como a Biblioteca do Professor e a Biblioteca Escolar. Pelo programa, cada escola recebeu 144 títulos, e cada aluno pôde levar para casa cinco livros. Iniciado com apenas seis editoras, que faziam edições especiais para o MEC, o projeto passara a contar com 24.

Diretora do Departamento de Política de Educação Infantil e do Ensino Fundamental, do MEC, Jeanete Beauchamp garante que a suspensão do edital não decreta o fim definitivo do Programa.

- Ainda há uma remessa de livros em Brasília para ser distribuída até julho deste ano (comprada em dezembro de 2003, chegou em março a Brasília). O edital foi suspenso porque nossa idéia é efetivar um projeto de orientação de leitura junto com a distribuição, para que o aluno se torne efetivamente um leitor - explica.

Elizabeth D'Angelo Serra, secretária geral da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, participou do processo de seleção de títulos distribuídos e acredita que a medida é um retrocesso.

- Viabilizar aos alunos da rede pública a criação de uma biblioteca particular é essencial. Grande parte dos brasileiros não tem dinheiro para comprar livros. O acesso à literatura em casa é o que dá base à criação de leitores.

escrito às 12:14 PM por Cecilia Giannetti




Prazer proibido

Cecilia Giannetti

Indústria do disco lança novo ataque à troca de músicas pela internet, uma prática que até gravadoras começam a defender

- A música vai ficar cada vez mais forte na internet, não tem barreira de conexão lenta que possa impedir. O que chamam de pirataria online é o que a galera sempre fez antes, em fitinhas cassete.

Quem constata é Carlos Eduardo Miranda, diretor artístico da gravadora Trama, justo quando a indústria fonográfica trava mais uma batalha brancaleônica na guerra contra a troca de arquivos de música na web. De todos os P2P (peer-to-peer, programas de compartilhamento de arquivos) como o SoulSeek, Grotzker, Gnutella, LimeWire, Piolet, etc., escolheu-se para alvo da vez o Kazaa, que concentra mais de quatro milhões de usuários conectados a qualquer hora em sua rede, compartilhando músicas em formato MP3.

Na última semana, sob o comando das gravadoras Universal Music, Festival Mushroom Records, EMI, Sony, Warner e BMG, a Music Industry Piracy Investigations (MIPI, uma espécie de polícia anti-pirataria online) vasculhou computadores em três universidades na Austrália, além de provedores de internet, e até micros de uso pessoal, atrás de evidências de pirataria online promovida pelo Kazaa. Mas por quê investigar logo na terra dos cangurus?

Uma razão especial para isso é que é impossível rastrear todos os internautas, do mundo inteiro, que baixam músicas pelo software. A idéia então é investir contra a proprietária do Kazaa, a Sharman Networks, cuja base fica justamente em Sydney, capital australiana. Lá, a equipe do MIPI chegou a investigar computadores nas residências de dois executivos da empresa, à procura de algo que incriminasse a companhia. Mas a medida pode dar em nada:

- A Sharman Networks já está movendo uma ação para cortar esses procedimentos da MIPI e o juiz deve decidir sobre isso no dia 20 de fevereiro. A questão é: o Kazaa não possui um servidor central, portanto eles não podem provar nada contra nós - garante por telefone o porta-voz da Sharman Networks, Richard Cherlena.

O fato de não ter servidor centralizado dá larga vantagem ao Kazaa em relação, por exemplo, ao Napster, o software caçado anteriormente, num caso que representou, em 2001, um divisor de águas tanto para a indústria do disco quanto para os fãs de MP3. O Napster dependia de um banco de dados para listar todas as músicas disponíveis para download e as máquinas que as compartilhavam. A rede de usuários construída em torno do software desagregou-se quando a justiça obrigou o Napster a fechar seu servidor central, fazendo desaparecer com ele a conexão com os usuários.

Foi só uma questão de tempo até que novos programas, como o Kazaa, se popularizassem, valendo-se do trecho da lei de direitos autorais norte-americana que concede permissão para que se compartilhe música entre amigos. E até, prova em contrário, na rede são todos amigos.

- Do meu ponto de vista, eu estou trocando músicas com um amigo distante. Se for pirataria, que seja... É o preço que vão pagar enquanto o CD continuar caro desse jeito - diz o ator e músico Eduardo Caldas, 19 anos. Ele pega entre 12 e 14 arquivos de MP3 na web a cada vez que utiliza um software para baixar músicas, o que faz quase diariamente.

Gravadora prefere relaxar e... conectar

Eduardo tem conexão veloz e, além do Kazaa, é usuário do Soulseek e do E-mule (para filmes). Seu pai, o músico e produtor Robertinho do Recife, acha que o rapaz perde tempo na internet:

- MP3 é um formato compactado, a maioria vem em oito bits... Isso é quase metade da qualidade de CD e a reprodução da música fica comprometida. Só serve pra quem não liga pra qualidade do som. Pra mim, nem de graça, ainda mais pagando. Quem acha que CD tá caro é que nunca viu como é produzido um disco, a quantidade de gente e trabalho envolvida na produção.

Independentemente dos bits, a realidade de Eduardo é a mesma de grande parte dos fãs de música no mundo inteiro, mesmo dos que não dispõem de conexão banda larga. Para gerações integradas com esta tecnologia, basta digitar o nome de um álbum, das faixas e até de filmes ou seriados de TV que tudo chega diretamente ao seu computador pela internet.

- Gosto de futucar os arquivos das pessoas e sortear coisas dali pra downloadear... é igual a ver CDs na casa de amigos e pedir alguns emprestados - explica Ney Frota, analista de sistemas de 33 anos. Miranda, da Trama, acredita que o hábito, que hoje passa por faixas etárias diferentes de consumidores de música, como Eduardo e Ney, não só é irreversível, mas é uma espécie de evolução de uma antiga mania de gente que gosta de som:

- O que chamam de pirataria online é o que a galera sempre fez antes, através de fitas cassete. Eu não chamaria de pirataria a troca de arquivo, é meramente cultural, é o que está fazendo a revolução na música. Cada vez mais o público está mandando, tem mais força sua opinião. Isso balança um sistema que já estava desgastado - conclui.

A estratégia da Trama é relaxar e... conectar: em setembro de 2003, por exemplo, a Trama fez blitze diárias por programas de compartilhamento de arquivos na web e deu brindes para quem era pego trocando MP3s da música Amor errado, de Fernanda Porto, que podia ser baixada no site da gravadora. Foram distribuídos CDs, bolsas e, no final da promoção, um MP3 Player. Em outubro, para preparar o terreno para o novo CD de Otto, foi lançado um single virtual da faixa Tente entender no iMúsica (www.imusica.com.br) antes mesmo de o álbum Sem gravidade sair. Aí não era de graça: a faixa custava R$ 0,99. Mas quem comprasse levava outra música, Avisa Gil, a capa para imprimir e wallpaper do cantor para o micro.

- Estamos vivendo algo parecido à época em que se vendiam e lançavam antes os singles pra depois lançar o disco inteiro. Uma música em MP3 pode ajudar a divulgar o artista do mesmo jeito - continua Miranda:

- Quem tem dinheiro e interesse por música, vai comprar, não importa o suporte físico.

No entanto, nem todos estão dispostos a adotar este método, por considerarem que já pagam um valor alto para estar conectados à internet:

- Comprar música na rede por $1 cada é super caro! Eu tenho que ter o computador, o HD, internet rápida e tudo isso já é caro. E se eu perder os dados do meu computador (o que é fácil), vou ter que baixar e pagar tudo de novo? - protesta o analista Ney.

Bandas usam MP3 como meio de atrair os fãs

Nem todos os empresários da música concordam com a estratégia da Trama. Para o vice-presidente do iMúsica, Cláudio Campos, os programas peer-to-peer não servem como divulgação. Parceiro da Trama e de mais 70 selos e gravadoras, entre elas duas multinacionais (BMG e EMI), o iMúsica funciona como uma espécie de ITunes (sistema de venda de música digital da Apple) brasileiro, vendendo aqui faixas a R$ 0,99 cada.

- Dizem que programas como o Napster fizeram com que as pessoas entendessem o que é musica digital, sem que as gravadoras gastassem um centavo com isso. Mas isso desvalorizou a música - alerta Cláudio, 38 anos, ex-jornalista da revista Bizz e desde os 19 trabalhando no mercado fonográfico.

Ele também vê problemas de segurança:

- Ao compartilhar a máquina com outras pessoas, você cria um problema de segurança: o MyDoom passava pelo Kazaa - acusa, a respeito do vírus que também é transmitido por e-mail.

O diretor artístico da Universal Music no Brasil, Max Pierre, acha que o site iTunes, da Apple, seria uma saída:

- Até agora, mais de 50 milhões de músicas foram vendidas - exagera. Pierre é categórico contra a troca gratuita de MP3:

- A Universal é uma multinacional com normas que proíbem difusão de músicas através de serviços como o Kazaa - adverte.

Para os DJs, o p2p é ferramenta de trabalho. Edinho (Bunker) e Jesse Marmo (Casa da Matriz), não podem perder o passo e deixar de tocar o que rola nas pistas lá fora.

- Baixo música da internet, sim... mas não copio pra ninguém. Uso pro meu trabalho - conta Edinho, 41 anos.

Jesse, por sua vez, acha que no Brasil o MP3 não pode ser sinônimo de pirataria:

- Ou alguém ainda acha que camelô que vende três CDs piratas por R$ 10 sobrevive às custas de MP3 baixados na rede? - zomba Jesse, de 30 anos.

- Eu uso MP3 para poder tocar artistas que não são lançados no Brasil (comprar importado, por causa do preço, está fora de cogitação), músicas antigas fora de catálogo, versões remix que só são achadas na rede mesmo.

Mas ele garante que a tecnologia não o afastou das lojas:

- Sempre que tenho dinheiro sobrando e alguma loja de departamentos coopera com os precinhos, compro CDs.

Maurício Valladares, que comanda há mais de dez anos a festa Ronca Ronca, não se considera grande usuário de tecnologias para música na web mas entende o MP3 como ''uma ficha que vai cair na marra'':

- Não sei o que vai ter que acontecer pra que as pessoas se toquem de que isso é um atalho pra indústria. Não tenho conexão rápida, não consigo baixar música no computador, mas apóio tudo isso aí - diz o DJ, que no site do programa de rádio/festa www.roncaronca.com.br terá em breve coletâneas criadas por ele mesmo.

Entre as iniciativas que exploram o potencial econômico do MP3, há as que trabalham com a fidelização do público a um artista ou banda. O inglês David Bowie deu um exemplo bem sucedido com a sua BowieNet (http://www.davidbowie.com), onde fornece conteúdo exclusivo aos fãs por $64.99 anuais. No Brasil, os cariocas Los Hermanos saíram na frente com o Clube Hermanos (http://loshermanos.dh.com.br/clube/DefaultLogin.asp), com três planos, variando entre R$ 9,90 e R$ 89, para dar aos associados desde adesivos e acesso a chats com a banda até bootlegs e ingressos para shows. O tecladista Rodrigo Medina, o mais ''conectado'' do grupo, diz que há vantagem para todos no negócio:

- Os fãs ganham conteúdos específicos, a banda estreita a relação com os fãs e fortalece a própria imagem e a gravadora tem o trabalho de divulgação da banda facilitado.

Webmaster do site, Marcos Sketch, 23, afirma que mais da metade dos 9000 cadastrados entraram para o Clube.

- Já chegaram pedidos como ''quero passar um dia com vocês'' e ''faça uma música sobre mim'' - diz.

escrito às 12:05 PM por Cecilia Giannetti




A novela da novela

Uma intriga de folhetim acontece nos bastidores de 'MetAMORphoses', nova produção da Record que mistura ficção e 'reality-show' médico

Cirurgias plásticas, troca de identidade, a Yakusa, lutadores de K-1 e um time de autores que discorda dos rumos da trama ditados por Charlotte Karowski, uma poderosa ghost-writer. Estes são alguns dos ingredientes envolvidos na história que vem movimentando o mundo noveleiro e pode significar a abertura de uma nova via de produção de teledramaturgia no Brasil. Com sinopse polêmica e bastidores agitados, MetAMORphoses (o nome é esse mesmo, com ph e letras maiúsculas no meio) reativa o núcleo de novelas da Rede Record a partir de março, adicionando doses generosas de realidade à ficção.

Um exemplo dessa mescla é o destino da atriz Tallyta Cardoso, 26 anos, na trama. Em MetAMORphoses, ela se chama Tallyta Cardoso, é atriz e vai se submeter a duas cirurgias plásticas - pra valer. As operações verdadeiras nos seios e nariz serão feitas no mesmo dia, diante das câmeras, e depois editadas e combinadas a imagens de estúdio. Na ficção, a médica é Luciane Adami (que fez sucesso em Pantanal); na vida real, quem vai mexer nos traços da atriz/personagem é um médico, cuja identidade Tallyta prefere não revelar.

- É como misturar um reality show na novela - define Tallyta, que é filha do antigo galã da pornochanchada David Cardoso. O irmão de Tallyta, David Jr., que participou de A Noite das Taras II (1982) e Tentação na cama (1984) ao lado do pai, também tem um papel na novela: um personal trainer namorador que, segundo Tallyta, será amante da dona da clínica.

Nas primeiras versões da história, constavam czares russos e um mistério envolvendo mísseis. Em tramas paralelas, estão previstos um roubo de jóias raras e muita ação com K-1 (modalidade de luta que é febre no Japão) e a máfia japonesa, sob a direção de Tizuka Yamasaki.

E quem está escrevendo tal miscelânea? Nos últimos dias, a pergunta virou uma espécie de ''Quem matou Odette Roitman'' nas revistas e colunas de fofoca. Desde novembro de 2003, dois autores de novela consagrados e dois colaboradores já abandonaram o barco, todos alegando divergências com a Casablanca Service Provider, um dos maiores grupos sul-americanos de finalização em vídeo, responsável pela produção da novela. Por trás do vai-e-vem de sinopses está a francesa Arlette Siaretta. Dona da Casablanca, ela meteu o bisturi no texto e mantém suas idéias acima das invenções dos escritores.

Co-autor de sucessos como Mandala e Vale Tudo, o presidente da ARTV (Associação de Roteiristas de Televisão, Cinema e outras Mídias), Marcílio Moraes, foi o primeiro a tentar criar a trama de acordo com as exigências de Arlette.

- Ficou claro que tínhamos concepções muito diferentes sobre o trabalho e resolvemos, de comum acordo, rescindir o contrato - conta Marcílio, que deu lugar ao premiado Mário Prata, autor de Estúpido Cupido, entre outras. Mário, por sua vez, adicionou ao projeto dois escribas da nova geração: seu filho, Antônio Prata (autor de Estive pensando, Editora Record), e Chico Mattoso (Parati pra mim, Editora Planeta). O trio chegou a desenvolver cinco capítulos, que foram modificados.

- Li as alterações da Arlete e pensei ''não dá pra fazer''. Parecia um elogio à cirurgia plástica e eu não quero fazer isso. Imagina se as pessoas começam a achar que é isso que vai resolver a vida delas? - questiona Mário. Chico Mattoso enxerga no tema uma questão pessoal para Arlette:

- Eu tenho a impressão de que é muito importante pra ela, como um sonho, e ela não quer que ninguém meta o bedelho nele - comenta o ex-colaborador.

A arte do estica-e-puxa é mesmo próxima do grupo Casablanca: em 2003, a produtora realizou a transmissão do IV Simpósio de Cirurgia Plástica Internacional. Além disso, a organização da quinta edição do evento, que acontece em março em São Paulo, anuncia em seu site (http://www.bold.art.br/simposio/programacao/social.html) um coquetel na ''Clínica Metamorphoses'', mansão que fica na mesma rua em que estão localizados os estúdios da Casablanca. Depoimentos recomendados como material de referência aos autores destacavam o lado positivo das cirurgias plásticas:

- Era algo nesse sentido: ''opere seu nariz, seja feliz'' - comenta Antônio.

A Casablanca nega que Mário e os rapazes tenham desistido da empreitada, garantindo que deveriam desenvolver apenas os primeiros capítulos e que o contrato expirou em dezembro. O escritor contesta:

- Fui convidado pra uma novela inteira, recebendo R$ 100.000 por mês. Decidi sair quando vi que Arlete tinha colocado de volta no texto a sinopse dela, provavelmente achando que, por estar me pagando dinheiro, devíamos aceitar tudo.

Antônio completa:

- Fomos chamados pra criar uma novela, não pra escrever idéias prontas de outras pessoas.

Apesar disso, todos os autores fazem questão de frisar que desejam que o projeto dê certo mesmo sem a sua colaboração.

- Tem muita gente da área precisando de trabalho: atores, equipe ...Seria bom para todo mundo - avalia Mário Prata.

O projeto 'Charlotte K'

A Record já teve comprovada a competência da Casablanca antes, através da Turma do Gueto, da produtora, que emplaca a sua quinta temporada na emissora. Levando em conta o sucesso da série, as expectativas para a novela são boas.

Mas quem teria assumido o roteiro de MetAMORphoses? Tchan-tchan-tchan: segundo anunciou a Casablanca, saem de cena Mário e cia. e entra a misteriosa Charlotte Karowski, pseudônimo típico de folhetim. Para os que acompanham a novela de MetAMORphoses, o nome esconde a própria Arlette. Ela nega, no entanto, que o esteja escrevendo, em associação com uma nova equipe.

- Tenha paciência. O projeto ''Charlotte K'' é um esquema profissional que será revelado assim que a novela entrar no ar - despista. Ex-colaboradores apostam que ela vai incluir o mistério da autoria no enredo, solucionando-o no ar.

No entanto, um e-mail enviado ao Jornal do Brasil pelo assessor da Casablanca, Antoninho Rossini, parece confirmar os boatos. O pedido de entrevista enviado à secretária da Casablanca foi repassado à Arlette Siaretta. No entanto, logo abaixo na mensagem, é Charlotte quem pede a Rossini que atenda a repórter. Uma cena que parece saída da novela global Araponga.

Arlette também não confirma se já passou por alguma plástica.

- O interesse não é pessoal, mas sim do contexto da vida moderna. Basta ler jornais, revistas ou atentar para a televisão para se saber o quanto as cirurgias plásticas vêm despertando o interesse de homens e mulheres. Vale dizer também que a cirurgia plástica não é sinônimo de estética, mas também corretiva. Como todos sabem, o Brasil é um centro mundial desta especialidade da medicina, uma referência.

Autora ou não da trama, Arlette Siaretta prova ter talento para criar suspense e ação rocambolescos, do jeito que caem bem na telinha. Se a sua trama resultar tão divertida quanto os bastidores, teremos um novelão.

escrito às 12:01 PM por Cecilia Giannetti




Hélio Pellegrino - Muitos amores

Livros com inéditos de Hélio Pellegrino revelam em poesia, psicanálise, política e religião a constituição do intelectual humanista

Cecilia Giannetti

Arquivo Casa de Rui Barbosa

Hélio Pellegrino, que jamais organizou seus escritos em livros e que faria 80 anos este ano

Não espanta o fato de Hélio Pellegrino nunca ter tomado a iniciativa de organizar seus poemas, ensaios e artigos em livros. Como ele mesmo definiu, era um ''homem de muitos amores'' - isto é, de muitos interesses - e, ''para tão longos amores, tão curta é a vida''. O poeta e psicanalista mineiro dedicava-se a produzir para jornais e revistas, escrevia em cadernos de anotações e encarnava o ''homem-comício'', como o chamava o historiador Francisco Iglésias, falando com as mãos e brilhando como orador quando um assunto lhe despertava a paixão. Era bibliófobo, como definiu Otto Lara Resende, que formava com Hélio, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino o quarteto de mineiros inseparável no imaginário da literatura brasileira.

''Sou um homem disperso pela imprensa desde sempre'', afirmou Hélio, certa vez, em entrevista à Rádio JB. Não viveu o suficiente para mudar a situação: faleceu em 1988, aos 64 anos, deixando noutras mãos a tarefa de reunir seus textos. Em 2004, Hélio completaria 80 anos e a data é marcada por dois lançamentos: Arquivinho Hélio Pellegrino (Bem-Te-Vi) e Lucidez embriagada (Planeta), que trazem textos inéditos e outros publicados na imprensa que, até então, permaneciam nos acervos da Casa de Rui Barbosa (Ministério da Cultura, no Rio de Janeiro) - onde haviam sido depositados pelo psicanalista Pedro Pellegrino, filho de Hélio -, e de Otto Lara Resende no Instituto Moreira Salles, em São Paulo.

Assim como muitos leitores de sua idade, Antonia Pellegrino, 24 anos, desconhecia esse material. Em janeiro de 2003, decidiu pesquisar os acervos e passou cerca de um ano lendo e relendo o avô. A partir deste trabalho, organizou Lucidez embriagada.

- Em vários momentos, reconheci nas palavras dele coisas fundamentais da minha educação e que moldaram a minha personalidade, o meu jeito de pensar o mundo, de me colocar nele. Coisas que eu não sabia que tinham sido passadas de pai pra filho, e daí pra mim - conta Antonia, cujos gestos largos com as mãos enquanto fala não negam sua origem.

De acordo com Antonia, o critério de seleção dos textos foi pensado a partir dos temas mais recorrentes. A divisão insinua um encadeamento de questões primordiais para Hélio Pellegrino: o primeiro capítulo, Hélio, inclui uma entrevista concedida à escritora Clarice Lispector e um ensaio sobre si mesmo. Apesar de as três partes do livro contarem com bilhetes, cartas e poemas, esta é a mais autobiográfica. No segundo capítulo, Outro, artigos sobre Nelson Rodrigues, Mário de Andrade, Che Guevara e Alceu Amoroso Lima. Fala também de sua analista, Iracy Doyle, e de Lacan. Encontro é a terceira parte, em que Hélio discute política e joga sua eloqüência contra a ditadura; acabaria preso após o AI-5 como líder comunista, dividindo cela com o jornalista Zuenir Ventura, que assina a orelha do livro. Trata de psicanálise e das possibilidades do que considerava o principal trabalho do ''homem que merece seu nome'': o encontro com o outro.

O lançamento da Bem-Te-Vi, segundo volume da Coleção Arquivinhos (o primeiro homenageou os 90 anos de Vinicius de Moraes em 2002), por sua vez, agrega uma biografia escrita pelo jornalista e editor Paulo Roberto Pires, autor de Hélio Pellegrino - A paixão indignada, publicado em 1998 na série Perfis do Rio (RioArte/Relume-Dumará) e a cronologia com toques literários escrita por Antonia. Do baú de Hélio, há oito poemas extraídos de O livro da amiga, enviados pelo autor a Otto Lara Resende em 1947. Inéditos, os versos foram inspirados em Maria Urbana Pentagna Guimarães, mulher da alta sociedade de Belo Horizonte com quem Hélio foi casado por mais de 20 anos e teve sete filhos.

O Arquivinho traz outros inéditos, como uma carta do escritor paulista Mário de Andrade, de 1944, para o futuro poeta-psicanalista (que, na época, ainda era um estudante de medicina) e uma de Hélio, datada de outubro de 1967, para Otto. Completam o livro A ressurreição da carne, extraído de Hélio Pellegrino A-Deus, organizado por João Carlos Moura em 1988, e Abençoada esquizofrenia, sobre Fernando Diniz, paciente da psiquiatra Nise da Silveira e artista plástico.

A radiografia apresentada pelos dois livros mostra literatura, psicanálise, política e religião como obsessões indissociáveis em Hélio. Em vez de cindi-lo, esses interesses difíceis de serem conciliados definiram um intelectual.

escrito às 11:55 AM por Cecilia Giannetti






Show para o instrumentista

Em apuros financeiros, Hélio Delmiro recebe solidariedade de artistas como Guinga, Nana Caymmi, Wagner Tiso e Macalé

Cecilia Giannetti

Ele já gravou com Tom Jobim, Elis Regina e Sarah Vaughan, produziu Clara Nunes, excursionou com Milton Nascimento e Elizeth Cardoso e criou, em 1981, um marco da música instrumental brasileira, Samambaia, com o pianista César Camargo Mariano. O currículo é extenso, mas, no momento, permanece estacionado: o violonista Hélio Delmiro, 58 anos, está detido há dois meses no 5º Distrito Policial de Santos, em São Paulo. Delmiro é diabético e, sem curso superior, está em cela comum, numa carceragem com capacidade para 24 homens que, atualmente, abriga 140.

O músico acumula uma dívida de R$ 11.500,00 em pensão alimentícia, valor que não tem condições de quitar. Foi detido um dia antes de começar a trabalhar como professor de música na Escola Souza Lima, em Santos. Sem fonte de renda e diante da dificuldade de acordo com a ex-mulher, Adriana, conta com nomes de peso da MPB para reverter a situação.

- Não me envolvo na questão familiar do Helinho, só estou fazendo o que posso através da música para tirá-lo da prisão. Ele deixou de pagar porque não tem dinheiro mesmo. É um artista consagrado, mas músico, no Brasil, você sabe como é... não tem situação estável. Com música instrumental, então, fica ainda mais difícil - avalia o compositor Moacyr Luz, amigo do instrumentista desde a adolescência, época em que dividiram um apartamento.

Moacyr é o responsável pela organização do show em benefício de Delmiro, que reunirá amanhã, às 21h, no Teatro João Caetano, Nana Caymmi, Guinga, Jards Macalé, Paulão Sete Cordas, Aldir Blanc, Wilson das Neves, João Lira, Victor Biglione, Wagner Tiso, Yamandú Costa, Leila Pinheiro, Cristóvão Bastos, Grupo Maogani, Trio Madeira Brasil, Zé Renato, Marco Pereira e Fátima Guedes. A renda da bilheteria (com ingressos a R$ 20) ajudará a quitar a dívida.

Em 2003, Delmiro chegou a propor à ex-mulher o parcelamento da quantia em dez vezes e um carro da família como parte do pagamento - a oferta foi recusada. Em maio de 2004, ofereceu pagar três meses de pensão, procedimento que costuma ser acatado. Ainda assim, teve prisão decretada pela juíza da 5ª Vara de Família do Distrito Federal e um pedido de habeas corpus negado.

- Tentamos fazer acordos, mas a Adriana não quis. Segundo ela, é tudo ou nada - conta Míria Moris, esposa de Delmiro.

Segundo Míria, há chance de que Delmiro seja solto na quinta-feira, mas tornará a ser preso se não conseguir levantar a verba e continuar inadimplente. A pena aumenta se ele for detido novamente e passa para 90 dias; e, na vez seguinte, pode chegar a um ano e meio.

- Querem que ele morra na cadeia para depois virar nome de rua? Ele deve dinheiro, sim, mas não merece ficar numa cela misturado com bandidos todo esse tempo. Se ele não estiver livre para trabalhar não terá como pagar - protesta a amiga Lívia Calazans dos Santos.

Adriana é mãe de três dos seis filhos de Delmiro: duas gêmeas de 19 anos - tempo em que ficaram casados - e um rapaz de 16. Procurada pela reportagem do Jornal do Brasil, Adriana se recusou a fazer declarações.

O Teatro João Caetano fica na Praça Tiradentes s/n, Centro (tel.: 2221-1223)

escrito às 11:53 AM por Cecilia Giannetti




Aventuras de um pop star gente boa

Em turnê pela América Latina, Evan Dando canta até em praça

Cecilia Giannetti

Praça Serzedelo Correia, 7 horas de uma manhã de sábado. Um gringo toca violão acompanhando a cantoria truncada de um desconhecido que acabara de encontrar por ali mesmo. Ambos aparentam ter passado a noite em claro; fora isso, nada em comum. Sequer falam a mesma língua e não partilham as mesmas, digamos, referências musicais. Ainda assim, o anônimo canta a plenos pulmões e o gringo dedilha sua viola, registrando o encontro num gravadorzinho sobre uma das mesas da chamada 'Praça dos Paraíbas', em Copacabana, onde idosos costumam jogar damas.

O gringo é Evan Dando, 37 anos, vocalista, guitarrista e alma da banda norte-americana Lemonheads, que naquela madrugada ressuscitara a carreira, após um hiato de sete anos, passando a limpo o repertório que fez a fama do grupo nos anos 90 e fazendo a alegria dos fãs de indie rock que lotaram no dia 14 o Ballroom, no Humaitá, para vê-lo.

Quis o acaso que passassem pela praça, naquele momento, José Felipe Calderon e Paulo César Ferreira, responsáveis pela vinda do músico ao Brasil, junto à produtora Motor Music. A caminho de uma saideira, depois de acertar as contas com o empresário de Evan num hotel próximo, Zé Felipe e PC registraram a cena numa câmera digital. Se contassem para os outros produtores, ninguém acreditaria.

- O cara tinha dado trabalho antes do show, é cheio de manias. Mas é gente fina - conta Zé. - Ele saía do camarim pra perambular. Subia a ladeira atrás do Ballroom, ia até o fim da rua, sentava no chão e ficava tocando violão. Fez isso umas cinco, seis vezes.

- Fiquei igual babá de criança - diz o DJ Gordinho, um dos que foram buscar Evan na rua. - Imagina se ele se perde no Humaitá de noite? Não ia rolar show.

Se Gordinho tentava manter um nível adequado de sanidade no camarim, o assistente de produção Daniel Develly garante que a loucura já havia começado bem antes, na estrada. Encarregado de receber Dando no Rio, à tarde, ele soube que o cantor não conseguiria chegar a tempo de passar o som na casa de shows. Ao passar por São Paulo, ele mandara o motorista do ônibus da turnê fazer um pit-stop no Hospital Sírio-Libanês.

- Ele disse que estava ficando sem voz e precisava tomar uma injeção para melhorar - lembra Daniel.

Durante o show, as letras confessionais de Evan saíram mesmo meio roucas por cima de suas guitarradas. Os fãs pareciam não se importar com o lado tosco do revival e cantavam juntos, colados ao palco.



Evan Dando e o inseparável violão, na Praça Serzedelo Correia, em Copacabana, às 7 horas da manhã

Há dez anos, o Lemonheads levou hits como Confetti e My Drug Buddy para além da parada de música alternativa e o sucesso, por sua vez, levou a excessos: Evan namorou quem quis e quem ninguém queria, como a viúva de Kurt Cobain (a encrenqueira-de-carteirinha Courtney Love). Da segunda metade dos 90 em diante, passou a encarnar o popstar problemático, o que culminou com sua prisão durante uma turnê pela Austrália e um incansável entra-e-sai de clínicas de reabilitação.

A volta por cima custou a acontecer. Depois de sete anos sem lançar um disco, em 2003 ele voltou a compor, ao lado de um novo parceiro, o produtor Jon Brion, conhecido por seu trabalho com Aimee Mann, Fiona Apple e por trilhas sonoras para os filmes de Magnolia e Boogie nights.

Com as músicas que escreveu em colaboração com Jon para o CD Baby I'm bored, Evan compensa os micos de seu tumultuado passado: o último álbum mostra que, apesar de um tanto abatido pelos tropeços na estrada da fama, ele não perdeu o dom de fazer canções no estilo amarguinho-doce e bons refrões.

Seu gosto musical, no entanto, pode ficar alterado após a viagem ao Brasil. No dia em que estava na Praça Serzedelo Correia, ao ver os co-produtores do show, foi até eles mostrar o que tinha gravado com o novo ''amigo''. Abriu um sorrisão e apertou o play no aparelho, anunciando que se tratava de uma cool song.

- Era o mendigo cantando: ''É preciso amaaar as pessoas como se não houvesse amanhããã...'' - conta Zé Felipe, rindo.

Evan Dando, quem diria, virou fã do ''Urban Legion''.

escrito às 11:47 AM por Cecilia Giannetti




Terça-feira, Outubro 11, 2005

UMA BALA PARA HUNTER THOMPSON

[Revista Trip]

And the ashes of the dreams
Can be found in the magazines
And it seems there are no more songs.
- Phil Ochs, No More Songs

Eu podia começar com o pronome pessoal que vem definindo décadas desde os anos 80, emendar na lista de remédios que tenho tomado pra não sentir dor desde que me estropiei num acidente estúpido antes do Carnaval e que agora me força a trabalhar de casa até os médicos acharem que eu não vou me quebrar outra vez se pisar no chão, podia apertar o gatilho num parágrafo longo pacas com pouca pausa pra respiração que reproduzisse o efeito veloz de uma cartela de antinflamatórios-e-deus-sabe-lá-mais-o-quê levada goela abaixo com cerva e podia disparar uma boa seqüência de cacoetes que muitos escritores pensam ter adaptado a partir da escrita automática do Kerouac e parece ter se tornado um meio seguro de emular um estilo único, o GONZO. Seu criador, Hunter Thompson, talvez estivesse cansado disso quando deu um tiro na própria cabeça no dia 20 de fevereiro de 2005, aos 67 anos de idade. Vai ver tava cansado de ser um emblema da turma "do contra", de ter se tornado algo por demais amalgamado à cultura de massa para continuar sendo relevante contra ela. E vai ver não foi nada disso.

Podia mas não pode ser só isso e não se pode falar de Hunter S. Thompson sem falar de jornalismo gonzo e de jornalismo literário. A vida dele era isso, e o jornalismo que fazia era sua própria vida, cuspida e escarrada nas páginas de livros e revistas desde a década de 60 conforme se jogava em pautas que poucos editores teriam culhão e, antes de tudo, faro pra publicar e nenhum, repito, nenhum escritor além dele toparia. Um exemplo? Hell´s Angels, assunto do primeiro livro de Hunter Thompson. O mergulho na vida dos motoqueiros foi sinistro e o convívio culminou em espancamento do repórter pelos próprios Angels (fontes rebeldes, sabe como é).

Hunter Thompson foi inventor e praticante solo do Gonzo, gênero que radicalizou o jornalismo literário praticado por Tom Wolfe, Gay Talese, Joseph Mitchum, Mark Kramer, Lester Bangs e outros, e que, por si só, já era radical demais. Uma tradição cujos primeiros passos podem ser rastreados nos rabiscos de Mark Twain, Stephen Crane, John dos Passos, Ernest Hemingway, George Orwell e - porra, finalmente uma fêmea, "I am putting real plums into an imaginary cake", disse ela, Mary McCarthy.

MUITA DOIDEIRA

De onde veio esse estilo? Da piração veloz e crescente que toma o mundo desde o começo da mudernidade: de repente, estávamos viciados em informação, tínhamos jornais, revistas, rádio, TV - e, hoje, o arsenal é ainda mais amplo e a quantidade de info sobre os altos e baixos do mundo circula mais frenética: internet, milhões de canais a cabo, celulares - mas nada parecia dar conta das mudanças que aconteciam no mundo. Muita doideira acontecendo muito rápido: NY-terror, barbárie, doenças, bombas, viagens espaciais, revoluções comportamentais por segundo ¿ era demais pra caber no esquema quadrado, começo-meio-e-fim, que faz a praxe do jornalismo comum.

Por tudo isso e mais alguma coisa, no começo do século passado, surge o monstro do jornalismo literário e faz imenso sucesso nos Estados Unidos. No Brasil, ele só chega com a revista Realidade em 1966 e fica até 1968, quando é então inviabilizado pelo AI-5. Ele dorme até a década de 90 e só aí começa a se coçar pra finalmente tentar ressuscitar no patropi. E um certo maluco publicado pela TRIP faz parte desse naipe, assim como os sites Irmandade Raoul Duke e Cucaracha.com.br, entre outros.

Não dá pra reduzir a uma fórmula um estilo inimitável, embora existam vários escritores-adeptos mais ou menos decentes. Gente influenciada por Hunter Thonpson e que ainda acredita que a única forma realmente útil de se reportar fatos de um dia-a-dia cada vez mais caótico, de um mundo cada vez mais complexo, é não editar a realidade.

Mas o que a TRIP me pediu foi uma teoria explicando o suicídio de Hunter Thompson. Não longas digressões sobre estilos literários. Só que neste caso nobre, o estilo faz o cara.

Eu já tava pensando nisso quando meti um livro dele na bolsa e fui pra fisioterapia de manhã. Enquanto uma loira oxigenada e bastante masculinizada fazia atrocidades inenarráveis com meu pé direito atochado ao colo dela, eu tentava me concentrar num capítulo de Kingdom of Fear, a autobiografia do Thompson publicada em 2003 (Picador). Os capítulos do livro têm subdivisões que lembram entradas de diário. Além de outras tantas características inegáveis do cara, a maioria dos textos traz na abertura uma das marcas criadas por ele: epígrafes que citam rock e pop. Bob Dylan era um dos preferidos do Thompson pras introduções e ele vinha usando letras de músicas do fanho desde sempre. Na entrada que eu lia na sala de fisioterapia, um trecho de "Ballad of a Thin Man", de Highway 61 Revisited, disco lançado por Dylan em 1965) anunciava um texto datado de Novembro de 2000, chamado "The New Dumb" (Os novos estúpidos). Depois de dizer que todos os pesadelos inevitáveis de que temos notícia, desde abdução, estupro-e-infanticídio até o assalto propagado pelos debt collectors, todos esses iam parecer p-i-n-t-o perto do que vem por aí, ele dá a entender, à sua maneira, que essas e outras afrontas que já encaramos como parte do cotidiano em breve parecerão um idílio e que os EUA, a Potência, contam com algo que passa por um Congresso mas não pode atuar como tal e que o presidente é um boneco. Ele escreve:

Guaranteed Fear and Loathing. Abandone toda a esperança. Prepare-se para o Estranho. Familiarize-se com o Canibalismo.

Boa Sorte, Doc.


POR QUÊ?

Eu tenho duas teorias sobre o suicídio do Hunter, e dois é o menor número de opções pra se configurar uma boa paranóia:

1) Quando, na autobiografia, ele nos aconselha a abandonar a esperança e nos deseja boa sorte, é onde ele finalmente pede as contas. É a despedida. Que me lembra a melhor música de Bob Dylan, um dos preferidos do Doutor, desde a década de 70: "Things Have Changed", de 2003:

People are crazy
Times are strange
I´m locked in tight
I´m out of range
I used to care
But things have changed


Ele não se importa mais. Gonzo has left the building. (Precisava ser mais óbvio aqui?) Esta me parece a versão mais triste: puro abandono de tudo em que ele sempre acreditou que servia pra alguma coisa. Como se não valesse mais a pena escrever contra toda essa merda.

2) A segunda hipótese trabalha com a estranha coincidência entre o fim de Hunter Thompson e o de um de seus heróis, Ernest Hemingway. Se olhamos pra trás hoje, vemos o buraco na cabeça de Hemingway. What lured Hemingway to Ketchum, a investigação de Thompson sobre o suicídio do autor de O Sol Também se Levanta, publicada em 1964, conclui que Hemingway foi vítima do que intuíra como a maneira que a América tinha de destruir seus melhores escritores: "Nós não temos bons autores", Hemingway explicara em As Verdes Colinas da África. "Algo acontece com nossos autores quando atingem certa idade... você vê que nós transformamos nossos escritores em coisas muito estranhas... Nós os destruímos de várias maneiras." E Thompson escreve sobre isso: o próprio Hemingway parece nunca ter compreendido de que jeito estaria sendo destruído, então jamais compreendeu como evitá-lo!. O mesmo talvez pode ter acontecido com Hunter Thompson.

Gente estranha, gente esquisita: não se desesperem. As últimas palavras de Thompson podem ser lidas nessa autobio, Kingdom of Fear, e não são amargas. São para nós.

Ele repete a definição que uma garota faz dele: "Você tem a alma de uma garota adolescente presa no corpo de um velho drogado. (...) É por isso que você tem problemas. É por isso que as pessoas dão risinhos nervosos de medo quando você entra numa sala." E assume: sua maior mania é a paixão e ele é um escravo natural da paixão. Diz que sabe o que as pessoas pensam quando ele entra em algum lugar:

"Eles estão extremamente desconfortáveis com a idéia de que eu sou uma adolescente presa no corpo de um drogado de 65 anos de idade que já morreu 16 vezes. Dezesseis, todas documentadas. Eu já fui esmagado e espancado e eletrocutado e afogado e envenenado e esfaqueado e abatido a tiros e incinerado por minhas próprias bombas... todas essas coisas aconteceram , e provavelmente elas acontecerão outra vez. Aprendi alguns truques no caminho (...) mas, principalmente, tenho tido sorte, eu acho, e uma atenção especial para com o karma, junto com meu charme natural de mocinha adolescente."

escrito às 4:56 PM por Cecilia Giannetti




Segunda-feira, Setembro 26, 2005

Novela futurista na web

Norte-americano atrai fãs ao narrar viagem pelo tempo e intriga até cientistas

Cecilia Ginnetti

Como você se apresentaria ao mundo se fosse um viajante do tempo? O norte-americano John Titor escolheu começar por um fórum de discussão na internet onde passou a expor, em novembro de 2000, um relato sobre a sua missão: ''retornara'' do ano 2036 até 1975 numa máquina criada pela General Motors para buscar um computador da marca IBM, modelo 5100, na casa de seu avô, um especialista em informática que trabalhava para a empresa.

Resolvido este problema, contou, decidiu dar uma passadinha na casa dos pais, na Flórida, em janeiro de 2001, onde conviveu por dois meses não apenas com eles mas também acompanhado de uma versão de 3 anos de idade de si mesmo. O último post de Titor data de 24 de março e anuncia sua volta a 2036.

O que deixou para trás, na web, é um tipo de ficção científica que, sem se assumir literária - e dispensando também o formato usual de livro - aproveita internet, a permanente paranóia norte-americana em torno de questões patrióticas e militares e relatos diretos do futuro nos quais, segundo ele, o fascismo predomina.

Os primeiros posts desse H.G. Wells-internauta atraíram antes os velhos freqüentadores do fórum (http://www.timetravelinstitute.com/ttiforum/), aficionados por teorias conspiratórias e, principalmente, causos sobre viagens no tempo. Num nível de narrativa diferente do caos dos blogs, a história é construída a partir desse diálogo online.

Titor mobilizou um tipo de leitor geralmente perdido num ambiente dispersivo de zilhões de possibilidades de cliques e hyperlinks. Sabatinado diariamente por centenas de leitores sobre tópicos relacionados à vida no futuro e seus motivos para viajar no passado, desenvolveu seu ''romance'' ao longo de três meses de bate-papo na internet.

Hoje, três anos depois que seu último post foi ao ar, ainda deixa com a pulga atrás da orelha pesquisadores como Karl Simanonok, um Phd em física e biologia radiotiva de 54 anos, formado pela Universidade da Califórnia.

- A história que ele conta tem forte consistência, com poucos ''buracos'', algumas discrepâncias - opina Simanonok.

Interessado nas teorias com que Titor salpicava sua novela futurista interativa, Simanonok decidiu criar um website para alinhavar a lenda de Titor. Em menos de um ano, o http://www.johntitor.strategicbrains.com recebeu quase 1 milhão de visitantes.

- Quis evitar que fosse tudo completamente esquecido no ''fluxo'' da web - explica.

Mas este não é o único motivo. O PhD de Simanonok não o impede de acreditar na possibilidade de Titor ter sido um viajante do tempo. O pesquisador arquiva no site o copyright das mensagens de Titor. Ele registrou as mensagens para provar que não haviam sido produzidas depois de os fatos ocorrerem, por enxergar paralelos entre um dos comentários feitos pelo personagem e a realidade em que os Estados Unidos começavam a mergulhar então.

''Vocês estão realmente surpresos por descobrir que o Iraque tem mísseis agora ou isso é só baboseira para arrastar todo mundo a aceitar a próxima guerra?'', provocava Titor. Em fevereiro de 2001, o viajante afirmou que os americanos entrariam na guerra usando como justificativa armas que os iraquianos estariam escondendo, mas, na verdade, não possuíam. Os leitores de Titor adoraram as coincidências. Outros, decidiram se aproveitar delas para criar a Fundação John Titor, representada por um advogado espertalhão chamado Larry Haber, que arrecada verbas para ''ajudar a família do viajante na Flórida''.

- São um bando de mentirosos, é claro - diz Simanonok.

Quem gosta de ficção científica vai se deliciar com as complexas explicações de John Titor sobre os procedimentos que podem viabilizar a viagem no tempo. Para fisgar o leitor na web, onde o excesso de informação e distrações torna difícil que alguém agüente ler um livro inteiro na tela do computador, Titor usa bons conhecimentos de História mundial, especialmente guerras, e bases reais: ele cita centros de pesquisa reais como o CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), em Genebra, criado há 50 anos. Foi lá que, na década de 90, o sr. WWW, ou seja, Tim Berners-Lee desenvolveu a World Wide Web.

E Titor garante: lá também surgirão, nos primeiros anos do século 21, as primeiras descobertas necessárias para garantir um ''rolé'' pelos séculos futuros e passados, que já estão ocorrendo hoje, na CERN.

Na imaginação do viajante, a invenção que possibilitaria a criação de um sistema para esta improvável viagem aconteceria por conta dos cientistas da CERN (http://public.web.cern.ch/public) e a máquina do tempo propriamente dita, construída pela General Motors. A engenhoca surgiria a partir das pesquisas do CERN sobre massa, gravidade e prótons acelerados a altíssima velocidade. Isto é feito através de aceleradores de partículas, que já são utilizados na medicina (no tratamento do câncer e tecidos danificados), na criação de túneis para metrô, na identificação de bagagem contendo drogas nos aeroportos e, em breve, na esterilização de água contaminada e transformação de lixo nuclear em material inofensivo.

Se John Titor tinha ou não a intenção de fazer um livro online, ninguém sabe. Mas a troca de mensagens detonada por ele alinhavou uma espécie de história de ficção científica que até hoje está disponível em vários sites, construída, passo a passo, online; um tipo de literatura em que o autor coloca-se como personagem e se entrega aos seus leitores. Sem perder o timing da ficção.

escrito às 1:44 PM por Cecilia Giannetti




Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Ferrez: Morando dentro do tema

Cecilia Giannetti

Autor de livros em que mistura ficção à sua vivência na periferia, Ferréz não deixa o Capão Redondo, onde nasceu

Capão Redondo, bairro da periferia paulista. Por trás do balcão da padaria, o menino Reginaldo Ferreira da Silva vê o carro da polícia parar em frente. Um grupo de policiais armados desce e faz ao garoto um pedido um pouco insólito. Precisam de baldes d'água e um pano para limpar o carro. Iam transferir um cadáver para outro veículo. A viatura tinha que ficar limpa. Quem conhece o texto de Ferréz, de 27 anos, encontra nessa história da infância do escritor traços vivos da literatura que produz hoje.

O sucesso de Capão pecado (Labortexto, 2002) não o tirou do bairro que inspirou o livro. Nascido em Valo Velho, região do que é considerado um dos bairros mais violentos de São Paulo, Ferrez continua, como diz, ''morando dentro do tema''. Alia ficção à vivência na periferia para construir um texto veloz, sem barreiras com a realidade. Combinadas com a militância do escritor no Capão, essas características geram polêmicas com outros autores. Em debate na 18ª Bienal do Livro de São Paulo, na última semana, Ferrez contou ao público sobre uma crítica que recebera naquela semana - por telefone - de Marcelo Mirisola. O autor de Bangalô (Editora 34) e colunista do site America On Line teria dito que Ferréz não faz arte, mas está ''concorrendo para virar santo'' e que a literatura de verdade não deveria abordar questões sociais.

- Falar da realidade e não interferir nela é hipocrisia. Não posso ficar no meu escritório escrevendo sobre o que acontece sem fazer nada - contra-ataca Ferréz. E esquenta a polêmica:

- Esses caras erraram ao escolher o nome Transgressores para aquele livro [refere-se à coletânea de contos da editora Boitempo, de que Mirisola faz parte]. Não tem nada de transgressão em sentar num barzinho da Vila Madalena e beber chope.

Para Mirisola, é arte pela arte ou nada:

- Eu acho muito perigoso dizer que a literatura pode tirar alguém da marginalidade. O que ele faz é assistência social - rebate.

Alfinetadas à parte, Ferréz procura maneiras de modificar o bairro, que tem poucas opções de lazer e cultura. Sua empreitada mais recente é a compra de uma casa para construir uma biblioteca e tornar mais fácil o acesso a livros no lugar. Ele não esquece que, para que
descobrisse a leitura, foram necessárias duas coincidências:

- Comecei a ler gibi por acaso: um cara largou uma revista da Marvel num banco. Eu catei, mas só depois de ver se ele não ia voltar pra pegar. Minha mãe não deixou eu encostar na revista até ter certeza - conta.

Quando as histórias em quadrinhos não davam mais conta da curiosidade de Ferréz, veio o segundo acaso: ao levar um frango assado para um vizinho em dificuldades, encontrou livros que a mãe do garoto deixara ao abandonar a casa. Entre os títulos, Sidarta, de Herman Hesse, chamou-lhe a atenção. Foi o responsável por fazê-lo trocar os quadrinhos pelos romances. A partir daí, passou a visitar sebos em busca de livros a preços acessíveis. Foi assim que leu ''o que ninguém queria mais'' - João Antônio, John Fante, Bukowski e os beatniks.

Nenhum deles, no entanto, merece o destaque que Hesse tem em sua casa.

- Tenho uma foto dele em cima da mesa. Tem gente que olha e pergunta se é meu avô - ri.

Popular nas ruas do Capão, onde o esgoto corre a céu aberto, Ferréz tem aproveitado a fama para criar oportunidades para a vizinhança.
Recebe currículos de seus leitores e vizinhos desempregados que repassa a voluntários da platéia de suas palestras dispostos a ajudar.

A transação é informal.

- Vem sempre alguém falar comigo no final de uma palestra. Às vezes a pessoa sabe de uma vaga numa empresa, eu conheço gente que precisa trabalhar e encaminho - explica. Com um novo livro, Manual prático do ódio (Editora Objetiva), o autor se considera uma referência para a comunidade onde nasceu:

- Sou um bom exemplo pros moleques, do tipo que a mãe pode apontar na rua e dizer: ''aquele ali é escritor. Tem que estudar pra ser que nem ele''. Da mesma maneira, muitos rappers da área deram certo e ficaram por ali, pra servir de exemplo, fazer palestras, ajudar.

A revista Literatura Marginal, que publica em parceria com a Caros Amigos, faz parte do plano de ação. Uma parte dos exemplares é destinada a penitenciárias e à Febem. A venda dos demais serve para patrocinar a próxima edição e pagar os autores publicados. Outra
ferramenta é o hip hop, com que Ferréz já trabalhava antes de ser escritor, compondo para grupos como Detentos do Rap. Em janeiro, atacou de MC, lançando o CD Determinação, com participação do amigo Arnaldo Antunes.

Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, também faz parte do seu círculo de amizades. Apesar da temática do trabalho de cada um cruzar-se em alguns pontos, Ferréz aponta influências diversas:

- É que ele foi universitário, é professor [Ferrez parou de estudar no terceiro ano]. Já eu não leio pesquisas sobre questões sociais, geralmente são escritas por quem não entende a realidade direito.

Romances que tratam de um panorama distante do que é vivido pelo autor também não fazem a cabeça de Ferréz. Ele cita como exemplo Inferno, de Patrícia Melo, sobre a vida de um garoto que se torna líder do tráfico de drogas em um morro carioca.

- Tem gente usando os pobres para ganhar dinheiro.

Ferráz também tem ressalvas quanto a outros autores que abordam em seus textos a realidade marginal, como Fernando Bonassi e Marçal Aquino:

- Eu vejo muitas falhas nesses textos, apesar de achá-los bons escritores. Quando um cara entra num bar e a bala come, é só ''pipoco'', não tem diálogo. Se der tempo de gritar alguma coisa, é só ''PQP''. Na descrição deles [ os autores], o pessoal diz: ''Nossa!''.

Para o escritor, o contato com o ambiente que o inspirou a escrever é essencial para que continue envolvido com literatura. Diz que maior parte dos autores têm cheiro de naftalina, como se vivessem guardados:

- Não consigo desvincular realidade de literatura. O escritor tem de estar vivo, presente na comunidade. O problema é de todas as classes, mas fica difícil resolver porque a única representação do Estado que a favela conhece é a polícia.

Curiosamente, diante da chance de levar o cotidiano do Capão para as telas de cinema, Ferréz recuou. Quando o produtor John Daly (de Platoon) o procurou, interessado em transformar Capão pecado em filme, pesou contra a idéia o medo de marcar o bairro com uma imagem negativa:

- Ultimamente, estão abrindo lojas lá e isso gera empregos. Mas os investimentos iam parar se fizessem um filme violento sobre o Capão.

Decidi não fazer - afirma.

Levado a uma ''boate de rico'' por Daly, ele testemunhou a violência
que não nasce na pobreza:

- Saiu uma briga daquelas, no meio dos boys. Pensei: ''pô, tô no Capão''!

Na mesma semana em que participou do debate na Bienal de São Paulo, Ferréz apareceu no programa Usina, da MTV, para discutir sobre segurança e criminalidade. O canal de música garantiu uma platéia semelhante a que o rodeou na feira de livros: predominantemente jovem, com camisetas de grupos como Ramones e Nirvana e cheios de perguntas.

Por dentro do crime

No estúdio de TV, no entanto, o papo foi menos tranqüilo. Ferréz indignou-se com os comentários do outro debatedor, Rodrigo de Almeida Prado, empresário do ramo de importações que defende o porte de armas pelos cidadãos e dizia falar em nome da classe média. No debate, mediado pelo apresentador Cazé, Rodrigo afirmou que a polícia deveria intensificar suas ações nas favelas. Ferréz discorda:

- Com isso ele quis dizer que a polícia deve invadir mais barracos, né?

Entre as declarações do empresário que mais o irritaram estava o seu desejo de adquirir um carrinho de bebê blindado quando tiver um filho.

- Isso é um exagero. [O cantor e compositor]Chico César já veio aqui em casa de busão e não aconteceu nada - rebate Ferréz.

Manual prático do ódio traveste em personagens as pessoas de quem Rodrigo de Almeida - e muitos outros, empresários ou não -, querem se proteger. O autor acredita que, criando uma trama que divisa tanto a vida íntima de criminosos quanto os meandros da ação que planejam, ele possa mostrar que o bandido e o cidadão comum estão separados apenas por um fator: o crime. O livro acompanha a trajetória de Régis, um homem prestes a embarcar num assalto por acreditar que sua felicidade estará completa se tiver mais dinheiro. Sua história é a de muitos, e a culpa não é apenas do meio em que vive:

- Hoje tem moleque com fuzil na mão dando tiro. É que botam tanto na cabeça do cara que ele deve ter o padrão de vida da Malhação que ele faz tudo mesmo pra conseguir.

Ferréz diz que ''a arte resgata vidas'' mas sabe que nem todos poderão se tornar escritores ou rappers famosos. Ele salienta que, apesar disso, onde ela se faz presente há a possibilidade de uma porta se abrir:

- O que se aprende no caminho é importante. Se o cara não faz sucesso na música mas for interessado, pode virar técnico de som, trabalhar com isso.

Seu compromisso com o bairro também inclui palestras gratuitas e workshops em organizações não-governamentais. Mas ressalta que nem todas as ONGs que encontra nas comunidades são confiáveis: há aquelas que realizam apenas medidas paliativas e, segundo ele, ganham dinheiro no processo.

- Muitas vêm aqui, constroem muros altos e deixam a população de fora.

Ajudam um ou outro e embolsam grande parte do dinheiro. O tratamento que o escritor dá ao tema da violência urbana ultrapassa os limites dos bairros onde se concentram as populações carentes - um termo que evita, por achar pejorativo. Seu texto atropela a pontuação para lembrar que o clima de guerra hoje atinge tanto as quebradas quanto os bairros mais ricos. Em Manual, as fronteiras da responsabilidade social são rompidas pela necessidade e pelo sonho:

''(...) imaginou que era um gigante, um gigante com mais de dez metros de altura, sua mão levantando sua casa, imaginou sua mão embaixo da casa, levantando-a e colocando em outro lugar, um lugar onde não haveria lixo, onde o córrego fosse canalizado (...) sem a favela vermelha chamada de Cohab, imaginou todos iguais''.

escrito às 10:09 AM por Cecilia Giannetti